A Nobreza do Amor

A televisão brasileira acaba de ser atravessada por um gesto de reparação. “A Nobreza do Amor”, novela da Globo, não entra na sala de estar como entretenimento apenas: entra como acerto de contas.
Em um país onde 56% da população negra teve sua história apagada, deturpada e distorcida, a dramaturgia devolve o espelho.
Como lembrou a intelectual congolesa Vèvè A. Clark, “a memória é um ato de insurreição”. E é insurreta a cena em que a princesa Alika, vivida pela atriz Duda Santos caminha com o dorso ereto de quem carrega um continente nas costas. Não é fantasia. É genealogia.
A educadora e sacerdotisa Makota Valdina escreveu: "Não sou descendente de escravos. Eu descendo de seres humanos que foram escravizados. A frase ecoa em cada quadro da novela, que se recusa a começar a história negra pelo porão do navio. Ao lado de Alika , o vilão Jendal interpretado por Lázaro Ramos não é caricatura: é a complexidade humana que a branquitude sempre negou aos nossos. Entre o trono e a trama, o que se vê é a África antes da ferida. É o Benin, o Congo, o Ndongo. É a realeza que existia antes da cor ser transformada em sentença. “Eu venho de onde o sol se curva para pedir bênção”, versou o moçambicano José Craveirinha. E a novela se curva também.
O elenco é um quilombo em horário nobre. O maior já escalado pela Globo, reúne nomes como Bucassa Kabengele, filho do intelectual congolês Kabengele Munanga, e um time de peso como:
Erika Januza: interpretando a Rainha Niara, mãe de Alika. Bukassa vivendo o príncipe Zambi, que adota o nome de José no Brasil. Welket Bungué: interpreta o Rei Cayman II, pai de Alika. Zezé Motta: interpreta a personagem Dona Menina
Nos bastidores, a obra é também assinada por Elisio Lopes numa costura de ativismo, talento e memória de um jeito que fica difícil dizer onde termina o lúdico e começa a realidade.
A verdade é que “A Nobreza do Amor” não pede licença para existir. Ela ocupa. E ao ocupar, educa. Ensina que Sankofa não é metáfora: é voltar para buscar o que ficou para trás e seguir em frente.
Há dor, sim. Porque não se conta essa história sem lembrar do tumbeiro. Mas há, sobretudo, beleza. O angolano Agostinho Neto certa vez escreveu: “Havemos de voltar”. E voltamos. Voltamos em cada cena, em cada fala, em cada olhar que se recusa a ser subalterno.
“A Nobreza do Amor” marca a história da TV Brasileira porque chega quando o país parece precisar fazer justiça e paz consigo mesmo, se conciliar entre os extremos incluindo os estremos da raça e da cor.
Não é concessão. É direito. É o Brasil se olhando no espelho e reconhecendo, finalmente, que como disse Januario Garcia, “existe uma história da África sem o Brasil, mas não existe uma história do Brasil sem a África”. Que essa nobreza não fique só na ficção. Que ela desça do vídeo, atravesse a sala e sente à mesa. Porque um país que se reconcilia com sua ancestralidade negra é um país que, enfim, começa a se tornar inteiro.
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Texto: @pestana.ceo
FONTE:web






