Alunos tiktokizados
"Os alunos chegam muito tiktokizados": universidades criam estratégias para estimular a leitura de textos acadêmicos
Engajar estudantes no universo científico tem sido uma preocupação; professores apostam na mediação e em seminários
Se antes já era um desafio promover a leitura de textos acadêmicos na graduação, agora, na era das redes sociais e da inteligência artificial generativa, os obstáculos são maiores. Com jovens cada vez mais habituados com leituras rápidas e vídeos curtos no Instagram e TikTok, é difícil garantir a concentração e interpretação necessária para ler um artigo científico, por exemplo.
Engajar os estudantes em leituras mais densas tem sido uma preocupação constante das instituições. É o que diz a professora associada da Universidade Federal de Ciências da Saúde de Porto Alegre (UFCSPA) Aline Aver Vanin:
— Os alunos chegam muito “tiktokizados”. Muitas vezes, quando eles vão montar os argumentos, eles citam um vídeo, uma postagem. O nosso papel é ambientá-los para que eles se apropriem do gênero discursivo texto acadêmico, o artigo, que para eles é um monstro de sete cabeças, muitas vezes. Então, nós atuamos também como facilitadoras para que aquilo seja palatável para eles no início.
O próprio hábito de rolar o feed sem parar, além da troca de mensagens instantâneas em apps como WhatsApp e Telegram, podem ser empecilhos na hora de ler textos acadêmicos ou elaborar um artigo. Conforme estudos recentes, essas práticas vêm condicionando a cognição, por conta do excesso de estímulos.
Essa rapidez com que lemos mensagens e postagens, esse comportamento está sendo aplicado para outros tipos de texto que exigem mais tempo.
JOHANNA BILLIG - Professora UFCSPA
— Estudos mostram que nós acabamos generalizando o nosso comportamento, em termos de leitura. A forma como nós lemos mensagens de texto, essa rapidez com que lemos mensagens e postagens, esse comportamento está sendo aplicado para outros tipos de texto que exigem mais tempo, mais atenção de leitura — explica a também professora associada da UFCSPA Johanna Billig. As duas docentes são do Departamento de Educação e Humanidades.

universidade. Bruno Todeschini / Agencia RBS
Assim, mesmo diante de um texto complexo que demanda maior atenção, o estudante acaba fazendo uma leitura dinâmica, captando a ideia central do texto, sem aprofundar a interpretação. Em áreas como a saúde, isso pode comprometer a formação profissional.
— A saúde é baseada em evidências. A leitura de artigos científicos realmente precisa fazer parte da formação do estudante, para ele conseguir tomar boas decisões clínicas. Ele precisa saber fazer uma leitura em intervenção crítica dos artigos científicos para tomar as melhores decisões possíveis. Então, isso tem um impacto grande na prática profissional — destaca Johanna.

“reaprender a ler”.Bruno Todeschini / Agencia RBS
Outro risco é o próprio sedentarismo cognitivo causado pela falta de leituras aprofundadas, que pode gerar consequências na formação em qualquer área.
Se a gente não exercitar a nossa cognição, a gente acaba entregando todo o nosso potencial para uma máquina.
ALINE AVER VANIN - Professora UFCSPA
— Se a gente fica só recebendo informação das IAs, ou das redes sociais, a gente acaba ficando sedentário cognitivamente. Assim como a gente exercita os músculos, se a gente não exercitar a nossa cognição, a gente acaba entregando todo o nosso potencial para uma máquina — afirma Aline.
Aproximando os alunos do texto acadêmico
Educadores vêm aplicando diferentes estratégias em sala de aula para que os alunos compreendam a importância do texto acadêmico e incorporem a leitura na rotina. Para a professora da Universidade Feevale, Valéria Koch Barbosa, é fundamental conhecer os estudantes e seus interesses:
— Se, por um lado, nós temos inúmeras facilidades que as tecnologias proporcionam, por outro lado, temos esses desafios. Estamos tentando nos aproximar desse universo dos alunos e abordar temas que possam despertar a vontade de ler mais, de se aprofundar por meio de temáticas que dizem respeito ao universo deles, a assuntos atuais, temas que os instiguem.
Coordenadora do curso de Direito, que possui extensa carga teórica no currículo, ela diz que muitos alunos ficam frustrados quando o professor exige muita leitura.
Estamos tentando nos aproximar desse universo dos alunos e abordar temas que possam despertar a vontade de ler mais.
VALÉRIA KOCH BARBOSA - Professora da Feevale
— Temos realmente uma grande leva de alunos que não leem mais, que simplesmente passam o tempo inteiro com o dedo no telefone, acessando o TikTok, acessando o Instagram. Ler um texto mais robusto é uma tarefa bem pesada para muitos — diz Valéria.

por conta do excesso de estímulos. Bruno Todeschini / Agencia RBS
Por isso, ela propõe que os próprios estudantes sugiram tópicos para ler na disciplina de português jurídico, por exemplo. Depois da leitura individual, eles são desafiados a participar de seminários em sala de aula sobre o texto. Dessa forma, acabam se engajando mais na atividade.
Outro ponto importante é a aproximação do aluno do universo acadêmico. Estimular que eles participem de eventos, feiras de iniciação científica dentro e fora da universidade é uma boa oportunidade para despertar o interesse pela pesquisa e fomentar a leitura crítica. Segundo Valéria, muitos professores também fazem uso de metodologias ativas, buscando facilitar a leitura.
Reaprendendo a ler
O estudante Carlos Vieira, 25 anos, do 4º ano de Medicina na UFCSPA, concilia as leituras e demais atividades acadêmicas com a produção de conteúdo para redes sociais. O aluno publica vídeos no TikTok, onde tem 14 mil seguidores, contando sobre a rotina na universidade.
— Eu sou uma pessoa que gosta muito de internet. Eu vivo a internet, e sempre fiz esses conteúdos, porque eu moro na Restinga, uma zona periférica, sou um estudante negro, e muitas vezes eu via conteúdos que não falavam muito sobre a minha realidade.
Ele diz que pretende utilizar as redes sociais também como plataforma para divulgação científica, porque essa foi uma das razões pelas quais ele se aproximou do universo acadêmico:
— Quando falamos sobre saúde e artigos científicos, eu tive algumas disciplinas que foram cruciais, como uma que falava sobre ciência de forma acessível e evidências científicas. Que mostrava como identificar boas evidências e métodos para fazer uma leitura mais crítica — conta.

Bruno Todeschini / Agencia RBS
Segundo Johanna, que leciona inglês, leitura e interpretação textual em língua inglesa na UFCSPA, de certa forma, os estudantes que chegam com essas dificuldades precisam “reaprender a ler”, e uma das formas de fazer isso é a socialização da leitura.
— Eles têm um momento de leitura silenciosa, que fazemos sem plataformas digitais, e depois eles conversam em grupos e a gente discute o que eles entenderam do texto. Às vezes, a dificuldade de compreensão está na falta de repertório de mundo, de vida, de cultura. Por isso, as trocas são importantes — explica.
As próprias bolhas de informação das redes sociais contribuem para a falta de repertório dos estudantes. Para Aline, que leciona língua portuguesa e trabalha diretamente com leitura, essa mediação do professor é importante para a aprendizagem, sobretudo quando se trata de textos científicos:
— O nosso papel é mediar a leitura até o texto acadêmico. Mas não adianta a gente só oferecer o texto e deixar que o aluno se vire com aquilo. Nosso papel é mostrar, pouco a pouco, como esse texto pode responder uma pergunta.
Outra estratégia ensinada pelas professoras nesse processo é a leitura lateral, que busca instigar os alunos a checarem dados e evidências citados no texto, para verificar a credibilidade das informações. A tecnologia é um suporte importante nesse processo, por exemplo, auxiliando o aluno para fazer buscas durante a leitura.
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