Renda do 0,1% mais rico cresce
Renda do 0,1% mais rico cresce cinco vezes acima da média
Uma hipótese é que a elevada inflação doméstica, somada à alta dos preços internacionais das commodities alavancou lucros obtidos por grandes empresários e exportadores
Por César Fraga / Publicado em 21 de agosto de 2025
Entre 2017 e 2023, a renda do 0,1% mais rico do país cresceu cinco vezes mais rápido do que a média nacional. No período, o grupo de 160 mil pessoas no topo da pirâmide registrou aumento real de 6,9%, contra 1,4% da média dos brasileiros.
Com esse ritmo, a concentração do grupo passou de 9,1% da renda nacional, em 2017, para 12,5%, em 2023.
Os dados estão em estudo do FiscalData, assinado pelos economistas Frederico Nascimento Dutra, Priscila Kaiser Monteiro e Sérgio Gobetti, com base em informações do Imposto de Renda da Pessoa Física (IRPF) divulgadas pela Receita Federal.
Gobetti é pesquisador do Instituto de Pesquisa Econômica Aplicada (Ipea), Kaiser Monteiro é economista graduada pela Ufrgs, com mestrado pela PUC-RS, e Nascimento Dutra é economista e cientista de dados na empresa Minsait.
Super-ricos
O levantamento aponta que o 0,1% mais rico tem renda mínima mensal de R$ 146,1 mil e média de R$ 516 mil. Já no grupo ainda mais restrito, o 0,01% — formado por 16 mil pessoas — a participação na renda nacional passou de 4,3% para 6,2% no mesmo período. A renda média desse grupo é de R$ 2,57 milhões por mês.
O 1% mais rico, composto por 1,6 milhão de pessoas com renda acima de R$ 34,7 mil mensais, também ampliou sua participação na renda nacional: de 20,4% para 24,3%. A renda média desse estrato é de R$ 103,8 mil mensais.
Enquanto o 1% viu sua renda crescer 4,4% ao ano, a economia brasileira se expandiu 1,8% e a renda das famílias, 1,4% ao ano. Todos os valores já descontam a inflação acumulada no período, de 49,7%. Para os pesquisadores, os números evidenciam o aumento da desigualdade.

Dividendos e JCP
Segundo o estudo, os principais motores desse enriquecimento foram os dividendos e os juros sobre capital próprio (JCP). Entre os mais ricos, 87,1% do ganho adicional veio desses rendimentos; no 0,1%, o índice foi de 66%.
Os economistas destacam que a concentração ocorreu em um cenário de baixo crescimento da economia. “Uma hipótese que aventamos é que a elevada inflação doméstica, somada à alta dos preços internacionais de algumas commodities, possa ter alavancado os lucros obtidos por grandes empresários e exportadores, embora o volume de produção tenha se mantido modesto, assim como a massa salarial”, escreveram.
Diferenças de medição
O estudo contrasta com dados do IBGE, que em 2023 apontaram a menor diferença de rendimentos desde 2012. Os pesquisadores explicam que a Pesquisa Nacional por Amostra de Domicílios Contínua (Pnad) tende a subestimar a renda do topo, por depender de autodeclaração.
“Como já se suspeitava, as pesquisas domiciliares tendem a subestimar a renda, especialmente no topo da distribuição, seja por omissão, seja pelo desconhecimento dos entrevistados quanto à magnitude de seus ganhos”, afirmam.
Eles citam que, no caso do 0,01% mais rico, a Pnad estima renda média pouco acima de R$ 200 mil, enquanto os dados do IRPF apontam valores superiores a R$ 2,5 milhões. “Qualquer conclusão sobre a desigualdade de renda que utilize apenas os dados da Pnad incorre em sério risco de erro de diagnóstico”, alertam. Para eles, o ideal é combinar dados da Pnad e do IRPF.
Política tributária
Na conclusão, os autores reconhecem que políticas de transferência de renda reduziram a pobreza nas últimas décadas, mas avaliam que são “absolutamente insuficientes e inadequadas” para enfrentar a concentração no topo.
Eles defendem ajustes na política tributária, com revisão de benefícios e da isenção sobre dividendos. “A boa notícia é que uma reforma da tributação da renda que enfrente esse desafio pode ser positiva, não apenas do ponto de vista distributivo, mas também da eficiência econômica”, escreveram.
Isenção no IR para quem ganha até R$ 5 mil
O estudo foi publicado em meio à discussão da reforma tributária sobre renda, prioridade do Congresso no segundo semestre. A Câmara dos Deputados aprovou na sessão desta quinta-feira, 21, a urgência para a proposta que concede isenção de Imposto de Renda para quem ganha até R$ 5 mil (Projeto de Lei 1087/25, do Poder Executivo) por mês e e redução parcial até R$ 7 mil.
Para compensar a perda de arrecadação, a proposta cria uma alíquota extra progressiva de até 10% para quem ganha mais de R$ 600 mil ao ano (R$ 50 mil mensais). A alíquota máxima, de 10%, incidirá sobre rendimentos a partir de R$ 1,2 milhão anuais.
Gobetti, pesquisador do Ipea, avalia que a taxação de dividendos não deve ser repassada aos preços. “O raciocínio sobre repasse para preços pode servir se estivéssemos falando de tributar o lucro das empresas. Mas o que está em discussão é tributar os dividendos distribuídos para os sócios”, disse à Agência Brasil.
No caso das pequenas empresas, reconhece que o lucro da empresa e o ganho do dono se confundem, mas lembra que essas companhias já têm tributação menor que as grandes. Para ele, não há espaço para novos reajustes. “As empresas brasileiras, em geral, já reajustaram bastante os preços nos últimos anos, o que inclusive está por trás do aumento dos lucros no Brasil”, afirmou.
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