Crianças sofrem mais violência
Crianças sofrem mais violência em casa; escola tem papel estratégico
Políticas de proteção infantojuventil devem focar famílias, como ações de apoio parental, e não exclusivamente a segurança pública, conclui Atlas da Violência 2026
Escola assume papel estratégico na proteção de crianças e adolescentes
Foto: Marcelo Camargo/Agência Brasil
As residências concentram a maior parte dos casos de violências não-letais contra crianças (sexual, psicológica, física e negligência) em todas as faixas etárias, o que requer alterar políticas exclusivamente focadas na segurança pública para lidar com a crise de proteção infantojuvenil, apontam dados divulgados nesta terça-feira, 26 de maio, pelo Atlas da Violência 2026, uma parceria do Instituto de Pesquisa Econômica Aplicada (Ipea) e do Fórum Brasileiro de Segurança Pública (FBSP).
A ocorrência das violências tem o ambiente doméstico como principal cenário em todas as faixas etárias: 67,3% dos casos na primeira infância (0 a 4 anos); 65,9% entre crianças de 5 a 14 anos e 49% entre adolescentes de 15 a 19 anos. É na adolescência que as vias públicas se tornam mais perigosas para os jovens, somando 26,8% dos casos de violência.
O Atlas da Violência 2026 indica que o enfrentamento do problema exige foco na família, com o fortalecimento de políticas de apoio parental, visitas domiciliares, acompanhamento pela assistência social e integração com a saúde.
“A centralidade da residência nas idades iniciais indica que políticas focadas exclusivamente em segurança pública estrito senso são insuficientes para enfrentar o problema. O foco das ações deve ser a família e na primeira infância. Ao mesmo tempo, o aumento da violência extrafamiliar na adolescência aponta para a necessidade de articulação com políticas de educação, prevenção comunitária e segurança nos territórios”, destaca o estudo.
O documento ressalta ainda que a escola tem papel estratégico na transição, dado que é um dos principais espaços de identificação e notificação de violências contra crianças e adolescentes e representa parcela relativamente pequena como local de ocorrência de violências.
“Isso a posiciona como elo fundamental entre o ambiente doméstico e as redes de proteção. Já na adolescência, torna-se igualmente importante articular a escola com políticas de prevenção da violência entre pares, promoção de relações saudáveis e desenvolvimento de competências socioemocionais, inclusive com atenção às influências digitais”, contextualiza o estudo.
Violência sexual
A violência sexual é 45,5% das notificações de agressão contra meninas de 10 a 14 anos no país. A faixa de maior vulnerabilidade para a violência sexual é de crianças e adolescentes entre 5 e 10 anos. Entre 2023 e 2024, o número saltou de 26.125 para 29.135 casos de registros no sistema de saúde.
O Atlas revela a disparidade entre os sexos. Ainda que também atinja meninos, 86,9% das vítimas de violência sexual são meninas; eles, 13,1%. Elas também são as principais vítimas de violência psicológica (62,9%) e 52,4% das vítimas de violência física. Já eles são mais negligenciados, sendo 53,3% das vítimas.
“A centralidade das meninas como principais vítimas de violência sexual reforça a interpretação de que esse tipo de violência está diretamente associado a assimetrias de poder, controle do corpo feminino e normas de gênero”, contextualiza o documento.
Primeira infância
Também subiram as notificações de violência sexual na primeira infância, que corresponde à faixa etária de 0 a 4 anos. O número passou de 7.315 casos, em 2023, para 7.845 em 2024. Considerando o ano de 2014, os registros de violência sexual na primeira infância apresentam crescimento superior a quatro vezes: de 1.671 notificações para 7.845 em 2024.
“Embora os números entre crianças de 0 a 4 anos sejam menores em termos absolutos, o crescimento proporcional é bastante elevado, indicando uma exposição precoce extremamente grave”, diz o estudo.
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