A Escola Exorcizada
A Escola Exorcizada: Onde o Medo Expulsa o Pensamento
Ou como os pais estão destruindo a escola brasileira
O corpo do professor
Antes de tudo, há um corpo. Um corpo que acorda antes do sol, que engole um café apressado, que se espreme no transporte público ou enfrenta o trânsito com o coração já acelerado. Um corpo que desanima diante dos problemas mundanos do cheque especial ou do boleto não pago. Um corpo que entra na sala de aula e se torna o centro de quarenta pares de olhos. Um corpo que, por seis, oito, dez horas, se desdobra em mil: é ator, é psicólogo, é juiz de pequenas contendas, é o guardião de um saber que, hoje, parece pesar como uma maldição. Este é o corpo do professor. E este corpo, hoje, está doente. Doente de medo.
Lembro-me de um tempo – e a memória, hoje, é um ato de resistência – em que este corpo era outro. Era o corpo da autoridade, não do autoritarismo. A autoridade de quem sabia. E onde os pais acolhiam suas demandas porque sabiam que no final, seriam demandas dos próprios filhos. E assim, muitas vezes chamei meus pais para votar em orçamento participativo nas pautas dos professores escolares. E lembro que a totalidade dos pais dos meus colegas também faziam o mesmo.
Lembro de um caso pessoal. Quando uma nota vermelha apareceu no boletim de língua inglesa e minha sabedoria infantil tentou convencer meus pais sobre a duríssima perseguição que sofria em sala pela famigerada professora e como o mundo havia se orquestrado contra minha pessoa, lembro que não foram necessárias 4 palavras e prontamente fui interrompida pela mãe, enquanto o velho pai assistia à cena.
— Nem continue. Porque, se isso é uma disputa, eu fico do lado da professora. Ela está certa e você, errada.
Ao ver fracassada minha tese perante minha mãe, busquei o último acolhimento nos braços do pai, que sequer havia se mexido do sofá.
— Quem você pensa que é para ser “perseguido”? Castro Alves? Napoleão Bonaparte? Getúlio Vargas, quem sabe? Professor tem mais o que fazer a lhe perseguir, não acha, meu pequeno Homero?
E, desde então, sempre tive meus professores — que se seguiram a esse episódio — como grandes mestres. Não só pela dedicação à ciência e ao estudo como ministério de vida, mas, no plano simbólico, sempre busquei lhes dar a mais alta veneração pelo simples fato de serem professores.
Mas, em resumo, a conversa naquele tempo era em casa, entre pais e filho. O professor era uma entidade quase sagrada, o portador de um passaporte para um futuro que os pais, muitas vezes, não tiveram. Hoje, este mesmo corpo é o alvo. O repositório de todas as frustrações de uma sociedade que adoeceu e de uma nova geração de “pais” que enlouqueceu com o mundo.
O projeto de esvaziamento
A “Lei da Escola Sem Partido” não é uma lei. É um sintoma. O sintoma de uma sociedade que não suporta mais a complexidade, que tem pavor do pensamento, que anseia por respostas simples para perguntas que nem sequer aprendeu a formular. É o projeto de esvaziamento da escola. De transformar a sala de aula, este espaço sagrado do encontro e da dúvida, em um ambiente estéril, asséptico, morto. Um não lugar. É permitido se reunir, mas jamais perguntar.
Nessa baboseira defendida pelos idiotas convictos, havia a proposta de que um pai poderia vetar um conteúdo do professor por “conflitar com suas convicções”. Complicado, não?
Bastaria haver um pai praticante do cristianismo e outro do judaísmo que a aula sobre Jesus Cristo termina antes de começar.
E a sopa de maluquice ia além: professores deveriam enviar seus planos de aula e cadernos de conteúdo para análise e validação, porque os pais deveriam resguardar que a escola “não tem partido”. Sim, numa escola onde seu príncipe encantado não sabe onde fica a biblioteca, o paizinho morria de medo da escolar[ formar um revolucionário especialista em Ak-47 e que recitasse os últimos discuros de Lenin ou Rosa de Luxerburgo.
Mas, se for de alento, acalmem-se, pais. Provavelmente seu filho tem dificuldade na divisão silábica; Marx seria grego.
Daí que a famigerada lei, ao anular toda e qualquer discussão, terminava, pois, adoecendo o próprio filho que dizia proteger.
Imagine o que acontece com um corpo — o corpo de um adolescente — que é sistematicamente privado de se confrontar com o diferente. Com a história das religiões, com a diversidade de orientações sexuais, com as diferentes visões de mundo. Este corpo não se torna “puro”. Torna-se amputado. Amputado em sua capacidade de pensar, de sentir, de se relacionar. De ser humano.
A cidade que desmente a lei
Em Santa Cruz de Monte Castelo, a pequena cidade paranaense que se tornou o epicentro simbólico desta guerra, a própria terra grita a impossibilidade deste projeto. “Santa Cruz” e “Monte Castelo”. Como explicar o nome da cidade sem adentrar na história do cristianismo, sua influência na formação do Ocidente, na moral, na arte, na política? E “Monte Castelo”? Como silenciar sobre a guerra, sobre o fascismo, sobre a morte de jovens brasileiros que lutaram para que, hoje, pudéssemos ter o direito de discordar?
A tentativa de criar uma escola “neutra” é, em si, um ato de extrema violência ideológica. É a ideologia do vácuo. É a idiotice convicta. Aquela que defeca na rua e acredita piamente portar-se com etiqueta aristocrática. A ideologia que pretende que a história não aconteceu, que o mundo é um lugar simples, que as pessoas são todas iguais e que o conflito é uma anomalia a ser evitada, e não a matéria-prima da própria vida.
O ministro Flávio Dino, ao apontar esta contradição, não fez mais do que ler a paisagem. Uma paisagem que os proponentes da lei, cegos pelo próprio pavor, são incapazes de ver.
O pai-criança e o professor-demônio
E então, há o pai. O pai que filma o professor. O pai que vai à delegacia. O pai que grita “doutrinação”. Quem é este pai? De onde ele vem? Ele é o fruto de uma sociedade que o infantilizou. Que o convenceu de que ele não precisa saber, apenas acreditar. Que o ensinou a consumir, não a pensar. Que lhe deu um celular na mão e o fez acreditar que sua opinião, formada em cinco minutos de navegação em redes sociais, tem o mesmo valor que o conhecimento de quem estudou a vida inteira.
Este pai não é um monstro. É uma criança assustada. Assustada com a complexidade do mundo, assustada com a possibilidade de que seu filho se torne diferente dele. E, em seu pavor, ele precisa de um demônio. E o demônio, hoje, é o professor. Aquele que ousa dizer que o mundo não é preto e branco. Aquele que ousa apresentar a dúvida. Aquele que, ao ensinar, comete o ato mais subversivo de todos: o de lembrar que nós não sabemos tudo.
O caso do menino que fez o trabalho sobre Nikolas Ferreira, em Minas Gerais, é o retrato trágico desta dinâmica. O pai, em vez de se sentar com o filho e com um dicionário e descobrir juntos o que é “personalidade histórica”, preferiu o espetáculo. Porque o espetáculo é fácil. O espetáculo dá likes. O espetáculo confirma sua visão de mundo. Educar, ao contrário, é difícil. É solitário. É um trabalho de amor e de renúncia.
E, como os burros se encontram pelo gemido, logo outros pais aplaudiram a coragem desse pai e desse menino ao enfrentarem a “doutrinação” do professore de história que estava dois meses com salário atrasado.
O professor jovem, formado, terminou demitido, achincalhado, humilhado e ofendido com todos os adjetivos imagináveis nas redes porque pai e filho não entenderam a lição de casa, além da visivel preguica em abrir um dicionário para entender o significado das palavras.
Aquilo que antes se resolvia com uma conversa — entre professor, aluno e família — deixou de existir. Não porque o diálogo tenha se tornado impossível, mas porque o professor foi reclassificado.
Ele não é mais o educador. É o inimigo.
O inimigo que “coloca ideias” na cabeça do meu príncipe. O inimigo que ousa contrariar as certezas domésticas. O inimigo que afirma que são os planetas que giram ao redor do Sol, enquanto meus olhos — soberanos da ignorância — garantem que é o Sol que atravessa o céu. Basta ver. Olhar para cima. E todo e qualquer um que duvide do óbvio diante dos olhos é comunista ou doutrinador ou algum predicativo típicos dos anos 60. O pai que ostenta a própria tosquice como virtude educa para a superficialidade. Quem transforma a ignorância em identidade dificilmente formará alguém capaz de mudar o eixo do mundo — ou sequer de questioná-lo.
É por isso que esse país aceita qualquer baboseira com ares de sofisticação.
Empresários repetem a cantilena do “déficit público” como justificativa para juros altos que comprimem crédito, travam investimento e, não raro, decretam a própria asfixia financeira. Tente explicar que o problema é justamente o oposto. Ainda assim, seguem cavando a própria cova — e o fazem com convicção, segurando a pá com as duas mãos.
Não porque tenham examinado os conceitos, mas porque os escolhem como quem decide entre pipoca doce ou salgada: por preferência, não por compreensão.
Questionar tornou-se suspeito.
Discordar, quase um desvio moral.
Quem se insurge contra a última convenção do hospício recebe imediatamente um rótulo conveniente — não para refutar o argumento, mas para neutralizar o interlocutor.
Um país que não compreende o que é “personalidade histórica” dificilmente compreenderá o que significa “ancoragem de expectativas”. E sem compreender conceitos, consome narrativas e paga sem saber.
É por isso que histórias de super-heróis sejam destinados às crianças.
A cognição infantil ainda opera na lógica do binário: ou é bom ou é mau, herói ou vilão, luz ou trevas. A complexidade é um ruído incômodo para quem ainda está aprendendo a organizar o mundo. Não há zonas cinzentas, não há dilemas estruturais — apenas personagens.
A infância exige clareza moral; a maturidade exige complexidade.
Mas a maturidade deveria nos deslocar desse conforto moral.
Adultos sabem — ou deveriam saber — que interesses se sobrepõem, que decisões econômicas têm múltiplas camadas, que não há vilões caricatos puxando alavancas secretas nem salvadores voando sobre as instituições.
Quando crescemos, histórias excessivamente simples tornam-se enfadonhas não porque perderam o encanto, mas porque revelam sua pobreza estrutural. São narrativas planas demais para um mundo tridimensional.
O problema começa quando adultos continuam exigindo enredos infantis para explicar fenômenos complexos. Aí, qualquer debate vira luta entre mocinhos e inimigos — e a realidade, que é ambígua e técnica, passa a ser tratada como história em quadrinhos.
Daí que o professor tornou-se a ameaça íntima. A figura que invade o território da família não com armas, mas com perguntas. E perguntas são perigosas. Perguntas deslocam. Perguntas abrem fissuras. Ele tem a grave insurgência de ensinar que Batman é obra ficcional e o filme mera propaganda de guerra ideológica.
Ora, Se ele é inimigo, não há o que discutir. Não se dialoga com o inimigo. Não se concede escuta ao inimigo. Não se reconhece humanidade no inimigo.
Inimigos não se compreendem.
Inimigos não se respeitam.
Inimigos se combatem. E, se possível, se eliminam — ainda que simbolicamente — com um celular erguido como prova, com um processo, com um linchamento moral.
O professor, outrora mestre, é agora o adversário interno. O estranho que precisa ser vigiado. O traidor potencial.
E uma sociedade que transforma seus professores em inimigos já declarou guerra a si mesma.
E, como ervas daninhas, esses pais se multiplicam, sem controle de natalidade ou selo do Inmetro. Basta um gritar contra algum professor que logo é acompanhado pela orbe bestializada. Uma geração formada em correntes de hotmail que misturam conceitos de qualquer coisa para no final apontar e dizer: inimigo, tirem-o daí.
A escola como último lugar do humano
E assim, a escola se tornou o último lugar. O último lugar onde o encontro com o outro ainda é possível. O último lugar onde a palavra ainda tem tempo para ser dita e ouvida. O último lugar onde o pensamento ainda pode nascer. E é por isso que ela está sob ataque. Porque uma sociedade doente de consumo e de velocidade não suporta um lugar de pausa, de reflexão, de encontro. Respeito? Jamais.
O corpo do professor, este corpo cansado, mal pago, assustado, é hoje a trincheira. A última linha de defesa do humano em nós. Cada aula dada, cada pergunta feita, cada debate proposto, é um ato de insurreição. Uma insurreição contra a barbárie que avança. A decisão do STF foi um respiro. Mas a asfixia continua. E a única forma de voltar a respirar é defender a escola. Defender o professor. Defender o direito de nossos filhos de se tornarem mais do que ecos de nossos próprios medos.
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