Copa se cabeça para baixo

Copa se cabeça para baixo

 

 

 

A COPA DE UM MUNDO DE CABEÇA PARA BAIXO

 

Assistimos ontem o sofrível desemprenho da seleção brasileira. Surpresa nenhuma. E não é culpa do Ancelotti. Há muito tempo a verde-amarela deixou de representar o Brasil. Agora o que interessa é o faturamento. O técnico italiano, assim como os que vieram antes dele, não convocam e nem escalam os jogadores que gostaria de chamar e colocar em campo. O caso Neymar é exemplar. Sem condições físicas, psíquicas e sociais de jogar, foi imposto pelos patrocinadores. Sua reação após o anúncio da convocação é exemplar: ao invés de agradecer a convocação e falar para os brasileiros e brasileiras, postou em suas redes sociais propaganda das bets que o patrocinam. Ele joga para as casas de apostas e não para a bandeira que o alberga.

No mundo do futebol brasileiro, Neymar é apresentado como o exemplo a ser seguido. É o que se propagandeia dia e noite nos jornais, rádios, televisão e mídias sociais que, não por coincidência, são patrocinados pelas mesmas casas de aposta que ganham milhões com as imagens dos jogadores que sonham um dia serem recompensados como o adulto disfuncional, chamado por alguns hipocritamente de “menino Nei”.

Nesse contexto, não há muito o que esperar da seleção brasileira em termos de resultado. Será uma grande zebra – para usar uma expressão bem antiga! – se chegar às finais e, maior ainda, quase um camelo passando pelo buraco de uma agulha, se conseguir trazer o propalado hexa.

Do outro lado no jogo de ontem, a seleção do Marrocos. Uma equipe com grandes destaques individuais, um esquema de jogo claro, disciplina tática e vontade de ganhar. E a grande maioria, vinte deles, com uma característica em comum: filhos de migrantes, nasceram na Europa e optaram por jogar pelo país de suas origens culturais. Jogar pelo Marrocos, para eles, foi uma opção. Poderiam, facilmente, ter um lugar nas seleções dos países onde nasceram.

Achraf Hakimi, Brahim Díaz e Yassine Bounou (Bono) jogam em grandes equipes e seriam facilmente convocados para compor as seleções de Espanha e Canadá. E outros tantos componentes da seleção argelina e de outras tantas poderiam fazer o mesmo. Mas optaram por não jogar pelo país onde nasceram e defender as cores dos países de seus pais.

Se olharmos o conjunto das 48 seleções em campo neste mundial, é surpreendente o número de jogadores nesta situação. São aproximadamente 287 os que nasceram em um país e jogam por outro. Um número nunca antes alcançado. Em copas anteriores, a quantidade era irrelevante e os casos isolados causavam estranheza e, em alguns casos, até severamente criticados e caracterizados como merceranismo. Hoje, o fato é aceito e até celebrado como expressão da globalização e do intercâmbio de culturas.

Mas, há um detalhe que surpreende. Dentre os 287 casos, são poucos os que nasceram na América do Sul, África ou Ásia e optaram por jogar na Europa. A grande maioria fez o caminho contrário. Nasceram na Europa e optaram por jogar pelos países de origem de seus pais. E aí talvez haja um indicativo de uma outra forma de globalização. Uma globalização anti-colonial ou, como se costuma dizer, decolonial. O sentimento de volta às origens, de recuperação das raízes, de reconstrução de identidades e de solidariedade que vence a tentação de acomodação às benesses do sistema imperial norte-atlântico.

A arte e os esporte – que também é uma arte – tem a sensibilidade para antecipar movimentos do conjunto da sociedade. Os jogadores de futebol estão construindo outros caminhos de deslocamento pelo mundo. Estão colocando o quadro das seleções mundiais de cabeça para baixo. O que antes estava acima, agora está abaixo e a copa está extravasando e mostrando que outros rios do mundo são possíveis.

FONTE:

Vanildo Luiz Zugno 




ONLINE
9