A proteção tem que ir além
ECA Digital: A proteção tem que ir além
Exame dos danos psíquicos e neurológicos causados pelas telas. Primeira infância é a “janela de ouro” da plasticidade cerebral. Estímulos digitais são incompatíveis com avanço cognitivo infantil. Por isso, é preciso recusar o mito de que há “benefícios” do acesso precoce
A sustentabilidade de uma sociedade não se mede apenas pela preservação de suas florestas ou pela descarbonização de sua economia, mas também pela integridade de suas crianças. A primeira infância (0 a 6 anos) é o período em que a biologia e a cultura se fundem de forma muito intensa. É a “janela de ouro” da plasticidade cerebral, onde cada interação — seja com a família, com um alimento ou com uma interface digital — deixa marcas profundas e, muitas vezes, irreversíveis.
Essa fase crucial da vida está no centro de uma disputa de forças. De um lado, o avanço tecnológico e as interfaces digitais revelam crianças como atores sociais potentes, capazes de criar e colaborar em plataformas de grande poder. De outro, o design viciante das telas impõe riscos estruturais que ameaçam a saúde mental e física, colocando em xeque a autonomia do desenvolvimento natural das crianças.
Segundo aponta o Manual de Orientação da Sociedade Brasileira de Pediatria (SBP), o uso excessivo de telas está potencialmente ligado a distúrbios mentais e intelectuais. O estímulo bidimensional e hiperveloz das telas é incompatível com o tempo biológico do processamento cerebral infantil.
No entanto, o acesso à internet na primeira infância mais que dobrou em menos de uma década no Brasil, passando de 11%, em 2015, para 23%, em 2024. Isso inclui quase metade (44%) dos bebês de até 2 anos e 71% das crianças de 3 a 5 anos. Os dados fazem parte do estudo Proteção à primeira infância entre telas e mídias digitais, publicado pelo Núcleo Ciência Pela Infância (NCPI).
Crianças expostas precocemente sofrem uma espécie de “curto-circuito” no sistema de recompensa. A liberação constante de dopamina, gerada por vídeos curtos e jogos coloridos, vicia o cérebro em gratificação instantânea. O resultado? Uma incapacidade crescente de lidar com o tédio, a frustração e, consequentemente, uma dificuldade profunda de concentração em atividades que exigem esforço cognitivo prolongado, como a leitura e o raciocínio lógico.
Fonte: WORKING PAPER
Proteção à primeira infância entre telas e mídias digitais
O manual da SBP alerta que a exposição excessiva às telas é associada a uma série de problemas no desenvolvimento das crianças:
- Saúde Mental: Irritabilidade, ansiedade, depressão e o estresse tecnológico, que causa perda de empatia e agressividade.
- Desenvolvimento: Atraso na fala e linguagem em bebês expostos passivamente.
- Fisiologia: O brilho da luz azul bloqueia a melatonina, causando transtornos do sono, que por sua vez geram problemas de memória e concentração.
- Riscos Online: O documento utiliza a classificação CO:RE para dividir os riscos em: Conteúdo (exposição a violência/pornografia), Contato (assédio/aliciamento),
Conduta (cyberbullying) e Contrato (fraudes e exploração comercial).
Os diagnósticos dos riscos ao desenvolvimento infantil por conta dos excessos de exposição a tablets e smartphones vêm de bastante tempo e já foram estudados por especialistas de várias universidades e organizações da sociedade civil. Estes estudos e a militância de especialistas formaram a base para o desenvolvimento do ECA Digital, 35 anos depois da aprovação do Estatuto da Criança e do Adolescente (ECA), que transformou a maneira como a sociedade brasileira trata a infância.
Segundo a diretora executiva da Agência Nacional dos Direitos da Infância (ANDI), Miriam Pragita, a relação entre o ECA original (chamado carinhosamente de “analógico”) e o ECA Digital é de continuidade a partir de uma base sólida de experiências. Miriam explica que o novo texto não existiria sem a experiência de 35 anos da legislação anterior. Ela alerta, no entanto, que “o desafio agora é garantir a agilidade do judiciário e criar uma cultura de informação e denúncia eficaz”.
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ECA Digital: O Olhar de Miriam Pragita sobre a Proteção da Infância
Para Miriam Pragita, o ECA Digital não é apenas uma nova lei, mas uma “conquista imensa da sociedade civil” que atualiza a proteção de crianças e adolescentes para a realidade das plataformas globais. Em sua visão, o ambiente digital deixou de ser um espaço neutro para se tornar um território onde o desenvolvimento infantojuvenil está sob constante pressão de algoritmos e interesses comerciais.
Desconstruindo Narrativas das Plataformas
A diretora da ANDI alerta para o “jogo de narrativas” das grandes empresas de tecnologia. Segundo ela, as plataformas muitas vezes divulgam informações imprecisas para gerar resistência à regulação. Pragita esclarece que o ECA Digital não pretende proibir o entretenimento, mas sim combater mecanismos que estimulam o vício ou que transformam jogos em “cassinos” disfarçados para o público infantil. “A adequação não é algo do outro mundo”, afirma, defendendo que a segurança deve ser prioridade técnica.
Os Pilares da Defesa Tecnológica
Segundo Miriam, a implementação eficaz da lei repousa em quatro eixos fundamentais:
- Eixo Policial e de Denúncia: A centralização de queixas no Centro Nacional de Proteção (PF) para garantir investigações ágeis.
- Fim do Design Viciante: A proibição de ferramentas criadas especificamente para gerar dependência digital em jovens.
- Proteção da Imagem: O combate rigoroso à erotização precoce e ao tratamento inadequado de dados e fotos de menores.
- Aferição de Idade Confiável: A transição definitiva da “autodeclaração” (que é facilmente burlada) para sistemas de verificação seguros orientados pela ANPD (Agência Nacional de Proteção de Dados).
A Triangulação: Família, Escola e Estado
Miriam é enfática ao defender que os pais devem retardar ao máximo a entrega de aparelhos individuais às crianças. Já a escola é vista como o vértice essencial para a educação digital, sendo muitas vezes o único local seguro onde abusos ocorridos no ambiente virtual são relatados.
Legado de Dignidade
O ECA Digital, para a diretora da ANDI, é a evolução natural do Estatuto de 1990. Ela reforça que a luta pela proteção no ambiente virtual é, essencialmente, uma luta pela evolução da sociedade. “Crianças e adolescentes devem ser tratados com a prioridade absoluta que a Constituição garante”, conclui Miriam, lembrando que a tecnologia deve servir ao desenvolvimento humano, e não o contrário.
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O Novo Marco Legal: O ECA Digital
A aprovação do ECA Digital (Lei nº 15.211/2025), pelo Congresso Nacional em agosto de 2025 e sua entrada em vigor oficialmente em 17 de março de 2026, é uma resposta direta ao cenário de aumento de casos de depressão infantil e crimes cibernéticos contra menores. A nova lei é considerada muito avançada e alguns estudiosos acreditam que poderá ser uma referência para a proteção de crianças em outros países. No entanto, mesmo sendo uma inovação, vem a reboque de uma necessidade de defesa das crianças que já vêm sendo apontada há vários anos.
Rodrigo Nejm, doutor em psicologia com quase duas décadas de atuação em programas de proteção de direitos digitais reconhece que, como sociedade, mesmo entre especialistas, os estudos foram atropelados pela rapidez da entrada das novas plataformas digitais na vida das crianças. “Desde muito cedo, e por força de muito investimento em marketing e lobby, criou-se uma percepção genérica e equivocada de que mais tecnologia é sempre melhor”, apontou. E explicou que essa percepção equivocada retardou a reação institucional.
Nejm é diretor da Safernet, organização que desde 2005 atua na defesa dos Direitos Humanos na Internet no Brasil e explica que, no início, não haviam evidências de que os aplicativos usados pelas crianças pudessem afetar o bem estar e a segurança dessas crianças. “A partir de um determinado momento se percebeu que a dinâmica das plataformas não é apenas lúdica ou educacional, também induzem ao vício e arrancam os usuários das atividades no mundo real impondo muitas horas on line”, aponta.
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Os Perigos do Digital na Primeira Infância
A Metáfora da Dieta Digital
Nejm utiliza uma comparação poderosa com a alimentação: dar uma tela a um bebê é como oferecer um rodízio de comidas ultraprocessadas para quem ainda nem tem dentes ou sistema digestivo pronto. “As famílias já entendem que não se dá essas comidas a um recém-nascido, mas ainda não percebem que a tela causa uma ‘indigestão’ neurológica invisível, cujos efeitos colaterais não aparecem como uma cólica imediata, mas como atrasos no desenvolvimento”, explica.
Danos ao Desenvolvimento e à Fala
A hiperestimulação do sistema nervoso em crianças na primeiríssima infância (especialmente antes dos 2 anos) gera prejuízos reais:
- Coordenacão Motora: O estímulo bidimensional inibe a exploração tridimensional do mundo.
- Custo de Oportunidade: Cada hora de tela é uma hora a menos de brincar livre, contato com a natureza e interação humana, que são insubstituíveis.
A Ciência do Vício e a Frustração
Nejm alerta que as plataformas utilizam neurociência e design para explorar vulnerabilidades psicológicas. Ao encurtar o tempo entre o desejo e a satisfação, as telas impedem que a criança aprenda a lidar com a frustração e a esperar — processos essenciais para o amadurecimento emocional. “Lidar com a frustração dá trabalho para os pais, mas é um investimento fundamental”, afirma.
Recomendações Práticas do Especialista:
- Até os 2 anos: Zero telas (exceto videochamadas curtas com familiares distantes).
- Dos 2 aos 6 anos: No máximo 1 hora por dia, sempre com mediação de um adulto.
- Responsabilidade: A proteção não deve ser apenas um peso para a família; as empresas devem oferecer plataformas seguras e o Estado deve fiscalizar.
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A armadilha para as famílias
A aparente tranquilidade de uma criança em seu quarto brincando com um smartphone pode induzir muitas famílias a uma falsa sensação de segurança. Miriam Pragita alerta que deixar uma criança sem supervisão em aplicativos de jogos ou redes sociais é tão perigoso quanto abandoná-la em uma avenida movimentada sem a companhia de um adulto. “Os riscos são enormes, tanto em relação a predadores sexuais, como à mercê de aplicativos que viciam o cérebro infantil da mesma forma que drogas vendidas por traficantes no mundo real”, diz a executiva da ANDI.
Confrontadas com a realidade dos impactos negativos sobre a mente em formação, especialmente na primeira infância, que vai do zero aos seis anos de idade, as plataformas usaram como defesa a alegação de que que são “apenas espaços de transmissão”, que não são responsáveis pelos conteúdos que usuários postam ou criam através de aplicativos. Esse argumento sempre recebeu o reforço de que a supressão de conteúdos das redes sociais e plataformas como Facebook, YouTube, Instagram, TikTok e outros, tipo Roblox, seria censura.
Durante a tramitação do projeto de 15.211/2025 no Congresso, que depois de aprovado transformou-se no ECA Digital, surgiram em muitos debates críticas com a acusação de que criar regras “poderia levar à censura e ao controle político das redes sociais”. Outro argumento contrário foi que as diretrizes para proteção de menores poderiam ferir liberdades individuais e de expressão na internet. Além da oposição política, houve muita pressão das “bigtechs” para barrar a proposta.
Finalmente, em 17 de março/2026 o ECA Digital deixou de ser um projeto de lei para tornar-se um marco na legislação de proteção à infância no Brasil. A nova lei estabelece o princípio do “Melhor Interesse da Criança no Design”. Isso significa que as plataformas não podem mais alegar que são “apenas espaços de transmissão”. Elas são responsáveis pela arquitetura que criam.
Alguns pontos fundamentais da nova lei são:
1. Conferir a idade de verdade (Biometria)
Usar tecnologias (como o reconhecimento facial ou digital) para ter certeza de que a criança tem a idade certa. Isso impede que os pequenos entrem em sites ou aplicativos feitos apenas para adolescentes ou adultos.
2. Proibir as “armadilhas” digitais (Fim do vício automático)
Acabar com o vídeo que começa sozinho (autoplay) e com as notificações que não param de apitar no celular de crianças menores de 12 anos. O objetivo é evitar que o cérebro deles, que ainda está se desenvolvendo, fique “viciado” em estímulos rápidos e perca o controle sobre o tempo de uso.
3. Abrir a “caixa preta” das redes (Transparência)
As empresas de tecnologia são obrigadas a mostrar, a cada três meses, como os seus sistemas de recomendação (aquilo que escolhe o que a criança vai ver a seguir) estão afetando o bem-estar e a saúde mental dos usuários mirins.
No dia a dia esses “algoritmos de captura” são simplesmente “estratégias de vício” ou “gatilhos de atenção”.
Como funciona a estratégia de “viciar os usuários”
O “Sistema Dopaminérgico”, que parece nome de peça de carro, mas é apenas a parte do cérebro que cuida do prazer e da recompensa:
Como funciona: Toda vez que a criança ganha uma curtida, uma moeda no jogo ou vê um vídeo engraçado, o cérebro libera um “suco” chamado dopamina, que dá uma sensação de felicidade instantânea.
O perigo: Como o cérebro das crianças ainda está “em construção”, ele se vicia muito rápido nesse prazer fácil. Se elas recebem dopamina o tempo todo pelas telas, o cérebro para de dar valor a coisas normais (como brincar de carrinho, ler um livro ou comer uma fruta), que dão prazer de forma mais lenta.
O Perigo Digital: o “Mecanismo de Cassino”
Apesar do avanço legal, o ambiente das telas continua sendo um campo minado. Há o exemplo do Roblox , que não é apenas um jogo; mas um repositório de milhões de experiências criadas por usuários, onde a moderação muitas vezes falha. Em 2026, os riscos tornaram-se mais explícitos e agressivos:
Segundo o especialista Rodrigo Nejm, este tipo de plataforma utiliza o que neurocientistas chamam de “looping de recompensa”. Ao ganhar moedas virtuais ou “skins” (roupas de avatar), o cérebro da criança libera dopamina. Na primeira infância, o lobo frontal — responsável pelo controle de impulsos — ainda não está pronto. O resultado é o vício real, resultando em crianças que entram em crises de pânico ou agressividade quando o aparelho é retirado, um estado de abstinência digital que desregula o sono e o apetite.
A Criança como protagonista
Apesar do cenário sombrio, pesquisa da doutora Anna Josiowicz e a mestranda Alessandra Silva publicada na plataforma SciElo, em 2024, produzida com apoio da FAPERJ, aponta que a plataforma de jogos Roblox produz uma intensa sinergia entre os universos real e digital vividos pelas crianças. As autoras relatam que a plataforma se tornou um espaço de manifestação. As autoras teorizam que, sob supervisão, o jogo permite que crianças aprendam lógica de programação que ajudam a resolver problemas complexos e desenvolvam habilidades digitais que serão importantes no futuro.
A tecnologia deve servir à vida, e não o contrário. Como afirmam as pesquisadoras da UERJ, as crianças podem incidir sobre o digital, mas o digital também está moldando o que significa ser humano em uma dimensão extremamente nova. “Nosso papel, como sociedade, é garantir que essa mudança não resulte em uma geração “sequestrada“, mas em cidadãos soberanos, saudáveis e criativos”, citam no estudo.
Diretrizes e Recomendações
Com base nas orientações da Organização Mundial da Saúde (OMS), da Associação Brasileira de Pediatria e do Guia de Telas do Governo Federal, as recomendações são claras:
- 0 a 2 anos: Exposição zero. Nenhum contacto com telas, nem mesmo de forma passiva.
- 3 a 5 anos: Limite de, no máximo, 1 hora por dia, sempre com supervisão de um adulto.
- 6 a 10 anos: Limite de 1 a 2 horas por dia.
- Adolescentes: Evitar o uso durante as refeições e interromper o uso 2 horas antes de dormir. Não é recomendada a utilização de telas durante toda a noite (“all-nighters”).
O uso de tecnologia é irreversível, no entanto a sua gestão na infância deve ser rigorosa. As evidências científicas sugerem que o excesso de telas não é apenas um problema de comportamento, mas fator de risco para o desenvolvimento neurobiológico. É imperativo que pais, educadores e profissionais de saúde promovam a “desintoxicação digital” e priorizem interações humanas, o contacto com a natureza e o brincar estruturado para garantir um desenvolvimento saudável e equilibrado.
FONTE:
https://outraspalavras.net/tecnologiaemdisputa/eca-digital-protecao-tem-que-ir-alem/
Foto: Reprodução/UCLA



