A direita míope

A direita míope

 

 

 

 

A DIREITA MÍOPE.

Por Mário Milani.

Falar de Jair Bolsonaro não é apenas falar de um político. Eu falo de algo maior — de um tempo que insiste em não passar, de uma mentalidade que sobrevive à própria história. Falo, com todas as letras, do atraso civilizatório dessa direita ignorante que estava escondida.

Bolsonaro não inventou esse atraso. Ele o escancarou. Deu voz, corpo e palanque ao que há de mais regressivo no pensamento político brasileiro.

E não sou eu quem o define assim. São os próprios registros de suas falas ao longo de décadas: elogios à tortura, desprezo por direitos humanos, ataques sistemáticos às mulheres, manifestações racistas, negação da ciência, incentivo ao ódio e ao confronto. Não se trata de interpretação ideológica. São fatos — ditos por ele, reiterados por ele, assumidos por ele.

Há em Bolsonaro uma espécie de nostalgia sombria — um desejo de retorno a um Brasil autoritário, desigual, violento. Um Brasil que se aproxima muito mais do século XIX do que de qualquer ideia contemporânea de civilização.

Quando um líder político flerta com ruptura institucional, questiona o processo eleitoral sem provas e alimenta movimentos que atentam contra a democracia, não estamos mais diante de opinião. Estamos diante de ação. Ação contra o próprio Estado democrático de direito.

E isso precisa ser dito sem rodeios.

O que se investiga hoje em torno de Bolsonaro não é apenas corrupção no sentido clássico. É algo mais profundo e mais grave: a tentativa de ruptura democrática. Um ataque direto à espinha dorsal da civilização moderna.

Mas Bolsonaro não surgiu sozinho. Nenhum personagem político dessa dimensão cresce no vazio. Ele revelou um eleitorado que durante muito tempo permaneceu silencioso, contido pelas convenções sociais, e que encontrou nele a permissão para sair do armário político.

O eleitor da direita bolsonarista não nasceu com Bolsonaro. Ele já existia. Estava disperso, ressentido, muitas vezes envergonhado de verbalizar publicamente seus preconceitos, seu autoritarismo latente e sua aversão às transformações sociais. Bolsonaro apenas ofereceu linguagem para aquilo que antes muitos escondiam.

Essa direita míope enxerga o país por uma fresta estreita da realidade.

É uma direita que confunde força com violência.

Confunde patriotismo com intolerância.

Confunde moralismo com hipocrisia.

Confunde liberdade com licença para oprimir.

É um segmento que frequentemente rejeita o pensamento complexo porque prefere respostas fáceis. Alimenta-se da desinformação porque o conhecimento exige reflexão. Desconfia da ciência porque a ciência desmonta crenças confortáveis. Ataca a imprensa porque a verdade incomoda narrativas prontas.

Sua principal característica talvez seja o medo.

Medo da diversidade.

Medo da igualdade.

Medo da cultura.

Medo da educação crítica.

Medo de perder privilégios históricos travestidos de ordem natural.

Por trás do discurso moral, muitas vezes há insegurança. Por trás da agressividade, há fragilidade. Por trás do nacionalismo ruidoso, existe um profundo desconhecimento do próprio país.

Eu olho para isso e não consigo deixar de fazer um contraste com minha própria história.

Meu trisavô, Domenico Milani, não foi um homem comum. Foi filósofo, músico, intelectual. Um anarquista no sentido mais nobre da palavra: alguém que acreditava na liberdade, na autonomia do pensamento, na dignidade humana. Domenico integrou a resistência italiana contra o domínio do Império Austro-Húngaro sobre regiões da Itália. Lutava contra a opressão, contra o autoritarismo, contra o esmagamento das liberdades individuais. Por suas ideias, foi perseguido, degradado, expulso. Veio para o Brasil não por escolha confortável, mas por imposição de um sistema que temia homens livres.

Ele chegou aqui trazendo algo que nenhum regime consegue confiscar: consciência.

Consciência política.

Consciência humana.

Consciência de que a liberdade não é concessão — é conquista.

É essa herança que carrego.

E é por isso que me revolta assistir, mais de um século depois, a tentativa de normalizar o atraso como projeto político.

Bolsonaro representa exatamente o oposto dessa tradição. Representa a negação do pensamento, a exaltação da ignorância, a política do instinto bruto. Não há ali projeto de país. Há ressentimento, simplificação e manipulação.

A direita que ele simboliza não é a direita clássica, estruturada, com base teórica e visão de Estado. É uma direita desinformada, desorientada, sem propósito coletivo. Uma direita que rejeita o conhecimento e transforma a brutalidade em virtude.

Isso não é conservadorismo. Isso é regressão.

Quando se despreza a ciência, quando se ataca a imprensa, quando se deslegitima instituições, quando se flerta com o autoritarismo — o que se constrói não é um caminho alternativo. É um retorno ao passado.

E o passado, quando revisitado sem crítica, cobra um preço alto.

Eu venho de uma linhagem que resistiu ao autoritarismo na Europa. Que enfrentou impérios. Que pagou com exílio o preço da liberdade. Meu trisavô não atravessou o oceano para que seus descendentes aceitassem, passivamente, a volta do obscurantismo.

Por isso escrevo.

Não por ideologia cega. Mas por compromisso histórico.

O atraso civilizatório não pode ser tratado como opinião legítima quando ele ameaça a própria democracia. Não pode ser relativizado quando coloca em risco conquistas que levaram séculos para serem construídas.

Bolsonaro não é apenas um personagem político. É um sintoma de um Brasil que ainda precisa decidir se quer avançar ou retroceder.

E eu já fiz a minha escolha.

Fico com Domenico Milani.

Fico com a liberdade.

Fico com a democracia. MM/2026.

Mário Milani

FONTE:

https://www.facebook.com/residencial.amelia?locale=pt_BR 




ONLINE
34