Contra o machismo

Numa data como o Dia Internacional da Mulher, talvez fosse o momento das lideranças cristãs evangélicas olharem para dentro das próprias estruturas que defendem. Isso porque existe uma contradição brutal sendo convenientemente ignorada: enquanto se fala obsessivamente sobre “demônios”, “batalhas espirituais”, “ataques do mal”, um problema real, concreto e devastador continua sendo naturalizado dentro dos ambientes religiosos - a violência contra as mulheres.
Mas, como eu realmente duvido que se deem a esse tamanho trabalho, me dirijo aqui é às mulheres mesmo, principalmente às mulheres que frequentam essas igrejas, ou tem alguma simpatia por esse meio religioso.
Há algo profundamente perverso no modo como as tradições cristãs construíram o papel da mulher. Durante séculos, consolidou-se uma estrutura que coloca o homem como autoridade espiritual, moral e doméstica, enquanto à mulher cabe obediência, submissão e silêncio. Essa hierarquia foi cuidadosamente justificada e sacralizada através de interpretações bíblicas que transformaram desigualdade e consequentemente subjugação em “ordem divina”.
O resultado é um modelo social onde a mulher aprende, desde cedo, que seu valor tá em ser “virtuosa”, “recatada”, “boa esposa”, “boa mãe”, sempre subordinada à liderança masculina. Não é apenas de uma expectativa cultural, isso é apresentado como mandamento sagrado. Questionar essa estrutura passa a ser visto como rebeldia contra Deus.
Esse tipo de formação espiritual cria um terreno perigosíssimo. Quando um sistema ensina e cobra que o homem seja o “cabeça” e a mulher deva se submeter, abre-se espaço para que abusos sejam relativizados. Conflitos conjugais são espiritualizados, agressões são tratadas como “problemas de casal”, e nos púlpitos e gabinetes pastorais, as mulheres são aconselhadas a suportar, perdoar e continuar orando. O sofrimento é até divinizado como prova de fé...
Não por acaso, diversas pesquisas sobre violência doméstica no Brasil mostram que muitas vítimas permanecem por anos em relações abusivas justamente porque acreditam que sair do casamento seria falhar moral ou espiritualmente. O medo de “desagradar a Deus”, de destruir a família ou de enfrentar o julgamento da comunidade pesa tanto quanto a própria violência...
Ou seja, brutaliza duas vezes.
E aqui surge uma pergunta incômoda: por que a violência contra a mulher, tão presente, tão característica do meio evangélico nunca aparece nos espetáculos pastorais inflamados nos púlpitos? Nunca é tema das pregações emocionadas, nunca merece um baita sermãozão moralizante, nunca se vê a membresia masculina sendo duramente exortada pelas suas lideranças hierárquicas a rever essa masculinidade tão oposta ao ideal do Cristo?
Por que a violência sofrida ESTRUTURALMENTE pelas mulheres dentro de casamentos cristãos raramente é tratada como uma urgência moral?
Esse paradoxo não te incomoda?
Pergunto porque, vcs sabiam, que é nesse meio onde o maior índice de violência doméstica é observado e documentado?
Violência doméstica é prevalente entre evangélicas - Le Monde Diplomatique https://share.google/UJVOiemZkMDRSPe5h
https://www.instagram.com/reel/DVHCmvEjq9h/...
E sabe porque nas igrejas nada muda? Porque enfrentar esse problema exigiria questionar a própria estrutura de poder que sustenta essas comunidades. Falar seriamente sobre violência doméstica significaria discutir, questionar e afrontar a autoridade masculina, a imposição da submissão feminina, as hierarquias espirituais e as interpretações bíblicas que colocam homens acima das mulheres. Significaria admitir que certos "ensinamentos incontestáveis" repetidos durante décadas tão contribuindo SIM pra um ambiente onde abusos são invisibilizados e tolerados.
Isso exigiria coragem institucional, coisa que a grande maioria das lideranças prefere evitar.
Afinal né gente, é muito mais fácil transformar o mal em algo externo, espiritualizado, invisível, mítico, místico...
Demônios são inimigos perfeitos: não exigem revisão de doutrina, não colocam líderes em posição de autocrítica e não ameaçam estruturas de poder. Pelo contrário!! Performar estar combatendo forças espirituais imaginárias mobiliza fiéis, gera emoção religiosa e mantém intacta a ordem estabelecida.
Bastante confortável né?
E nós que nos lasquemos.
Discutir o machismo estrutural dentro das igrejas é um desafio que sinceramente, eu não vejo que o corpo de líderes tenha nem maturidade moral pra encarar. Isso mexeria com seus privilégios, desafiaria interpretações tradicionais dos textos bíblicos e obrigaria comunidades inteiras a encarar verdades desconfortáveis sobre como tratam suas próprias mulheres. Digo isso com o respaldo de mais de vinte anos vividos nesse meio.
Eles não tão nem aí pra isso.
Se algo for desmantelado nessa lógica perversa, acabou a religião. Essa é a verdade.
Por isso, o silêncio esmaga e sufoca.
As mulheres crentes continuam sendo ensinadas que seu papel é suportar, orar, perdoar e preservar o casamento a qualquer custo. A responsabilidade pela harmonia familiar frequentemente recai sobre elas — mesmo quando a violência parte de quem deveria protegê-las.
A lógica sacrificial da mulher no meio cristão é o que o mantém em pé.
Eu só enxergo perversidade nisso.
Comunidades que falam diariamente sobre amor, família e valores morais raramente colocam no centro de suas preocupações a segurança e a dignidade das mulheres que fazem parte delas.
Dentro de espaços que afirmam defender compaixão e justiça, mulheres ainda são aconselhadas a suportar dor em nome da fé.
Eu só enxergo crime nisso.
Se existe algo que realmente deveria escandalizar lideranças religiosas, não são fantasias demonológicas nem guerras espirituais imaginárias.
E sim o sofrimento real de mulheres que, muitas vezes, continuam apanhando dentro de casas onde não falta bíblia tampouco oração.
Entendem pra que serve essa psicose por demônio?
Entendem porque o diabo nunca pode ser exorcizado do cristianismo?
Pois é. É útil demais.
É mais útil até que Deus.
---
Gi Stadnicki
FONTE:







