Baderneiros do Ceará
Baderneiros do Ceará
Motim de militares deixou marcas
05/03/2020
Acabou o motim dos policiais militares no Ceará, mas as marcas ficarão por muito tempo. A Constituição Federal não dá direito de greve aos policiais. Os militares cearenses, mesmo assim, pararam. Amotinaram-se. Com a polícia parada, a criminalidade disparou. Uma contradição ficou escancarada: quando os policiais se veem como trabalhadores, obrigados a lutar por melhores salários, tornam-se iguais às demais categorias que costumam reprimir como parte supostamente das suas obrigações profissionais. Por mais que se queira ter empatia, as lembranças das pauladas sofridas e a certeza de que outras virão limita qualquer engajamento ou simpatia.
Os policiais cearenses que pediam solidariedade são os mesmos que ontem tratavam outros grevistas como baderneiros e que amanhã certamente, resolvidos parcialmente os seus problemas, farão o mesmo. A condição salarial dos policiais é ruim. Ganham pouco e correm muitos riscos. Só que quando exercem as suas funções em nome da lei não parecem se sensibilizar com as razões e sofrimentos alheios. Policiais militares amotinados atuam fora da lei. Como lhes garantir anistia? Imagino que algum leitor dirá: o policial é pago para executar ordens. Não lhe cabe pensar se a interrupção de uma rua por grevistas atende a uma causa justa ou não. O seu papel é cumprir a lei. Pois é, esse é o problema. Se têm de cumprir a lei em relação aos outros, devem fazer o mesmo quanto a si e aos seus. O que fazer quando a penúria pressiona?
Julgar é mais fácil do que compreender. Cumprir ordens, menos penoso do que refletir. O cínico deve estar dizendo: aqui se faz, aqui se paga. Ou, com algum humor, podiam “cumprir ordens” contra grevistas com menos satisfação e prazer. A greve dos policiais militares do Ceará conta uma história óbvia: o repressor e o reprimido saem do mesmo lugar e sofrem as mesmas misérias. Um dia, a casa cai e ambos se encontram sentados na calçada. Uma coisa é correr atrás de bandidos. Outra, reprimir grevistas, inclusive, muitas vezes, professores dos filhos dos próprios policiais. Assim é a vida. Policiais prestam serviços inestimáveis à sociedade. São trabalhadores como os demais. Só que nem sempre possuem a consciência dessa condição demasiadamente humana.
Não há como superar definitivamente essa condição intrínseca ao sistema. Pode-se aprender, contudo, um pouco com ela. Grevista não é vagabundo, não é bandido, não faz greve por prazer, não tranca rua por falta do que fazer. Precisa chamar a atenção para as suas dificuldades. Democracias convivem com certo grau de entropia. A paz dos cemitérios é o regime das ditaduras. Policial militar, sendo trabalhador como qualquer outro, deveria ter direito de greve. Sem armas. Com atendimento mínimo de serviços. Sem entregar as cidades aos criminosos. Os governantes precisam pensar nisso. Se os policiais vivem próximos da penúria, a responsabilidade pelos danos que virão é dos políticos.
Quanto mais um país estica a corda da desigualdade, mais brinca com o perigo. O Brasil é campeão de desigualdade. Vive no fio da navalha. Motim de militar armado mostra que se foi o boi com a corda. Ainda mais quando o alto escalão federal passa pano.