Alunos com deficiência perdem vaga
Portas fechadas no fim do ano: alunos com deficiência perdem vaga em escola pública de Porto Alegre
Decisão tomada no fim do ano letivo surpreende famílias, interrompe vínculos e expõe falhas no diálogo entre gestão e comunidade escolar
por Geana Taisa Machado Krause - 28/12/2025
A Escola Estadual Especial Renascença, em Porto Alegre, ocupa um lugar central na história da educação gaúcha. Primeira instituição pública do Rio Grande do Sul a ofertar Educação Especial, tornou-se, ao longo de décadas, referência no atendimento a pessoas com Deficiência Intelectual, Transtorno do Espectro Autista (TEA) e outros Transtornos do Desenvolvimento. É justamente essa trajetória que torna ainda mais grave a forma como mudanças recentes nas matrículas foram conduzidas.
Neste final de ano letivo, o choque veio na porta da escola. Mães que chegaram para renovar a matrícula dos filhos ouviram que não haveria mais vaga. Sem aviso, sem diálogo, alunos que completaram 18 anos tiveram sua permanência interrompida de forma abrupta, rompendo vínculos construídos ao longo de anos. O impacto foi imediato: medo de perder o atendimento especializado, insegurança diante do desconhecido e a angústia de ver seus filhos afastados de um espaço que sempre significou cuidado, proteção e pertencimento.
A orientação oficial é de que esses jovens sejam encaminhados para a Educação de Jovens e Adultos (EJA). No entanto, essa solução desconsidera um aspecto essencial: para alunos com deficiência, a escola não é apenas um local de matrícula, mas um espaço de pertencimento, segurança e suporte especializado. Romper esse vínculo de forma abrupta compromete trajetórias educacionais e ignora singularidades construídas ao longo de anos. Professores, pais e os próprios estudantes, aqueles que vivem o cotidiano da escola, não foram ouvidos.
No caso da Escola Renascença, prevalece uma lógica orientada por limites etários e critérios burocráticos, em detrimento do sujeito, de sua história e de suas necessidades reais. Inclusão não se constrói por decreto, tampouco por decisões tomadas à distância da vida cotidiana das escolas.
Independentemente das posições favoráveis ou contrárias às escolas especiais, o que está em jogo é a forma como decisões que afetam profundamente a vida de pessoas com deficiência vêm sendo tomadas: sem consulta pública, sem escuta democrática e sem participação da comunidade escolar. A situação da Renascença não é um caso isolado, mas um alerta sobre um modelo de gestão que prioriza números e planilhas e corre o risco de esquecer aquilo que deveria estar no centro da educação: as pessoas.
Neste momento, são as mães atípicas que levantam a voz para lembrar que seus filhos não são estatísticas, mas sujeitos de direitos — e que nenhuma política pública pode ser considerada inclusiva quando exclui aqueles que deveria proteger.
(*) Mestre em Educação UFRGS, jornalista, psicopedagoga institucional e clínica, especialista em educação especial e Inclusiva e neuropsicóloga.
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