Avaliação Docente
AVALIAÇÃO DOCENTE: O MURO DA PROGRESSÃO ![]()

A avaliação de desempenho docente, tal como existe hoje na escola pública, tornou-se um dos mecanismos mais injustos da profissão. Não porque os professores não devam ser avaliados. Devem. Quem trabalha numa escola sabe que avaliar faz parte da rotina: avaliam-se alunos, estratégias, resultados, dificuldades e decisões.
O problema está neste modelo pesado, burocrático e desconfiado, que finge medir o mérito, mas acaba por alimentar competição, ressentimento e injustiça. Parece partir de uma ideia simples: se não houver provas suficientes, talvez a qualidade do trabalho não exista.
A autoavaliação, que poderia ser um momento sério de reflexão, transformou-se num exercício de defesa. O professor não escreve apenas sobre o que fez. Escreve a pensar no que tem de provar, no que pode ser valorizado e no que convém deixar documentado, porque nunca se sabe quando uma atividade pedagógica precisa de ser apresentada como se fosse uma reforma de Estado.
A qualidade do trabalho passa, assim, a depender da capacidade de montar um relatório convincente, reunir evidências e enquadrar cada atividade como meritória, inovadora e, se possível, com impacto mensurável. Isto não melhora a escola. Apenas desloca energia do essencial para o acessório. Troca-se tempo de preparação e acompanhamento dos alunos por tempo de arquivo e sobrevivência documental.
Depois há a avaliação pelos pares, talvez uma das partes mais delicadas do processo. Em teoria, parece fazer sentido que professores avaliem professores. Na prática, quem conhece as escolas por dentro sabe como isto é frágil. Os avaliadores são colegas, pessoas que partilham reuniões, tensões, afinidades, conflitos antigos e pequenas histórias que não desaparecem quando se abre uma grelha de avaliação.
Mesmo quando há seriedade, o sistema coloca todos numa posição desconfortável. Pede objetividade num território onde as relações humanas e profissionais contam muito. E coloca sobretudo quem avalia numa situação ingrata. O professor que assume essa responsabilidade não recebe mais por isso, não tem redução de horário nem reconhecimento proporcional. Fica apenas com o encargo de aplicar descritores, validar evidências e participar numa escolha que pode pôr o professor A à frente do professor B. A isto chama-se responsabilidade acrescida sem remuneração.
É nas quotas que a avaliação mostra a sua face mais perversa. Estas transformam o mérito num bem racionado para que o Estado não tenha de pagar. Pode haver vários docentes com trabalho excelente, mas só alguns cabem nas menções superiores. Os restantes ficam de fora, não porque tenham feito menos, mas porque a administração decidiu previamente quantos podem ser reconhecidos. Isto não é avaliar. É cativar o mérito pela contenção orçamental aplicada à dignidade profissional.
Mais absurdo ainda é o modo como o sistema castiga quem assume responsabilidades. Muitas vezes, quem aceita cargos, coordena departamentos e carrega trabalho acrescido acaba preso a uma avaliação que dificilmente ultrapassa o Bom, porque as menções superiores estão bloqueadas ou condicionadas. Pede-se responsabilidade e compromisso, mas limita-se o reconhecimento. Ensina-se rapidamente que preservar a carreira pode passar por não se expor demasiado.
Perante isto, a conclusão torna-se quase inevitável: em certos contextos, é preferível não aceitar cargos, não coordenar, não se envolver, não assumir trabalho acrescido. O sistema não recompensa quem segura a escola. Demasiadas vezes, castra-o. Depois talvez se admire por faltar gente disponível.
A escola pública não precisa desta encenação. Precisa de avaliação, sim, mas justa e formativa. Uma avaliação que ajude a melhorar práticas, reconheça o trabalho sério e não destrua a cooperação entre professores. Porque uma escola não melhora quando transforma colegas em concorrentes, avaliadores em executores de injustiças e mérito em quotas racionadas. Melhora quando confia nos seus profissionais e os trata com o respeito que exige deles diariamente.
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