Analfabetismo político e pedagógico

Analfabetismo político e pedagógico

O PREFEITO DE CUIABÁ E A TABUADA — UMA CARICATURA LITERÁRIA DO ANALFABETISMO POLÍTICO E PEDAGÓGICO

Por João Guató

 

Hoje, nas redes sociais, o prefeito de Cuiabá, Abílio Brunini, voltou a repetir um questionamento que já havia causado polêmica: “4x4 tem que aprender até a 5ª série.

Hoje muitas escolas se ocupam com outras questões menos importantes que a matemática e a língua portuguesa. 25% dos recursos da prefeitura e 25% dos recursos do estado são gastos na educação, poderiam ser tratados como investimentos se os resultados fossem outros.”

A declaração, mais uma vez, reduz a complexidade da educação pública a uma equação simplista, ignorando os múltiplos desafios e dimensões que formam a realidade das escolas cuiabanas.

O prefeito de Cuiabá, ao insistir em transformar a educação em um exercício de tabuada, projeta-se como uma caricatura viva do analfabetismo político e pedagógico. Sua fala não é apenas simplista: é um retrato de quem desconhece a função social da escola pública.

Achar que o aprendizado se mede pela capacidade de responder rapidamente a um cálculo de multiplicação é negar que a verdadeira missão da educação é formar cidadãos críticos, conscientes e capazes de intervir na sociedade. O prefeito, ao reduzir o debate a números, acaba revelando a própria incapacidade de compreender que educação é mais que conteúdo: é emancipação.

No fundo, sua retórica tenta esconder um despreparo ainda maior: a falta de políticas estruturais para garantir qualidade na educação pública. Enquanto acusa as escolas de “se ocuparem com questões menos importantes”, o que se vê é uma gestão que falha em oferecer infraestrutura, formação docente e condições dignas para o aprendizado.

Assim, o prefeito de Cuiabá se converte numa caricatura literária grotesca: um homem que ergue a tabuada como espada, mas não sabe decifrar as páginas da cidadania; que fala em investimentos, mas não entende que educação não é gasto a ser controlado, mas futuro a ser construído.

Na praça quente de Cuiabá, onde o asfalto parece ferver e as crianças inventam sombras para brincar, um prefeito de fala empolada ergue o dedo em riste diante de uma adolescente que ousou levantar um cartaz. O gesto dela era simples, mas forte: uma frase curta, quase grito, quase poema. Ele, incomodado, resolveu usar a tabuada como arma.

— Quanto é 4x4? — perguntou, com o peito estufado e o olhar de quem acredita estar diante de um tribunal.

A cena, se não fosse trágica, seria cômica. Um adulto poderoso, chefe da cidade, reduzindo a educação inteira a um jogo de aritmética, como se o futuro se resolvesse com a multiplicação de dois algarismos. A adolescente, porém, não precisava responder. Porque a resposta já estava ali, estampada no cartaz que ela carregava: o L de liberdade.

O PREFEITO QUE NÃO SABE LER

O mais curioso é que o prefeito, em sua ânsia de provar autoridade, mostrou que não sabe ler. Não falo de decifrar letras — mas de ler a vida, ler o protesto, ler a dor e a coragem da juventude. Ele enxerga números, porcentagens, percentuais de orçamento. Mas não vê o suor do professor que caminha quilômetros para chegar à escola, não vê a merenda rala, não vê o ventilador quebrado, não vê o sonho insistente da criança que quer ser poeta ou cientista.

UMA CENA DE TEATRO GROTESCO

Imagine-se a cena em caricatura: o prefeito de terno pesado sob o sol cuiabano, suando e segurando a tabuada como se fosse espada. A jovem, de mochila nas costas, segura um cartaz leve, mas com peso de futuro. Ele, com a matemática, tenta impor silêncio; ela, com a palavra, expõe a ignorância. O grotesco se revela no contraste: de um lado, o poder que reprime; do outro, a juventude que resiste.

A LIÇÃO QUE ELE NÃO APRENDE

Na história da educação pública, ninguém se lembrará do prefeito que perguntou “quanto é 4x4”. Mas todos se lembrarão da menina que ousou protestar. Porque a escola não se constrói apenas de tabuada e gramática, mas de cidadania, coragem e rebeldia. O prefeito, sem perceber, foi personagem de sua própria sátira: quis ensinar, mas saiu como aluno reprovado em democracia.

Em síntese, a gestão de Abílio Brunini à frente da Prefeitura de Cuiabá até agora não apresentou nenhuma proposta pedagógica consistente para enfrentar os desafios da educação pública. Em vez de um projeto que valorize professores, melhore a infraestrutura e fortaleça a formação cidadã, o que se desenha é apenas o desejo de privatizar a gestão das escolas, entregando-as à iniciativa privada sob o pretexto de eficiência. Copia-se, assim, o modelo do Paraná, marcado por terceirizações e pelo enfraquecimento do caráter público da escola, numa clara tentativa de transformar a educação, direito constitucional, em mercadoria de mercado. Trata-se menos de governar com visão pedagógica e mais de gerir com a lógica do balcão de negócios.

Quem vai ganhar isso? o velho e conhecido caixa 2.

 




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