Cinema patriótico

"Cinema patriótico
Durante anos, a Lei Rouanet foi instrumentalizada pela extrema direita para desqualificar uma política pública de fomento cultural com décadas de existência e regras de auditoria abertas ao escrutínio de qualquer cidadão. O alvo real era a política. A acusação de irregularidade servia como cobertura para uma operação de deslegitimação mais ampla: transformar o financiamento público da cultura em símbolo de conluio entre o Estado e a esquerda artística. A partir daí, qualquer projeto aprovado pela lei se tornava suspeito por princípio, sem acusado específico e sem processo. O nome da lei passou a carregar a condenação dentro de si. Repetir o argumento tornava a verificação desnecessária.
A operação converteu uma disputa legítima sobre política cultural numa acusação penal difusa e especulativa. O contribuinte honesto tornava-se vítima de um saque autorizado pelo Estado; o artista financiado, um operador ideológico com CNPJ. A lógica era refinada: ao criminalizar o instrumento, dispensava-se a necessidade de disputar critérios. A própria ideia de política cultural pública passou a soar como escândalo, como crime de privilegiados.
A pedagogia moral obedecia a uma lógica simples: quando o dinheiro passava pelo Estado, chamava-se privilégio; quando a cultura contrariava a extrema direita, chamava-se aparelhamento. Faltava apenas o experimento inverso: trocar política pública por banqueiro, edital por acerto privado, prestação de contas por offshore e interesse público por biografia familiar. A moralidade, enfim, seria testada em condições controladas. O resultado veio com a delicadeza de um cofre arrombado.
O resultado atende pelo nome de *Dark Horse*. A cinebiografia de Jair Bolsonaro tem roteiro do deputado Mario Frias, ex-secretário de Cultura do governo federal, e direção do cineasta americano Cyrus Nowrasteh. Jim Caviezel, ator que havia interpretado Jesus em A Paixão de Cristo, foi escolhido para o papel principal. A estreia estava marcada para 11 de setembro de 2026, semanas antes do primeiro turno, numa escolha de data que obedecia a uma lógica eleitoreira.
Na busca por patrocínio, o senador e pré-candidato Flávio Bolsonaro negociou com Daniel Vorcaro o valor de R$ 134 milhões para bancar a produção, segundo reportagem do Intercept Brasil de 13 de maio de 2026, corroborada pela Folha de S.Paulo com base em documentos e áudios obtidos pela investigação e confirmados por dados da Receita Federal entregues à CPI do Crime Organizado. Vorcaro é controlador do Banco Master, liquidado pelo Banco Central em novembro de 2025 com rombo superior a R$ 40 bilhões e investigado por fraude e lavagem de dinheiro. O banco havia captado, durante anos, recursos de depositantes e investidores com rendimentos acima do mercado, lastreados em ativos problemáticos, transferindo o risco para o Fundo Garantidor de Créditos e, ao fim da cadeia, para o conjunto dos depositantes do país. Enquanto o banco caminhava para a liquidação, o dinheiro do filme saía por uma empresa em São Paulo e chegava ao Havengate Development Fund LP, fundo registrado no Texas com endereço de escritório de advocacia ligado a aliados de Eduardo Bolsonaro. Cerca de R$ 61 milhões já haviam percorrido aquele caminho quando Vorcaro foi detido em Guarulhos tentando deixar o país.
A relação entre o senador e o banqueiro é moralmente inteligível em seus próprios termos. Vorcaro precisava de proteção política enquanto o banco desmoronava; Flávio precisava de dinheiro para um projeto que convertia a biografia do pai em ativo eleitoral do projeto político da família. O que os áudios revelam é a anatomia de uma troca em que a moeda de um lado era influência e a do outro eram recursos vindos da engrenagem financeira de um banco em colapso. Num áudio obtido pelo Intercept, a preocupação do senador era não dar calote em Jim Caviezel e no diretor, descritos como "renomadíssimos do cinema americano, mundial". Os depositantes e investidores afetados pela liquidação do Master não aparecem em nenhuma das mensagens.
A guerra contra a Lei Rouanet tinha um objeto preciso, que a questão da transparência apenas encobria: quem controla o que merece ser chamado de cultura, e com dinheiro de quem. A lei financiava os outros por meio de um instrumento público, submetido a regras conhecidas e mecanismos de controle. O fundo no Texas financiava a família Bolsonaro por uma rota privada, opaca, estrangeira e associada ao entorno empresarial de um banqueiro investigado pela quebra de um banco. O escracho permanente contra a Lei Rouanet funcionou como disputa pelo monopólio da impunidade cultural: garantir para si o direito de financiar a própria mitologia política e negar aos outros até mesmo a legitimidade de disputar recursos públicos sob regras conhecidas.
Quando o escândalo veio à tona, Flávio Bolsonaro disse candidamente que se tratava de "um filho procurando patrocínio privado para um filme privado sobre a história do próprio pai". A frase merece registro como documento. Durante anos, a extrema direita chamou de corrupção cultural o fato de o Estado financiar arte por meio de regras abertas, seleção formal e prestação de contas. Quando chegou a sua vez, a origem do dinheiro passava pelo entorno de um banco quebrado e o destino era uma estrutura no exterior. O nome disso, no vocabulário que eles mesmos construíram, seria óbvio: imoralidade. Aquele vocabulário, porém, foi feito para os outros.
Depois de anos tratando política cultural pública como crime moral, a extrema direita brasileira chegou ao seu próprio modelo de fomento: privado no discurso, familiar no interesse, estrangeiro na rota e público no prejuízo socializado.
A família Bolsonaro e a extrema direita brasileira provam, mais uma vez, a que vieram."
(Por Ricardo Queiroz )






