Escolas públicas X privadas

Escolas públicas X privadas

Comparação de escolas públicas com privadas

A Folha de São Paulo divulga hoje (9-10-16) uma matéria sobre o ensino médio na qual inclui um gráfico que compara o IDEB das escolas públicas (linha vermelha) com as privadas (linha amarela superior). É um gráfico muito estranho pois o eixo à esquerda é interrompido e marcado de forma irregular. Veja no primeiro gráfico.

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No formato da Folha, apesar da tendência geral ser mantida, a distância entre as curvas da escola privada e da escola pública parece, ao leitor, muito maior. A eliminação da parte de baixo da curva (entre a pontuação “0 e 3”), fornece ao leitor a impressão de que as públicas estão na “lona”, rasas, por estarem próximas ao “eixo” que começa em 3.1 e não em zero. Há uma ampliação dos valores dos intervalos no eixo à esquerda, combinada com a omissão da base do gráfico.

O segundo gráfico, produzido com parâmetros do excel, mostra toda a área.

Além disso, a interpretação destas distâncias que a Folha (e outros jornais) também tem publicado, em especial com os dados do ENEM, tem sido sofrível, pois tem veiculado a ideia de que se pode comparar escolas públicas com as privadas. Embora isso seja possível, o método para isso tem uma certa complexidade e não pode ser feito apenas a partir das médias.

Nem é suficiente apenas reconhecer que o nível socioeconômico das escolas privadas é maior do que o das públicas. Reconhecido isso, é preciso calcular os valores da diferença incluindo o nível socioeconômico em processos estatísticos que vão muito além do recurso à média de desempenho de cada uma.

Embora haja diferença nas médias, observe-se que em nenhum momento a média das escolas públicas cai. Ao contrário, nas escolas privadas houve queda de IDEB por dois anos seguidos. Pode ser argumentado que enquanto a pública tem média de 3,5 as privadas estão com 5,2 – mesmo após a queda. No entanto, é aí que entram os outros fatores que favorecem a escola privada, como o nível socioeconômico dos estudantes e o “método” de ensinar para passar em exames. A própria matéria da Folha diz no título “Vestibular ditará reforma do ensino médio nas escolas particulares”:

“Os colégios avaliam, porém, que a grande influência para as mudanças virá de provas como Fuvest e Enem.”

A reportagem é importante pois põe em relevo que a reforma do ensino médio conduzirá ao aprimoramento da era do ensino voltado para a preparação dos alunos para provas. Como se sabe, esta era foi iniciada por Fernando Henrique Cardoso e teve sua versão 2.0 feita por Reynaldo Fernandes quando esteve no INEP no governo Lula. Para Reynaldo Fernandes, como aponta a Folha nesta mesma matéria já referida:

“Presidente do Inep na época dessa mudança [ENEM ser considerado prova seletiva para o ensino superior], o professor da USP Reynaldo Fernandes diz que o formato atual já permite um uso customizado. “O Enem é separado por áreas e as notas são separadas. Ele já poderia ser usado pelas instituições de forma diferente”, diz, citando que cada curso aproveitaria somente as notas relacionadas.”

Nisso se resume a atual mudança do ensino médio: melhorar médias permitindo uma preparação mais definida para as provas. E por outro lado, procura eliminar a juventude mais pobre da competição por cursos na Universidade.

Note que, sem querer, Reynaldo Fernandes nos fala, hoje, da intencionalidade da reforma do ensino médio: considera que as áreas de avaliação do ENEM já existentes são separadas e podem ser usadas separadamente pelas universidades, segundo o curso que o aluno escolha no novo formato do ensino médio. Ele se esquece de que pelo menos uma área ainda não existe no exame do ENEM. Seu esquecimento desta, revela o próprio esquecimento a que se quer relegar uma grande parte da juventude que não deve, na visão dos arquitetos da reforma, ir para a Universidade. É a área da “formação técnica e profissional”. E, mantida a análise de Reynaldo, não deverá haver exame específico para ela na nova arquitetura, pois esta “área” é destinada a retirar as pessoas da linha do vestibular e do acesso ao ensino superior – usualmente aqueles alunos mais pobres que irão para o técnico profissional. Por isso, para Reynaldo, não é necessário mudar nada.

Além desta questão relativa à reforma, há que se insistir em que preparar para exames, não é sinônimo de boa educação. Nem mesmo, ter médias mais altas o é. Antes de medir, temos que discutir o que é uma boa educação.

Não faz sentido nenhum, portanto, a insistência da Folha (inclusive em edital recente) tentando mostrar que as escolas privadas são melhores do que as públicas, sem considerar os fatores que favorecem o aumento da média das escolas privadas. Por isso elas têm metas diferentes: a meta da escola privada é 6,3 e a meta da escola pública (estadual) é 4. Enquanto a escola privada está a 1 ponto de sua meta, a escola pública está a 0,5 ponto da dela. A escola pública está fazendo sua lição de casa melhor do que as privadas.

Neste sentido, a única comparação possível é com a própria evolução de cada uma delas. Se considerarmos a diferença entre o primeiro IDEB e o último IDEB obtido em cada uma delas, teremos: as privadas, nos últimos 10 anos de IDEB, caíram 0,3 pontos. E as públicas aumentaram 0,4 pontos.

Estas foram as regra do jogo fixadas pelo IDEB. Não vale agora, em pleno jogo, querer que a escola pública atinja a meta das escolas privadas – 6,3 – a meta dela é outra – 4,0. Ao serem fixadas as metas de cada uma, levaram-se em conta variáveis de contexto que, agora, em nome de desgastar a escola pública, estão sendo ocultadas e esquecidas.

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