Caderno de campo de um pai

Caderno de campo de um pai

CADERNO DE CAMPO DE UM PAI

(ou: anotações sobre uma menina em estado de aprendizagem)

Por João Guató

Recebi o relatório dos processos de ensino e aprendizagem da escola como quem encontra um passarinho pousado no papel.

Não era um documento.

Era um quintal.

Li com o jeito de quem observa formiga: devagar, de cócoras, respeitando o caminho.

Minha filha, Ana Bella, no Pré-4, está ali descrita com palavras grandes, mas o que vejo são coisas pequenas — que são as que mais ensinam. Ela corre. Ela pula. Ela dança. Ela inventa histórias que não cabem no fim da frase. Ela pergunta. Pergunta muito. Pergunta como quem cava o chão com graveto, à procura de sentido.

Anoto no meu caderno de pai-etnógrafo:

— A criança aprende com o corpo inteiro.

— O pensamento dela começa no joelho ralado e termina na imaginação.

O relatório diz que ela reconhece sons, sílabas, palavras curtas. Eu vejo outra coisa: ela começa a conversar com o papel. A letra deixa de ser desenho e vira morada. Ler, para ela, não é decifrar — é brincar de entender.

Na matemática, contam que ela alcança os números até 20. Mas isso é pouco dito. O que ela faz, de verdade, é domesticar quantidades. Aprende que o mundo pode caber em dedos, que o antes e o depois também são parentes. Soma como quem junta pedrinhas. Subtrai como quem empresta o brinquedo e aprende a falta.

Registro em silêncio:

— A matemática nasce quando a criança percebe que o mundo pode ser organizado sem perder o espanto.

Em natureza e cultura, dizem que ela reconhece planetas, plantas, animais, o corpo humano, os sentidos. Traduzo no meu idioma de pai: ela começa a entender que não é dona das coisas. Que vive entre. Entre bichos, estrelas, gente, vento e cuidado.

No inglês, ela aprende cores, números, palavras soltas, músicas que escorrem pela boca. Não é outra língua — é outra brincadeira. O som chega antes do sentido. Como deve ser. Palavra precisa primeiro brincar de ser som.

Há uma observação delicada sobre sua fala, uma leve gagueira, já acompanhada. Anoto com carinho:

— A fala também tem infância.

— Algumas palavras chegam tropeçando. E tudo bem.

Fecho o relatório. Guardo.

Não como arquivo.

Mas como quem guarda um inseto raro na memória.

Conclusão provisória deste trabalho de campo:

a menina está crescendo do jeito certo — errando, perguntando, inventando, se movendo. A escola não tenta endireitá-la. Observa. Acompanha. Cultiva.

E eu, pai, sigo aqui, com meu caderno invisível, aprendendo a desaprender pressa. Porque educar, descobri, é deixar a infância passar por dentro da gente sem querer consertá-la.

Assino embaixo, com letra de barro e afeto:

— João Guató,

pai que observa passarinhos aprendendo a ser mundo.

 

FONTE:

https://www.facebook.com/photo/?fbid=10214578917223385&set=a.3358299773034&locale=pt_BR 




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