Comparando com O Conto da Aia

Nesse momento uma comparação entre Michelle Bolsonaro e a personagem de O Conto da Aia, Serena Joy, é essencial. Na ficção, Serena Joy representa uma mulher que ajuda a legitimar e sustentar um sistema profundamente patriarcal, acreditando ocupar uma posição privilegiada, mas que, ao final, também é limitada por esse mesmo sistema...
Na vida real, Michelle Bolsonaro é frequentemente apresentada como símbolo do protagonismo feminino...
Mas a pergunta é: protagonismo pra quê? À serviço do quê?
Em O Conto da Aia, Serena Joy não é apenas vítima de um regime autoritário. Ela é uma de suas arquitetas. Defende uma ordem baseada na submissão das mulheres, na moral religiosa e no controle dos corpos femininos, acreditando (ingenuamente?) que sua posição de privilégio a protegeria das consequências desse projeto. Descobre tarde demais que o patriarcado não faz exceções reais, ele somente instrumentaliza mulheres enquanto elas lhe são úteis...
A comparação com Michelle Bolsonaro parte justamente dessa reflexão. Ao longo de sua trajetória pública, Michelle ajudou a promover um discurso político fortemente associado ao conservadorismo religioso, à defesa de papéis tradicionais de gênero e à mobilização da fé como instrumento de poder. Sua imagem de esposa, mãe, evangélica e primeira-dama dedicada e fiel foi transformada em um poderoso recurso pra tornar esse projeto mais aceitável, especialmente entre mulheres, que são o grande desafio do bolsonarismo.
Michelle, por personificar esse padrão ideal da religiosa e/ou conservadora representa ideologicamente um projeto de poder que tem como prioridade discursos e políticas que restringem de forma perigosa a autonomia de outras mulheres, atacam direitos reprodutivos, desqualificam o feminismo e suas históricas conquistas sociais, reforçam estruturas patriarcais que culminam no extermínio em escala industrial de mulheres e colocam a obediência ao deus cristão e "sua imagem e semelhança, os cabeças da criação - os homens", como virtude máxima.
Ela serve como uma bela, articulada e respeitável isca, projetada como protagonista de uma armadilha focada nas "mulheres de bem" deste país...
E talvez, como Serena Joy, Michelle creia realmente que é superior.
Que não está sendo usada e sim que está protagonizando a cena.
Que no jogo de poder, é diferenciada.
A questão é que o patriarcado moderno entende que não precisa ser representado apenas por homens...
Ele também pode falar pela voz de mulheres que reproduzem sua lógica misógina sem deixar isso tão evidente. Isso não o torna menos patriarcal e sim muito mais eficiente.
Uma grande lição é sobre o perigo de mulheres serem convencidas a defender estruturas que, no fim das contas, existem pra limitar a liberdade de TODAS elas. Nenhum privilégio individual é capaz de transformar um projeto autoritário em um projeto emancipador...
Quando uma mulher empresta sua credibilidade a fim de naturalizar a concentração de poder político, religioso e moral sobre a sociedade, ela não representa a si mesma de fato e sim funciona como um selo de legitimidade pra um modelo que cobra das demais mulheres silêncio, submissão e conformidade.
E o alerta aqui não é só sobre Michelle Bolsonaro. É sobre a gente reconhecer que projetos autoritários frequentemente utilizam rostos femininos pra parecerem menos ameaçadores...
A história mostra que, depois de consolidado o poder, esses projetos raramente preservam a autonomia das mulheres que ajudaram a construí-los. O patriarcado pode até premiar suas colaboradoras por um tempo, mas nunca deixará de ser a estrutura brutal de hierarquia de gênero que marca de forma tão injusta e perversa a história da humanidade.
Ninguém se engane tá? Porque se a conta de servir de peito aberto aos interesses desse sistema chega até pras Michelles Bolsonaros e Serenas Joys da vida...
Imagine pras seguidoras! Pras admiradoras, apoiadoras, fãs...
Que ainda perguntam: " ain, feminismo pra quê?"![]()
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Gi Stadnicki
FONTE:





