Bandeira que faltava
A bandeira que faltava
Ontem, no primeiro dia oficial da campanha eleitoral, eu estava em Copacabana. E, como quem passa por uma praça onde alguma coisa acontece e não consegue resistir à curiosidade, fui olhar de perto o início da campanha de Flávio Bolsonaro.
Talvez porque eu tenha vivido em Copacabana durante a pandemia, a lembrança tenha vindo imediatamente. Aquela multidão imensa que ocupava as ruas nos atos bolsonaristas, especialmente no Sete de Setembro. Um mar de gente. Uma demonstração de força que parecia não caber nas fotografias.
Desta vez, a impressão foi outra.
Havia gente, evidentemente. Mas muito menos do que eu me lembrava de ter visto naquela Copacabana de outros tempos. E havia uma particularidade que me chamou ainda mais a atenção. Muitas pessoas sequer estavam vestidas de verde e amarelo. Algumas traziam apenas o adesivo com o número 22 na roupa. A maior concentração parecia estar em uma apresentação de escola de samba, no Posto 5, enquanto a manifestação política acontecia no Posto 4.
Mas não foi apenas a quantidade de pessoas que me fez pensar.
Foram as bandeiras.
Entre as bandeiras brasileiras, havia bandeiras dos Estados Unidos.
E então me veio uma pergunta que, para mim, ultrapassa a circunstância eleitoral:
Quando uma campanha disputa a Presidência do Brasil, por que a bandeira de outro país ocupa espaço tão visível em sua manifestação?
Não se trata de dizer que uma bandeira americana, sozinha, seja prova de submissão ou de entrega da soberania nacional. Seria simplista demais. Países fazem alianças, estabelecem relações diplomáticas, comerciais e estratégicas. Nenhuma democracia precisa transformar relações internacionais em hostilidade.
Mas símbolos também falam.
E, em política, aquilo que se escolhe exibir não é neutro. E qual foi a instrumentalização realizada para que manifestantes carregassem a bandeira estadunidense? O que mexeu com a mentalidade dessas pessoas? Será que estão conscientes de suas ações?
Por isso, a imagem me incomodou. Não porque os Estados Unidos sejam um país inimigo. Não são. Mas porque uma eleição presidencial brasileira deveria, antes de qualquer coisa, convocar o imaginário de um povo sobre o seu próprio país.
Horas depois, vi as imagens do ato de Lula em São Bernardo do Campo.
E a comparação me veio quase inevitavelmente.
Ali, uma enorme bandeira brasileira ocupava o espaço. O estádio estava tomado por gente. Não importa, para esta reflexão, se eram dez, vinte ou quarenta mil pessoas. Números de manifestações políticas quase sempre dependem de quem conta e de como conta. O que importa é a imagem. Um estádio cheio, uma multidão brasileira, uma gigantesca bandeira do Brasil.
Duas cenas. Dois palcos. Dois discursos. Duas maneiras de imaginar o país.
De um lado, uma campanha que parece insistir na mesma liturgia política dos últimos anos. Ataques às instituições, confrontação permanente, inimigos internos, ameaças, ressentimentos e a promessa de que tudo será resolvido pela força de um confronto com participação estrangeira.
Do outro, um discurso que procura falar de educação, segurança, desenvolvimento, recursos estratégicos, futuro e soberania.
Pode-se discordar de Lula. Deve-se, inclusive, questionar suas propostas, cobrar resultados e criticar seu governo sempre que necessário. Democracia não é transformar político em objeto de devoção.
Mas talvez seja justamente aí que esteja a diferença que mais me interessa.
Uma eleição presidencial deveria ser uma disputa sobre o que queremos fazer do Brasil.
Não apenas sobre quem odiamos.
Não apenas sobre quem devemos combater.
Não apenas sobre quem será o nosso inimigo.
E muito menos sobre a quem devemos nos submeter.
Patriotismo não é vestir uma camisa verde e amarela, empunhar uma bandeira brasileira ou gritar o nome de um candidato. Patriotismo é compreender que o Brasil tem interesses próprios. É saber que soberania não significa isolamento, mas capacidade de decidir o próprio destino.
É possível admirar os Estados Unidos sem desejar que o Brasil seja subordinado a eles.
É possível ser de direita sem abrir mão da soberania nacional.
É possível ser de esquerda sem transformar nenhum governante em salvador da pátria.
O problema começa quando a admiração por outra nação se transforma em dependência política. Quando a defesa de interesses estrangeiros parece mais importante do que a defesa dos interesses nacionais. Quando a política externa deixa de ser instrumento do Estado brasileiro e passa a ser extensão das preferências ideológicas de um grupo.
E talvez seja por isso que aquelas bandeiras americanas, vista no meio de uma campanha brasileira, tenha me provocado tanto estranhamento.
Não porque uma bandeira possa entregar um país.
Mas porque um povo pode, pouco a pouco, entregar o imaginário de sua própria soberania.
E isso é muito mais perigoso.
Depois, olhando as imagens de São Bernardo, pensei que talvez a questão central desta eleição não seja simplesmente quem vencerá.
Talvez seja que ideia de Brasil vencerá.
Um Brasil que se reconhece como nação soberana, capaz de dialogar com o mundo sem se ajoelhar diante dele?
Ou um Brasil que procura fora aquilo que deveria encontrar dentro de si?
A eleição mal começou.
Ainda haverá discursos, promessas, ataques, alianças, escândalos, bandeiras, jingles e multidões.
Mas uma coisa já ficou evidente para quem estava ontem em Copacabana.
Há muitas maneiras de falar em patriotismo.
Algumas começam pela bandeira.
Outras começam pela soberania.
E há uma diferença imensa entre amar uma bandeira e saber, verdadeiramente, o que ela representa.
Bom dia!
Vânia Wolff
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