Aprendi sendo professor por vinte anos

Aprendi sendo professor por vinte anos

O que aprendi sendo professor por vinte anos

 

 

Educação em Pauta | O professor do Instituto de Física Alexander Cunha defende que a melhoria da qualidade da educação depende de políticas educacionais e da valorização da carreira docente

*Foto: Júlio Ferreira/PMPA

Escrevo este texto depois de ler “O que aprendi sendo professor na escola pública por um ano“, escrito por Matheus de Sousa e publicado no JU em 31 de outubro. É, Matheus, muito de seu texto me inspira, a título deste que lhe escrevo. Com 20 anos de docência, continuamos a aprender com nossos alunos e ex-alunos. Lembro-me de ti na disciplina que frequentaste durante o Ensino Remoto Emergencial, em 2020. Já havia um professor em formação bem consciente, mas nada substitui a experiência do cotidiano de uma escola.

O que trazes em seu texto me fez rememorar meus mais de 20 anos de trajetória como professor. E concordo contigo, a desigualdade social está muito presente na escola. Uma presença que não é muitas vezes captada ou reconhecida pelas avaliações externas ou pelos cursos de licenciatura.

Como você, também sou um professor advindo da classe média e, ministrando aulas na educação básica, pude compreender um pouco mais o espaço que a escola ocupa em nossa sociedade. Um espaço de reconhecimento da subjetividade em que só lá muitos são reconhecidos pelo próprio nome. Onde outros, aos 12 anos, já são responsáveis pelos irmãos, irmãs e familiares mais novos. Um espaço de coletividade que também muito se aprende sobre diversidade, mais na interação com os colegas do que na matéria presente no currículo. Um espaço de alimentação dos nossos estudantes e que férias escolares podem significar um período de fome. 

Se pensarmos na função social da escola no Brasil, podemos nos lembrar de Marx, que dizia que “não é possível libertar os homens [e as mulheres] enquanto estes forem incapazes de obter alimentação e bebida, habitação e vestimenta, em qualidade e quantidade adequadas”. 

A educação básica foi e ainda é uma verdadeira escola para o que me compreendo hoje.

Se, por um lado, nós aprendemos um pouco mais sobre o Brasil sendo professor na educação básica, por outro lado há professores e pesquisadores sendo formados que já conhecem essa realidade. Lá nos anos 2000, o professor Júlio Diniz-Pereira já nos alertava para a riqueza das educadoras-pesquisadoras que, conhecedoras maiores da realidade escolar pública, por crescerem nela, propiciavam espaços mais reflexivos e inclusivos nas escolas em que atuavam. Ou, como nos traz Nilda Alves com as pesquisas nos/dos/com os cotidianos das escolas, um trabalho de formação continuada alicerçado na escola. Enquanto educador, reconheço que a escola tem muito a nos ensinar.

Essa perspectiva nos auxilia a perceber os indicadores de políticas públicas de outra forma. Um exemplo é a Meta 15 do Plano Nacional de Educação, o indicador de adequação da formação docente no ensino médio (formação/área em que atua), que no Brasil encontra-se em 68,2% (Censo Escolar INEP, 2023). Um valor ainda bem aquém dos 100% almejados para este ano de 2024 e que se compreende melhor a partir da fala do diretor de avaliação da educação superior do INEP, Ulysses Teixeira, que acompanhei mês passado: dos 200.000 professores formados anualmente no Brasil, somente 40.000 continuam em atividade após cinco anos de formados.

Ao olharmos a escola, sabemos que uma jornada intensa em sala de aula, sem tempo para os demais afazeres docentes, a violência presente na escola e a eterna culpabilização do professor pelas mazelas da educação, entre outros fatores, contribuem para que os licenciados não queiram continuar a trabalhar na educação básica. Uma jornada de oito horas diárias, sem sacrificar os finais de semana, seria o desejo de qualquer profissional. Não há vocação suficiente para segurar o profissional docente na carreira. Ainda que com muita paixão pelo que fazia, eu fui um que mudei minha trajetória após 12 anos na educação básica.

Mesmo continuando a ser professor, sei que não sou o mesmo. Não falo aqui das experiências que contribuíram para o meu desenvolvimento profissional e, sim, do lugar que ocupo hoje. De quando comento, no dia a dia, que sou professor e me olham com certo descaso, até saberem que sou professor no ensino superior, que sou professor na UFRGS. O reconhecimento social não é o mesmo, a qualidade no ambiente de trabalho não é a mesma, a valorização social e econômica também não é a mesma. Não é a mesma profissão, ainda que ambas sejam chamadas de professor.

Esta minha trajetória de 20 anos de docência me ensinou que a falta de interesse pela carreira docente não é um problema da formação. Esse é um discurso recorrente de culpabilização do professor e dos cursos de formação de professores, instâncias que possuem pouca ação sobre a valorização da carreira docente. Valorização essa que é de salário, mas também de qualidade do trabalho, de reconhecimento de que o trabalho docente vai muito além da sala de aula e de que a escola é um ambiente profissional (não de vocação ou de voluntários).

Como você, Matheus, bem nos mostra em seu texto, na escola também se produz conhecimento, conhecimento sobre o ensino e a educação, e que a produção desse conhecimento deveria fazer parte da jornada de trabalho do professor, do pensar a escola, do pensar o currículo, do pensar a educação. De que a produção desse conhecimento e a sua socialização entre os pares da escola e fora dela é a verdadeira formação continuada (ou o desenvolvimento profissional) que realmente impacta na melhoria da qualidade educacional, pois é ela que dialoga com a realidade da escola e lhe causa movimentos. Nesses 20 anos como professor, aprendi que, se queremos melhorar a qualidade da educação brasileira, a formação e a valorização docente deveriam ser tratadas de forma indissociáveis nas políticas educacionais.


Alexander Montero Cunha é professor do Instituto de Física e coordenador da Coorlicen (Coordenadoria das Licenciaturas) da UFRGS.

 

FONTE:

https://www.ufrgs.br/jornal/o-que-aprendi-sendo-professor-por-vinte-anos/ 




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