Alcolumbre, o chacal
Alcolumbre, o chacal da democracia
Francisco Celso Calmon e Letícia Miranda
Davi Alcolumbre construiu sua trajetória longe dos holofotes. Nascido em Macapá, saiu da política local para o Congresso até chegar à presidência do Senado, cargo que ocupa novamente desde 2025. Mais do que pelos discursos, consolidou-se pela capacidade de articulação interna, um operador que entende como poucos o funcionamento das engrenagens de poder em Brasília.
Sua ascensão revela um padrão: Alcolumbre se firmou como um operador do tempo e das regras institucionais. Em Brasília, esse tipo de poder é decisivo. Não se trata apenas de votar, mas de definir quando se vota, o que entra em pauta e o que permanece indefinidamente parado.
Mas sua trajetória não se construiu apenas sobre habilidade política. Ao longo dos anos, seu nome apareceu em episódios que expõem as zonas cinzentas do sistema. Em 2019, vieram à tona denúncias sobre o uso de uma funcionária fantasma em seu gabinete, caso revelado pela imprensa nacional e posteriormente arquivado por insuficiência de provas.
Também foi citado em investigações relacionadas à Operação Lava Jato, em delações que mencionavam repasses a políticos do Amapá, novamente, sem desdobramentos judiciais que resultassem em condenação. Esses episódios não o derrubaram. Ao contrário: foram absorvidos por uma trajetória marcada pela sobrevivência política.
É justamente aí que a metáfora do chacal se sustenta. Na natureza, o chacal não é o mais forte, mas é um dos mais adaptáveis. Alimenta-se do que sobra, observa o ambiente, espera o momento certo e avança quando encontra fragilidade. Não enfrenta diretamente, contorna, desgasta, persiste. Na política, esse comportamento se traduz em operar nas brechas, transformar crises em oportunidade e acumular poder sem se expor excessivamente.
E foi exatamente esse padrão que se revelou no episódio mais recente envolvendo o Supremo Tribunal Federal.
A rejeição inédita de um indicado ao STF, após meses de adiamentos, retenção de pauta e desgaste público, não foi um acidente institucional. Foi uma construção. O controle da sabatina, prerrogativa da presidência do Senado, foi utilizado como instrumento de pressão, permitindo que o tempo político corroesse a indicação antes mesmo da votação.
Esse movimento ganha ainda mais relevância quando inserido no contexto mais amplo de disputas que atravessam o sistema político e judicial. Nos bastidores de Brasília, diferentes interesses frequentemente se cruzam, especialmente em casos sensíveis que tramitam nas instâncias superiores.
É nesse ponto que surge uma pergunta incômoda: o que, afinal, pode alinhar momentaneamente atores distintos como setores do Senado e do próprio Judiciário?
Um dos elementos citados por analistas políticos é o chamado Caso Master que envolve disputas jurídicas relevantes e interesses que orbitam o poder central. Ainda que não haja uma confirmação pública de ligação direta entre esse caso específico e a movimentação no Senado, ele ajuda a ilustrar como decisões institucionais não acontecem no vazio. Em Brasília, conexões raramente são explícitas, mas dificilmente são inexistentes.
Alcolumbre opera exatamente nesse terreno. Não precisa declarar alianças. Atua onde os interesses se sobrepõem.
O mecanismo é simples e profundamente eficaz. Ao controlar quando, e se, determinadas pautas avançam, o presidente do Senado transforma prerrogativas institucionais em instrumentos de barganha. Sabatinas podem ser adiadas indefinidamente. Indicações podem ser desgastadas até perder sustentação política. E, quando finalmente chegam ao plenário, o resultado já foi, em grande parte, definido fora dele.
Mas a política também é feita de contradições – e, por vezes, de reviravoltas. Se o movimento de Alcolumbre representou um golpe no governo, ele também abre uma fresta de oportunidade. Os deuses da política pareceram favorecer Luiz Inácio Lula da Silva quando foi atingido: agora, tem diante de si mais uma chance de reconfigurar o tabuleiro.
A possibilidade de indicar uma mulher negra para o STF não é apenas simbólica, é estratégica. Pode não só romper com a lógica de formação de grupinhos na Corte, como também atrair a simpatia de uma parcela majoritária da sociedade, historicamente excluída desses espaços de poder. Oxalá, ele seja iluminado para decidir.
O problema, no entanto, vai além de um episódio ou de um nome.
Quando figuras com esse perfil concentram tanto poder institucional, a democracia deixa de operar como espaço aberto de deliberação e passa a funcionar como um sistema de controle seletivo, onde poucos definem o ritmo e os limites do jogo político.
Chamá-lo de “chacal” não é exagero. É reconhecer um padrão: o de uma atuação que prospera na sombra, que se alimenta das fragilidades institucionais e que avança quando o sistema permite.
Porque, no fim, o risco maior não está apenas no predador. Está no ambiente que o torna possível. E, quando o poder se fecha sobre si mesmo, só a mobilização social é capaz de reabrir o jogo.
Francisco Celso Calmon e Letícia Miranda
Ex-coordenador nacional da Rede Brasil – Memória, Verdade e Justiça; membro da Coordenação do Fórum Direito à Memória, Verdade e Justiça do Espírito Santo. Foi líder estudantil no ES e Rio de Janeiro. Participou da resistência armada à ditadura militar, sendo sequestrado e torturado. Formado em análise de sistemas, advocacia e administração de empresas. Foi gestor de empresas pública, privada e estatal. Membro da Frente Brasil Popular. Autor dos livros “Sequestro moral e o PT com isso?” e “Combates pela Democracia”, coautor dos Livros “Resistência ao Golpe de 2016” e “Uma sentença anunciada – O Processo Lula”. Sócio efetivo do Instituto Histórico e Geográfico do Espírito Santo. Articulista de jornais e livros, coordenador do canal Pororoca.
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