Calor na sala de aula

Calor na sala de aula

Calor na sala de aula reduz concentração e prejudica a aprendizagem

Com 66% das salas da rede pública sem climatização, altas temperaturas atingem principalmente escolas em áreas vulneráveis

Por Ícaro Kropidloski   02/03/2026

 

O estresse térmico, condição em que o corpo precisa fazer um esforço adicional para regular a própria temperatura, interfere no funcionamento do cérebro, altera a capacidade de concentração e pode desencadear mal-estar físico. Nas escolas, isso se traduz em interrupções e dificuldades na condução das atividades pedagógicas.
Foto: Getty Images

 

Em fevereiro de 2025, uma professora de uma escola no litoral de São Paulo desmaiou enquanto dava aula. A sensação térmica era elevada, passando dos 40ºC. Segundo relatos de colegas, a sala estava abafada e sem climatização adequada. A docente foi socorrida por funcionários da unidade. Na época, o caso gerou repercussão nas redes sociais e levantou questionamentos sobre as condições de trabalho e de aprendizagem nas escolas. 

No último ano, as altas temperaturas afetaram significativamente a rotina escolar Brasil afora, de Norte a Sul: secas históricas causaram adiamento de aulas e ampliaram a evasão escolar na região Amazônica, aulas foram suspensas em Cuiabá (MS) e no interior do Rio de Janeiro e de São Paulo por conta da sensação térmica elevada  e o início do ano letivo foi adiado, por meio de decisão judicial, no Rio Grande do Sul. 

Em meio a temperaturas cada vez mais extremas e à falta de áreas arborizadas no entorno de muitas escolas, os dias quentes impactam a disposição de professores e alunos e afetam diretamente a atenção, o comportamento e a aprendizagem dos estudantes. Segundo o Centro de Inovação para a Excelência de Políticas Públicas com base nos microdados do Censo Escolar 2023, cerca de 66 % das salas de aula da rede pública não possuem climatização (ar-condicionado, aquecedor ou climatizador). O início do período letivo, que já exige adaptação de rotina, tem coincidido com ondas de calor em diferentes regiões do país, expondo um problema que vai além do desconforto.

O estresse térmico, condição em que o corpo precisa fazer um esforço adicional para regular a própria temperatura, interfere no funcionamento do cérebro, altera a capacidade de concentração e pode desencadear mal-estar físico. Nas escolas, isso se traduz em aulas mais curtas, interrupções e dificuldades na condução das atividades pedagógicas. 

 

Como o estresse térmico afeta o cérebro

Do ponto de vista científico, o impacto das altas temperaturas sobre o cérebro já é conhecido. Livia Ciacci, mestre em neurociência e especialista em metodologias ativas,  explica que quando o corpo precisa direcionar energia para manter a temperatura interna estável sobra menos recursos fisiológicos para as funções cognitivas, como memória, atenção e tomada de decisão. “Quando a temperatura passa dos 35ºC, o cérebro já diminui a atividade pela metade. Ou seja, o que ele teria de energia para qualquer atividade cognitiva cai consideravelmente.”

A especialista diz que acima de 27ºC, especialmente em ambientes fechados, já há estresse térmico. “Temos mais sudorese, e o corpo vai exigir uma maior hidratação. Além disso, o calor pode acelerar o metabolismo porque biologicamente o corpo quer escapar daquele ambiente. Isso resulta em aumento de cortisol e, consequentemente, mais ansiedade e agitação, principalmente em crianças. E o cérebro vai demorar a se adaptar a esse ambiente se essa temperatura continuar subindo” exemplifica. 

Livia cita a Norma Regulamentadora 17 (NR17) do Ministério do Trabalho e Previdência Social do Brasil, que trata da ergonomia no ambiente de trabalho, como possível balizadora para se pensar sobre conforto térmico em ambientes fechados. O objetivo principal da NR17 é adaptar as condições de trabalho às características psicofisiológicas dos trabalhadores, promovendo conforto, segurança, saúde e desempenho eficiente, e prevenindo doenças e acidentes. 

Parte da norma, que trata de iluminação, ruído, temperatura e demais fatores ambientais que influenciam o conforto e a segurança durante o trabalho, preconiza que em ambientes onde se exigem atenção e atividade intelectual constante, sejam observadas condições de conforto térmico, como temperatura entre 20ºC e 23ºC e umidade do ar não inferior a 40%.  “Então, essa seria uma faixa de temperatura ideal para uma sala de aula”, aponta. 

Desigualdades e racismo ambiental

A questão das altas temperaturas no ambiente escolar também deve ser analisada sob a perspectiva da desigualdade, com recortes de classe e raça. André Castro, diretor técnico do Instituto LACLIMA, que pesquisa, desenvolve e dissemina conhecimentos sobre políticas climáticas, afirma que as escolas que estão sendo mais afetadas são aquelas que estão necessariamente em áreas mais vulnerabilizadas e menos arborizadas, ficando mais suscetíveis ao aquecimento.  

A pesquisa “O acesso ao verde e a resiliência climática nas escolas das capitais brasileiras”, desenvolvida pelo Instituto Alana e pela organização Fiquem Sabendo, considerou quatro indicadores:  1) se há área verde dentro da escola; 2) existência de praças ou parques no entorno escolar; 3) se a escola está em área com temperatura acima da média urbana;  4) se a escola se localiza em uma área de risco. 

“Notamos que 90% das escolas em áreas de risco estão dentro de favelas ou a uma distância de até 500 metros delas. Quando a gente olha para a questão racial, 51% dessas escolas têm a maioria de alunos negros. O reflexo disso é o racismo ambiental de várias formas. Essas localidades possuem menos suporte do Estado, e as próprias escolas muitas vezes têm infraestrutura mais precária”,  diz João Paulo Amaral, gerente de Natureza do Instituto Alana .  

Injustiça climática

O  conceito de injustiça climática parte do pressuposto de que as camadas sociais que menos contribuem para as mudanças climáticas, por consumirem e degradarem menos o meio ambiente, são justamente as que mais sofrem, pois são menos capazes de se adaptar a contextos de desequilíbrio socioambiental. 

No contexto educacional, isso se traduz na capacidade de uma escola se adaptar ou não a uma situação de desconforto climático e de falta de infraestrutura adequada, que afeta não só ela, mas todo seu entorno. “Nós temos vulnerabilidades no Brasil que vêm da desigualdade social. Quando colocamos o componente de mudanças climáticas, essas vulnerabilidades que já decorrem de outros fatores se aprofundam", salienta André.

Ele ressalta que, de alguma maneira, todos os habitantes da Terra estão sofrendo os impactos das mudanças climáticas, mas algumas pessoas sofrem mais. “Escolas em territórios com menos infraestrutura urbana enfrentam temperaturas mais altas e vão ter, por exemplo, menor acesso a praças e parques, o que amplia ainda mais os efeitos do calor sobre a aprendizagem.” 

Infraestrutura urbana

O calor excessivo também pode prejudicar a gestão do comportamento em sala de aula, o que  já é um desafio cotidiano para muitos professores. A Pesquisa Internacional sobre Ensino e Aprendizagem (TALIS 2024), coordenada pela Organização para a Cooperação e Desenvolvimento Econômico (OCDE), destaca que professores brasileiros perdem, em média, cerca de 21% do tempo de aula lidando com questões de disciplina e atenção dos alunos. 

De acordo com Livia, o desconforto térmico afeta a autorregulação emocional. “Estudantes expostos a altas temperaturas podem apresentar maior agitação, dificuldade de permanecer sentados e menor capacidade de sustentar a atenção por períodos prolongados”, sinaliza. Ela também frisa que o professor, submetido às mesmas condições, também sofre queda de rendimento, o que impacta a dinâmica da aula. 

Além disso, eventos climáticos extremos têm relação direta com o aumento da evasão escolar. O relatório “Learning interrupted: global snapshot of climate-related school disruptions”, de 2024, do Fundo das Nações Unidas para a Infância (Unicef),  mostra que, após eventos climáticos extremos, aumenta a probabilidade de abandono da escola, especialmente entre as meninas. 

Para André, a discussão sobre escolas não pode ser dissociada do debate mais amplo sobre a cidade. Ele defende que melhorar a infraestrutura urbana, com mais áreas verdes, menos superfícies impermeáveis e ambientes mais agradáveis, beneficia a vida de forma geral e, consequentemente, cria condições mais adequadas para o funcionamento das escolas. “É desejável que a gente tenha políticas focadas nas pessoas especialmente vulnerabilizadas, mas também é importante entender que isso é parte de um todo”, afirma. Ele acredita que, além de medidas específicas para a Educação, é preciso pensar na urbanidade de forma integrada. “As escolas estão dentro da cidade”, justifica.

Falta de condições para o trabalho pedagógico

A professora Hstéffany Pereira Muniz Araújo leciona História na EE Diva Lima, em Boa Vista (RR), um dos estados que tem a média anual de temperatura mais elevada do país, entre 26ºC e 29ºC. Com 13 anos de experiência na docência, ela pediu transferência da escola onde trabalhava anteriormente por causa das condições térmicas. “Eu não pretendia sair dessa escola tão cedo. Mas os últimos anos foram terríveis, o calor estava me desanimando a ir para a escola. Eu sentia também os alunos muito mais agitados”, conta. 

Segundo ela, as temperaturas médias elevadas, combinadas à falta de climatização adequada, tornavam o ambiente inapropriado para o trabalho pedagógico. “E também notei que eu me estressava muito fácil por conta desse calor na sala de aula”, detalha. 

Um ponto de atenção, de acordo com Hstéffany, era a inadequação da estrutura do prédio antigo e uma fiação sem manutenção adequada. Ela lembra que, mesmo tendo ar-condicionado, o ambiente era muito quente. “Primeiro, porque as salas eram muito grandes. Em algumas tinham dois ar-condicionados, mas eles não resfriavam. Havia também janelões imensos, por onde passava sol direto. E, durante os picos de calor, os ar-condicionados pifavam e a escola disponibilizava ventiladores – às vezes, um ventilador para uma sala de 30 crianças.”

Ela diz que a escola para onde foi transferida é mais arborizada e que isso faz diferença no cotidiano escolar. “Você acaba tendo mais vento circulando nos corredores e consegue fazer uma atividade fora da sala, por exemplo. Porque é possível ter o mínimo para estar ali fora, coisa que eu não conseguia, infelizmente, na outra escola ", compara. 

Comprometimento do rendimento dos alunos

No Amazonas, na cidade de Uarini, o professor Joilson Souza da Silva dá aulas de  Matemática e Física na EE Edson Melo. Ele relata que já lecionou por quatro anos em uma escola na zona rural onde não havia estrutura de climatização. A ausência de ar-condicionado, somada a salas pequenas e superlotadas, comprometia o rendimento dos alunos. 

O  calor excessivo provocava fadiga, sudorese intensa e dificuldade de concentração, especialmente em disciplinas que exigem maior raciocínio, como Matemática. “O calor afeta demais o ensino. Os alunos ficam cansados, suados, não conseguem se concentrar, e isso prejudica principalmente na hora de fazer cálculos”, afirma o professor.

Ele diz que muitos estudantes percorrem longas distâncias até a escola, o que agrava o desgaste físico em dias quentes. Alguns chegam com antecedência para tentar se recuperar do trajeto antes do início das aulas. Ainda assim, durante o período em sala, o desconforto térmico persiste e demanda tempo do professor para reorganizar a turma. 

Atualmente lecionando em escolas urbanas, onde há climatização, ele percebe diferença significativa no engajamento e na aprendizagem. Para o professor, o acesso ao ar-condicionado não deveria ser um diferencial, mas uma condição básica de funcionamento, especialmente em regiões de clima mais quente. Ele defende investimento público em soluções estruturais, como a instalação de placas solares para viabilizar a climatização em áreas rurais e a construção de salas mais arejadas. 

Os relatos dos professores  indicam que o ar-condicionado pode ser uma estratégia de climatização, mas não resolve sozinho o problema. Em muitos casos, há limitações de rede elétrica, custos de manutenção e falhas no fornecimento de energia. Além disso, eles frisam que o debate sobre conforto térmico envolve o desenho urbano e a presença de áreas verdes no entorno das escolas. 

 

Entre políticas públicas e ações locais

Um dos caminhos para enfrentar esses desafios são as chamadas soluções baseadas na natureza. O Instituto Alana, organização que atua na defesa e garantia dos direitos de crianças e adolescentes, desenvolve e executa projetos relacionados a essas soluções. Elas procuram proteger e restaurar ambientes e ecossistemas de forma sustentável, ao mesmo tempo em que buscam soluções para desafios sociais, como mudanças climáticas, riscos de desastres ambientais e segurança hídrica e alimentar. No contexto escolar, a Educação Baseada na Natureza busca  integrar a natureza ao cotidiano do estudante, tanto em relação à infraestrutura quanto ao que diz respeito ao currículo.

Um exemplo é o Refresca SP, uma parceria com a Prefeitura de São Paulo. A iniciativa tem como objetivo transformar a infraestrutura escolar, trazendo mais contato com a natureza, e implementar medidas que favoreçam o uso de espaços verdes dentro das escolas e em seus entornos. 

A EMEF Virgílio de Mello Franco foi piloto da iniciativa em 2024 e promoveu a retirada de cerca de 70% do concreto do parquinho da instituição, que foi substituído por áreas de terra, grama natural, mobiliário de madeira e piso emborrachado produzido com restos de pneus. Foram implantados morros de terra, jardins de chuva – canteiros projetados para captar, reter e infiltrar a água da chuva no solo, em vez de deixá-la escorrer para bueiros e causar alagamentos – e espaços para aulas ao ar livre, além de um lago. 

Edilson Cruz, diretor da escola, relata que, inicialmente, a proposta era desconcretar totalmente o parquinho, mas houve resistência de parte do corpo docente, acostumado a associar o concreto à ideia de infraestrutura e desenvolvimento. “Quando eu cheguei na escola, há dez anos, era tudo terra. Daí colocamos pedriscos e depois concretamos. Na época, eu me senti o ‘diretor civilizador’. Com a discussão levantada por conta do projeto do Refresca, chegamos a um meio termo. O concreto total diminuía o contato das crianças com a natureza e deixava o espaço muito quente ", lembra. 

Atualmente, a percepção geral dos professores e alunos, segundo o diretor, é de que o parquinho está mais fresco. “O parque ganhou mais espaço e ficou mais bonito. Hoje, os professores e alunos utilizam mais o espaço porque ficou menos abafado e mais agradável”, destaca.

O que as escolas podem fazer para amenizar o estresse térmico

Entre as possíveis ações no curto prazo estão:

  • elaboração de um plano de contingência para ondas de calor;

  • reorganização de horários e uso de espaços abertos e/ou mais ventilados;

  • ampliação de áreas sombreadas;

  • projetos de plantio com participação da comunidade;

  • manutenção de bebedouros, possibilitando ilhas de hidratação no ambiente escolar;

  • pintura de muros, paredes e telhados com tintas de cor clara (como o branco) que refletem a luz do sol e auxiliam no conforto térmico.

 

FONTE:

https://novaescola.org.br/conteudo/22645/calor-na-sala-de-aula-prejudica-aprendizagem?utm_source=facebook&utm_
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