A serviço de extremismo e fake-news

A serviço de extremismo e fake-news

Os sites do governo a serviço de extremismo e fake-news

Levantamento inédito revela: ministérios dirigem, sistematicamente, backlinks para sites ligados à desinformação e à difusão do ódio. Prática dá credibilidade à rede de mentiras. Sites das Forças Armadas são mais envolvidos na teia de mentiras

Por Ethel Rudnitzki e Laura Scofield, na Agência Pública | Infográficos: Larissa Fernandes

Portais de notícias conservadoras têm servido como propaganda para o governo Bolsonaro, divulgando a atuação dos ministérios com textos elogiosos, que depois são compartilhados pelos influenciadores bolsonaristas em suas redes. Essas postagens são muitas vezes republicadas ou referenciadas em sites oficiais do governo.

No dia 14 de fevereiro, o portal Brasil Sem Medo, comandado por admiradores de Olavo de Carvalho e autointitulado “o maior jornal conservador do Brasil”, entrevistou o ministro das Relações Exteriores, Ernesto Araújo. A entrevista não serviu apenas como propaganda para o ministério, como também deu maior visibilidade ao site olavista – também conhecido por disseminar notícias falsas, como a afirmação de que a pandemia não aumentou o número de mortes no Brasil, desmentida pela Agência Lupa.

A entrevista foi republicada pelo portal do Ministério das Relações Exteriores (MRE), que direcionava os leitores ao site original através de um link – ou backlink, na linguagem técnica. Com esse redirecionamento de público, o link contribui para o desempenho do Brasil Sem Medo nas buscas do Google, fazendo o site aparecer com maior destaque para quem busque termos relacionados na plataforma.

A Agência Pública analisou todos os backlinks feitos a 13 portais alinhados com o governo Bolsonaro e acusados de disseminar notícias falsas. Alguns deles, como Terça Livre e Brasil Sem Medo, estão associados a pessoas investigadas no inquérito das fake news, como Allan dos Santos e Bernardo Küster. Portais como Conexão Política, Senso Incomum, Jornal da Cidade Online e Pleno News, muitos dos quais propagam informações falsas sobre a pandemia de coronavírus, já tiveram seus conteúdos checados e marcados como falsos por agências profissionais de checagem de fatos.

O levantamento mostra que, além do MRE, outros 14 sites governamentais linkaram conteúdos desses 13 portais bolsonaristas pelo menos 926 vezes –723 links foram feitos pelo site oficial do Exército brasileiro. Pesquisadores alertam que o alto índice de backlinks de um site para outro é um dos fatores que podem apontar para a existência de uma “rede” entre eles.

Incluindo sites de notícias e outros como Wikipedia, o número de domínios que fazem backlinks aos portais bolsonaristas aumentou dez vezes desde que Jair Bolsonaro assumiu a Presidência. Até outubro de 2020, os 13 sites já foram linkados por 10.713 domínios diferentes.

Questionado pela Pública sobre o problema da desinformação na plataforma, o Google declarou que investe “bilhões de dólares” em tecnologias para proteção de seus usuários e apoia iniciativas voltadas para a educação digital e para a imprensa. “Não há uma solução definitiva, uma vez que os agentes que procuram fazer mau uso dos nossos serviços estão constantemente procurando por brechas e o Google, por outro lado, constantemente aprimora os mecanismos de detecção de ações que vão contra nossas políticas de uso e de proteção dos nossos usuários”, declarou a empresa.

Como funcionam os backlinks

O Google não comenta os critérios específicos que regem seu sistema de busca, limitando-se a dizer que os “sistemas de classificação são compostos por uma série de algoritmos”. Porém, empresas especializadas em marketing digital, como Moz e SemRush, têm se dedicado a entender o que faz um site receber ou não destaque dentro da plataforma. Assim, através de ferramentas de engenharia reversa com os algoritmos do Google, esse setor criou critérios de análise e estratégias de melhoria para o desempenho no site de buscas.

Um desses critérios de análise mais importantes é a autoridade de domínio, uma nota de zero a cem atribuída por empresas de marketing digital para adivinhar a credibilidade que o Google atribui ao site. Quanto mais alta a nota, maior a chance de o site ficar nos primeiros lugares da busca.

Sites governamentais e de instituições de ensino (registrados nos domínios .gov ou .edu), além de grandes portais de jornalismo profissional, costumam ter maior autoridade que outros. Segundo a ferramenta SemRush, os sites da Universidade de São Paulo, por exemplo, receberam nota 77 por sua reputação on-line. Já o domínio gov.br, que inclui os sites do governo federal, tem 72 pontos.

Para determinar essa nota, são levadas em consideração, entre outras coisas, a quantidade e a qualidade de backlinks que certo domínio recebeu. Quanto mais backlinks um site receber de domínios diferentes, maior a nota. Quando um site com maior autoridade faz um backlink, ele aumenta a autoridade do último – e isso melhora o desempenho daquele domínio na busca do Google.

Emily Taylor, pesquisadora do Instituto da Internet da Universidade de Oxford, explicou em entrevista à Pública que fazendo um backlink a determinado site “você está, de certa forma, emprestando um pouco da sua reputação on-line para o alvo daquele backlink”. Além de impactar a busca no Google, “também pode impactar na forma com a qual as redes sociais escolhem ranquear ou mostrar determinado conteúdo no feed”.

Dessa forma, se um site governamental faz referência a um portal conservador, este é beneficiado.

Apesar de não comentar as ferramentas de terceiros para medição de desempenho de sites na busca, o Google confirmou para a reportagem que possui um sistema voltado para priorizar e destacar o conteúdo produzido por fontes oficiais e veículos jornalísticos. Disse também que possui um sistema de ranqueamento para as buscas – chamado PageRank – “que usa links da internet para identificar os sites mais proeminentes e respeitados”. É nesse ranking que as notas de autoridade dadas por empresas de marketing digital – como a SemRush, usada na reportagem – se baseiam.

Exército é campeão de usar sites bolsonaristas como referência

Segundo a ferramenta SemRush, usada pelo Instituto da Internet de Oxford em suas pesquisas, sites governamentais fizeram backlinks aos 13 portais bolsonaristas monitorados 926 vezes.

O site do Exército brasileiro – que, segundo a SemRush, tem uma nota de autoridade de 69 pontos – foi o que mais fez backlinks a portais bolsonaristas: um total de 723.

Entre os sites conservadores linkados estão Renova Mídia, Conexão Política, Pleno.News e Revista Oeste, todos alinhados ao governo de Jair Bolsonaro e acusados de compartilhar conteúdos falsos e/ou tendenciosos.

Após a publicação da reportagem, o Exército respondeu que “com a finalidade de divulgação oportuna e esclarecimento dos questionamentos relacionados à Instituição, conteúdos relevantes produzidos pela mídia são difundidos por intermédio dos sites institucionais do Exército.” Ainda, ressaltam que “as matérias escolhidas são analisadas em veracidade e pertinência, independentemente do veículo que a tenha divulgado, antes de ser autorizada a retransmissão do link original”.

A página do Instituto de Pesquisas Econômicas Aplicadas (Ipea), pertencente ao governo federal, linkou 53 vezes dois desses portais bolsonaristas – Terça Livre e Estudos Nacionais. Outros nove domínios vinculados ao governo federal também fizeram backlinks, entre eles o MRE, o Itamaraty, a Fundação Palmares e o Arquivo Nacional.

Sites registrados em domínios de governos estaduais também fizeram backlinks a portais bolsonaristas. Endereços associados ao governo do estado do Paraná, como prefeituras e outras instituições, cuja nota de autoridade é de 77 pontos, fizeram 89 backlinks a 10 dos 13 sites conservadores analisados.

Portais bolsonaristas têm nota de autoridade quase “excelente”

Receber backlinks de sites governamentais, educacionais e de imprensa – entre outras estratégias de marketing digital adotadas – elevou a nota de autoridade desses portais bolsonaristas.

O Jornal da Cidade Online, site que foi denunciado por possuir perfis falsos e usá-los para atacar jornalistas, possui uma nota de autoridade estimada de 58 pontos. Os sites Pleno.News – que é um dos que mais disseminam desinformação, segundo especialistas – e Renova Mídia têm uma pontuação de 56. A nota de autoridade média dos 13 portais bolsonaristas analisados pela reportagem foi de 43,7 pontos, e metade deles teve nota superior a 50 pontos.

Essas pontuações se aproximam das notas de autoridade de veículos jornalísticos de grande credibilidade. A agência de checagem Aos Fatos, por exemplo, tem a mesma nota de autoridade que o Renova Mídia e o Pleno.News – 56 pontos. A CNN Brasil, que é um veículo da grande mídia, tem apenas 60 pontos.

Já a Pública, agência de notícias mais premiada do país, tem nota de autoridade de 63 pontos.

Segundo especialistas do mercado, pontuações entre 40 e 50 pontos estão “na média”; entre 50 e 60 são “boas” e as acima de 60 podem ser consideradas “excelentes”.

Procurado pela reportagem, o Google afirmou que não comenta o ranqueamento de sites na sua plataforma.

“Backlinks de sites governamentais, até mesmo da Wikipédia e de universidades, domínios com autoridades muito altas, funcionam quase como citações em artigos acadêmicos”, diz Emily Taylor. “Quando eu gosto de um artigo, eu posso linká-lo e, se eu tenho uma boa autoridade de domínio, isso vai ajudar aquele artigo a aparecer mais frequentemente nos melhores resultados das buscas.”

Segundo levantamento, 10 dos 13 sites bolsonaristas analisados possuem backlinks em verbetes da Wikipédia. A grande maioria deles está em artigos relacionados a Jair Bolsonaro em português e em outros idiomas também.

O portal Conexão Política, por exemplo, aparece como fonte do verbete “Jair Bolsonaro” em castelhano e nos verbetes “Campanha presidencial de Jair Bolsonaro em 2018” e “Partido Social Liberal”, em português. Já o Pleno.News é citado no verbete do presidente em inglês.

Portais bolsonaristas também foram beneficiados por backlinks da Amazon, por onde vendem livros conservadores. A venda serve como uma forma de financiamento aos sites e ajuda o desempenho deles no Google, uma vez que o site da Amazon possui uma nota de autoridade muito alta – 91 pontos, segundo o SemRush.

Portais bolsonaristas são ajudados por site americano, Olavo de Carvalho e Instituto Mises

O Instituto Mises, associação brasileira ultraliberal, se destacou entre os domínios que fizeram backlinks aos portais bolsonaristas conservadores. O site do instituto, que publica estudos econômicos e análises políticas voltadas para o conservadorismo, fez mais de 8 mil backlinks aos portais analisados.

É essa a principal estratégia adotada por esses portais conservadores: usar backlinks entre sites afins. O Terça Livre, por exemplo, fez 912 backlinks ao Renova Mídia. O site Conservadorismo do Brasil fez 424 backlinks ao Pleno.News.

Esses portais receberam backlinks também de outros sites conservadores, inclusive estrangeiros, como o Breitbart News, site de extrema direita estadunidense fundado por Steve Bannon, o ex-chefe de campanha de Donald Trump. O portal fez três backlinks aos brasileiros Jornal da Cidade Online, Renova Mídia e Terça Livre.

Apesar de disseminar notícias falsas e distorcidas, o Breitbart possui uma nota de autoridade bastante alta: 78 pontos, segundo o SemRush. Dessa forma, seus backlinks podem ter ajudado o desempenho de outros sites no Google.

Blogs e sites associados a Jair Bolsonaro e Olavo de Carvalho também fizeram backlinks aos portais conservadores analisados. O site presidente Bolsonaro.com.br, por exemplo, linkou 9 dos 13 portais – somente o Jornal da Cidade Online recebeu 1.252 backlinks desse domínio.

Já o site de Olavo de Carvalho fez 6.641 backlinks ao Brasil Sem Medo e 365 ao Pleno.News.

Segundo Emily Taylor, o alto número de backlinks que um site faz a outro é um dos fatores que pode indicar a existência de uma rede entre eles. “Mas é preciso olhar para outros fatores também”, diz.

Um dos sites que mais fizeram backlinks aos portais bolsonaristas teve associação comprovada com o Jornal da Cidade Online. O portal A Verdade Sufocada, mantido pela viúva do coronel Carlos Alberto Brilhante Ustra, o primeiro torturador condenado no Brasil, compartilha uma mesma conta no Google com o site Jornal da Cidade Online, conforme descoberto pelo Aos Fatos.

A página, um memorial ao militar condenado por sequestro e tortura durante a ditadura militar, fez mais de 300 mil backlinks aos portais Jornal da Cidade Online e Terça Livre, segundo levantamento da Pública.

Outro site campeão de backlinks aos portais bolsonaristas foi o Juliano Luz Notícias, do interior do Paraná, que republicou mais de 1,5 milhão de vezes notícias do site Terça Livre, de Allan dos Santos.

Imprensa e universidades ajudaram o desempenho de sites bolsonaristas ao linká-los em matérias

Na intenção de investigar e combater a desinformação propagada por sites bolsonaristas, veículos de imprensa acabaram fazendo backlinks a esses domínios e transferindo sua autoridade a esses portais.

O domínio UOL, que abriga os sites da Folha de S.Paulo, da revista Piauí e de outros veículos de imprensa, tem uma nota de autoridade estimada de 87 pontos. Tamanha credibilidade foi transferida para os portais Jornal da Cidade Online, Renova Mídia, Conexão Política, Brasil Sem Medo, Caneta Desesquerdizadora, Crítica Nacional e Estudos Nacionais, linkados em matérias publicadas pelo UOL.

A Pública também cometeu esse erro. Em matérias que denunciam envolvimento de políticos, conflitos de interesse e notícias falsas propagadas por cinco desses sites bolsonaristas, fizemos backlinks a eles. Jaime Longoria, pesquisador da Rede Internacional de Checadores (IFCN, na sigla em inglês), alerta que “algumas vezes o objetivo final da desinformação é justamente conseguir que jornalistas falem sobre aquilo para que seja amplificado”. Uma dessas formas de amplificação pode ser justamente o backlink.

“Se eles querem apontar para um site e falar ‘esta é a pior fonte de desinformação de todas’, então devem tomar o cuidado de que aquele backlink seja marcado como ‘no follow’. Isso significa que as ferramentas de busca não vão considerar aquele backlink na reputação online do site linkado”, explica Emily Taylor. Isso pode ser feito por meio do código do site, do HTML ou diretamente do publicador.

Renomadas instituições de ensino brasileiras e estrangeiras também emprestaram autoridade a esses portais. Ao reportar o ataque à repórter Constança Rezende promovido pelo site Terça Livre em 2019, o Knight Center, da Universidade do Texas, acabou favorecendo o próprio portal através de um backlink. O site da universidade tem uma nota de autoridade estimada de 79 pontos, segundo a SemRush.

Por ter sido mencionada em postagem do Conexão Política sobre aprovação de cotas para transsexuais, a Universidade Federal do ABC (UFABC) adicionou o link da matéria em seu clipping. Isso serviu como backlink para o portal conservador, que foi beneficiado pela nota de autoridade da instituição de ensino, de 59 pontos.

Backlinks a portais bolsonaristas cresceram nos últimos dois anos

O número de domínios que fazem backlinks aos portais bolsonaristas aumentou a partir de 2019, ou seja, quando Bolsonaro assumiu a Presidência. Em 2017 e 2018, apenas 1.039 sites linkavam os 13 portais; depois de 2019, até sete de outubro de 2020, esse número aumentou mais de dez vezes. Atualmente os 13 sites já foram linkados por 10.713 domínios diferentes.

O Renova Mídia cresceu mais de 1.389% no período analisado: saiu de 114 domínios de referência em 2018 para 1.584 em outubro de 2020. O Terça Livre vem em segundo, tendo crescido mais de 1.100%, de 131 para 1.478. O Pleno News, portal que mais cresceu em números brutos, tinha no total 272 sites que o citavam no final de 2018; número chegou a 2.354 em 2020, aumento de 865% (2.082 sites). O Jornal da Cidade Online foi o terceiro mais bem colocado: passou de 193 domínios de referência em 2018 para 1.803 em 2020, o que representa um aumento de 934%.

O próprio Jair Bolsonaro compartilha os portais bolsonaristas diretamente em suas redes sociais, o que auxilia no alcance deles e os transforma em referências para maior número de pessoas.

 

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