Sobreviver com R$ 350

Sobreviver com R$ 350

Bico de manicure, limite do crédito e dinheiro emprestado: como professores sobrevivem com R$ 350

Foi esse o valor depositado na conta dos servidores estaduais na última quinta-feira (31), e governo segue sem previsão de pagamento integral dos vencimentos 

Por: Débora Ely         04/09/2017 

Atingidos pelo parcelamento salarial desde 2015, servidores estaduais enfrentam em setembro o mais angustiante mês desde que a crise instalou-se nas finanças do governo do Estado. Com R$ 350 depositados na quinta-feira (31) e sem perspectiva de quando ocorrerá o pagamento integral dos vencimentos, funcionários públicos desdobram-se, sem sucesso, para vencer as contas.

Na manhã desta segunda-feira (4), em Porto Alegre, professores protestaram contra o menor depósito recebido desde o início do fatiamento dos contra-cheques — até então, era de R$ 450. Há relatos de docentes que se ausentaram porque sequer tinham dinheiro para a passagem de ônibus.

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— Se a pessoa trabalha, ao fim do mês quer receber seu salário. É uma situação humilhante — desabafou Klymeia Nobre, 45 anos, agente educacional da escola José do Patrocínio, na Restinga.

Mais de 70 servidores de 36 colégios estaduais participaram da manifestação. O grupo reuniu-se em frente ao Júlio de Castilhos e seguiu em direção ao Palácio da Polícia. Na 2ª Delegacia de Polícia de Pronto Atendimento (DPPA), registrou boletim de ocorrência contra o governador José Ivo Sartori por desobediência, ao descumprir a Constituição do Estado e parcelar a folha de pagamento.

No grupo, os relatos dimensionavam o impacto do repasse à conta-gotas. Entre eles, o de Alexandra Amarante, 31 anos, professora na escola Professores Langendonck, no bairro Guarujá, que começou a trabalhar como manicure aos finais de semana para pagar a gasolina gasta para chegar ao trabalho. Com o serviço, diz garantir um extra de R$ 50 por semana.

— Nunca fui profissional, mas estou atendendo algumas clientes. É o que está me ajudando ao menos no transporte para ir até a escola trabalhar — contou Alexandra.

Com a primeira parcela do salário, a professora mal conseguiu liquidar as contas de luz, água e medicação. No dia 4 do mês, a conta bancária está zerada.

A vice-diretora do colégio Emílio Massot, na Cidade Baixa, Neiva Lazzarotto, 53 anos, enfrenta um cenário ainda mais crítico. Ela chegou ao limite do crédito, parcelou a conta do condomínio e, nos últimos meses, precisou pedir dinheiro emprestado para familiares em quatro ocasiões.

— Meus pais, aposentados, estão me ajudando. É uma solidariedade, mas também uma situação muito cruel comigo e com eles — disse Neiva.

O boletim de ocorrência registrado contra o governo cita a decisão judicial que determina o pagamento integral dos salários dos professores da rede estadual. "Embora a decisão judicial, reiteradamente o Estado do Rio Grande do Sul vem descumprindo a ordem judicial", sublinha a queixa. 

O documento policial foi encaminhado para o Departamento Judicial Operacional (DJO) da Polícia Civil, responsável pela distribuição dos casos que chegam à delegacia. Segundo o Cpers, professores de outras localidades repetiram o gesto simbólico — mas não há um levantamento.

Na terça-feira (5), o sindicato realiza assembleia geral no Largo Glênio Peres, no centro de Porto Alegre. Os dirigentes devem reunir as ocorrências contra Sartori e discutir se a entidade ingressa com ação contra o governo. Também será debatida a possibilidade de greve.

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Servidores do RS podem receber parcela ainda menor de salário nos próximos meses

Primeira parcela do salário de agosto, paga na última quinta-feira, chegou a R$ 350, o menor valor inicial desde que o começo do parcelamento

Por: Juliana Bublitz       05/09/2017

Servidores do RS podem receber parcela ainda menor de salário nos próximos meses Omar Freitas/Agencia RBS
Foto: Omar Freitas / Agencia RBS 

A angústia vivida pelos servidores com apenas R$ 350 de seus salários pagospelo Estado tende a se repetir até dezembro. Desde que o governo de José Ivo Sartori começou a parcelar as remunerações do Poder Executivo, em 2015, essa foi a parcela inicial mais baixa depositada — e o valor deve ser reprisado nos próximos meses.

A queda pegou o funcionalismo de surpresa. No final de julho, a primeira fatia dos contracheques havia chegado a R$ 650. Revoltados com a redução brusca, mais de 70 professores chegaram a registrar boletim de ocorrência contra Sartori nesta segunda-feira (4), em Porto Alegre. Havia a expectativa de um novo depósito ao longo do dia, de R$ 170, o que não se confirmou.

Sem recursos suficientes, o Piratini não tem previsão de quando conseguirá fazer o repasse da segunda faixa, mas assegura que honrará a totalidade das remunerações até o dia 13. Graças à liminar obtida no Supremo Tribunal Federal (STF), que suspendeu o pagamento da dívida com a União no início do mês passado, o risco de sobreposição das folhas de agosto e setembro está, agora, afastado. Apesar disso, para os próximos meses, as projeções não são boas.

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O governo alega que a crise se agravou, porque acabaram as "fontes de receitas extraordinárias" para fazer frente às despesas — isso inclui, por exemplo, a venda da folha dos servidores ao Banrisul, que, em 2016, rendeu R$ 1,2 bilhão extra.

Até dezembro, quando começam a pingar no caixa os recursos do Imposto sobre a Propriedade de Veículos Automotores (IPVA), o parcelamento dos salários não só continuará, como as primeiras faixas seguirão baixas. O novo reajuste programado para servidores da área da Segurança Pública, de 4,9% a 9,3% em novembro, deverá contribuir para ampliar as dificuldades.

— A tendência é de que as parcelas iniciais fiquem na casa dos R$ 350 ou até piorem, porque cada vez vai faltar mais dinheiro, a menos que surja alguma fonte extra ou que a economia volte a crescer. Até agora, o Estado sempre achou alternativas, só que isso acabou — avalia o especialista em finanças públicas Darcy Carvalho dos Santos.

Uma alternativa em estudo no Piratini é buscar nova antecipação de recursos da General Motors (GM), como em 2016, quando foi possível adiantar cerca de R$ 300 milhões em créditos fiscais concedidos pelo governo gaúcho. O problema é que o montante é insuficiente.

Em paralelo, Sartori trabalha para tentar fechar acordo com a União e aderir ao regime de recuperação fiscal. Só que isso também não resolverá, de forma imediata, a penúria financeira. Na prática, o acordo garantirá a suspensão da dívida por três anos e abrirá margem a novo financiamento, no valor de cerca de R$ 3 bilhões, que ajudaria o Estado a voltar a "respirar sem aparelhos".

Nesse caso, será necessário superar uma série de entraves, entre eles a resistência de parte da Assembleia, que considera a adesão um mau negócio, e definir o que será entregue à União como garantia para o empréstimo — sem isso, o socorro financeiro não sai.

— O governo não se decide. Vai colocar a EGR (Empresa Gaúcha de Rodovias) no negócio? E o BRDE (Banco Regional de Desenvolvimento do Extremo Sul)? Enquanto o Rio de Janeiro está com a adesão pronta para ser assinada, aqui a gente fica perdendo tempo — diz uma fonte próxima ao governador.

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BALANÇO NAS CONTAS

Quanto faltou para pagar em dia a folha dos servidores do Poder Executivo, em 2017, segundo dados da Secretaria Estadual da Fazenda

Janeiro: R$ 90,59 milhões
Fevereiro: R$ 365,35 milhões
Março: R$ 482,11 milhões
Abril: R$ 255,92 milhões
Maio: R$ 269,11 milhões
Junho: R$ 536,56 milhões
Julho: R$ 952,37 milhões
Agosto: R$ 1,02 bilhão

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OS PRÓXIMOS MESES

- Segundo projeções da Secretaria da Fazenda, o rombo financeiro do Estado pode chegar a R$ 3 bilhões até o fim de 2017, se o pagamento da dívida com a União continuar suspenso.

- A suspensão foi obtida pelo Estado via liminar no Supremo Tribunal Federal, em agosto deste ano, e também está prevista no regime de recuperação fiscal, ao qual o governo tenta aderir, por enquanto sem êxito. Desses R$ 3 bilhões, 40% (cerca de R$ 1,2 bilhão) correspondem ao 13º salário de 2017, cujo pagamento será empurrado pelo governo Sartori para 2018, com novo parcelamento.

  • Restará, então, um buraco de cerca de R$ 1,8 bilhão em 2017. Se isso se confirmar, na prática, faltará dinheiro para bancar uma folha inteira do Poder Executivo (R$ 1,2 bilhão líquido) e outras contas no valor de R$ 400 milhões.

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