Conclusão da Educação Básica

Conclusão da Educação Básica

 

Mais de 1 em cada 3 brasileiros não concluiu a educação básica. Quem o Brasil deixou para trás?

Estudo “Demanda Potencial por EJA e Transição para o Trabalho” mostra que 63,9 milhões de jovens e adultos no Brasil não concluíram a educação básica e estão fora da escola. Se a EJA atende apenas 1,5% dessa demanda, a pergunta é inevitável: o país ainda considera seus adultos sujeitos de direito à educação?

por Ruam Oliveira ilustração relógio 8 de julho de 2026

 

Itália, Colômbia, Espanha, Argentina, Moçambique, Nepal, Austrália. Sabe o que todos esses países têm em comum? Nenhum deles tem mais de 60 milhões de habitantes. Enquanto isso, o Brasil possui 63,9 milhões de jovens e adultos que não concluíram a educação básica e estão fora da escola. É o que mostra o estudo “Demanda Potencial por EJA e Transição para o Trabalho”, recém-lançado pela Rede EJA e Inclusão Produtiva, coalizão formada por 16 instituições da sociedade civil e organismos multilaterais. 

Esse contingente representa 37,3% da população brasileira com 15 anos ou mais. Os dados mostram que a EJA (Educação de Jovens e Adultos) enfrenta desafios muito específicos de alcance e oferta, determinados por marcadores de classe, gênero, raça e renda.

Dos quase 64 milhões que não concluíram a educação básica, 44,7 milhões não finalizaram o ensino fundamental e 19,3 milhões interromperam seus estudos antes de completar o ensino médio. 

Entre outros aspectos, o levantamento associa a baixa escolaridade à pobreza, à precariedade de trabalho e às desigualdades sociais e territoriais. No recorte racial, pretos e pardos somam 63,9% dos não escolarizados. Quanto ao gênero, há equilíbrio: as mulheres representam 49,2% do grupo.

“Baixa escolaridade, desigualdades e pobreza se retroalimentam. Os mais vulneráveis tendem a abandonar a escola mais cedo; quem abandona tem acesso restrito a empregos mais bem remunerados. Esse ciclo não se quebra apenas com a oferta de vagas em escolas. Exige intervenções intersetoriais capazes de remover os obstáculos à permanência, ao aprendizado e às transições entre escola e trabalho”, destaca o levantamento.

Pensada para avaliar a oferta e o atendimento desse segmento, a pesquisa identifica que houve uma queda de 16% na demanda potencial desde 2012. O recuo, contudo, não decorre da eficiência da modalidade. A população não escolarizada está envelhecendo, e a mortalidade responde por cerca de 8% dessa redução.

 

Proporção por faixa etária, nível educacional e sexo

 

 

Faixa etária Anos iniciais do ensino fundamental incompletos Anos finais do ensino fundamental incompletos Ensino médio incompleto
Homens Mulheres Homens Mulheres Homens Mulheres

15–17
0,4% 0,2% 0,7% 0,5% 1,5% 1,1%

18–24
2,2% 1,2% 4,7% 3,0% 15,3% 11,7%

25–29
2,5% 1,4% 5,4% 3,6% 11,9% 9,7%

30–39
7,7% 4,7% 14,0% 10,4% 22,2% 19,8%

40–49
16,4% 12,1% 20,0% 17,4% 18,2% 18,9%

50–59
22,4% 19,2% 22,5% 22,7% 14,6% 16,7%

60+
48,4% 61,2% 32,6% 42,4% 16,3% 22,1%

Total
100,0% 100,0% 100,0% 100,0% 100,0% 100,0%

Fonte: PNAD Contínua Anual/IBGE. Dados de 2025. Elaboração: CERES/IESP-UERJ.

 

 

Impacto econômico e exclusão

A interrupção dos estudos cobra um preço financeiro alto ao longo da vida. De acordo com a pesquisa, a taxa de pobreza entre quem não concluiu a educação básica chega a ser 1,8 vez maior do que a registrada entre os formados. 

Nessa parcela da população, a renda domiciliar per capita equivale a apenas 51,4% dos rendimentos do restante dos cidadãos. O país perde, anualmente, cerca de R$ 66 bilhões em massa de rendimento devido à baixa escolaridade.

“A Educação de Jovens e Adultos atende hoje apenas 1,5% da demanda. Resgatar essa população exige reconhecer que os motivos para não estudar diferem radicalmente por gênero. Para os homens, o principal obstáculo é o trabalho. Para as mulheres, são os filhos e as responsabilidades de cuidado. Sem oferta de creches, horários flexíveis e modelos que conciliem estudo, trabalho e família, qualquer programa de retorno alcançará apenas uma fração de quem precisa”, pontua o estudo. 

 

Pessoa desce escada com marcações de segurança em ambiente urbano
mistergregory/Unsplash
Desafios de acesso e permanência mantêm milhões fora da escola,
apesar da demanda por educação de jovens e adultos.

 

Os três perfis da evasão

O grupo sem educação básica não é homogêneo. A pesquisa identifica três perfis geracionais distintos: 

- Acima de 50 anos: pessoas sem instrução formal ou com até quatro anos de estudo. O perfil reflete uma época em que as políticas educacionais brasileiras não tinham um alcance universal.

- De 30 a 59 anos: concentra cidadãos que têm entre cinco e nove anos de estudo, mas não concluíram o ensino fundamental.

- De 18 a 39 anos: a parcela mais jovem, que chegou a ingressar no ensino médio, mas o interrompeu antes da diplomação.

O estudo argumenta que essas diferenças não são acidentais e refletem diferentes políticas públicas que falharam em alcançar todas as gerações de forma equânime. 

“Sem ação simultânea para reincorporar quem já saiu e reter quem ainda está, o contingente de baixa escolaridade continuará sendo renovado pelas gerações mais jovens. O problema, como se verá, não é a ausência de políticas, e sim a cobertura restrita dessas políticas — o que permite a persistência de baixas taxas de escolarização, principalmente entre as gerações mais velhas”, destaca.

Desigualdades regionais e cobertura

A oferta de educação básica para adultos varia drasticamente conforme o território, o que exige respostas planejadas localmente. As regiões Norte e Nordeste concentram os maiores índices de jovens e adultos fora da escola sem conclusão da educação básica. Ainda assim, áreas do interior do Sudeste e do Centro-Oeste também apresentam proporções elevadas de não escolarizados. 

De acordo com a pesquisa, a EJA alcança apenas 1,5% da demanda potencial do Brasil. Ou seja, muitas pessoas que poderiam retomar os estudos não o fazem por falta de acesso à modalidade. A baixa cobertura é uma questão nacional: Alagoas, o estado com a maior taxa de cobertura, atende apenas 4,1% do público-alvo, enquanto Mato Grosso do Sul registra a menor taxa nacional, com 0,7%.

Rede EJA e Inclusão Produtiva é composta pela Fundação Roberto Marinho, Ação Educativa, Ashoka, Conhecimento Social – Estratégia e Gestão, Conselho Nacional do Sesi, Fundação Arymax, Fundação Bradesco, Fundação Itaú – Itaú Educação e Trabalho, GIFE – Grupo de Institutos, Fundações e Empresas, Instituto Rodrigo Mendes, Pacto Global, Redes da Maré, Todos Pela Educação, Unesco, Unicef e United Way Brasil – Juventudes Potentes.




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