Culpar os pobres

O CONFORTO DE CULPAR OS POBRES
A pesquisa do Datafolha divulgada na última sexta-feira, 3, escancara um retrato preocupante do Brasil. Não é a pobreza que mais assusta. É a disposição crescente de culpar os pobres por ela.
Em apenas quatro anos, a parcela dos brasileiros que acredita que a pobreza existe porque "as pessoas são preguiçosas e não querem trabalhar" saltou de 22% para 40%, o maior índice da série histórica.
Enquanto isso, os que atribuem a pobreza à falta de oportunidades caíram de 76% para 58%.
Essa mudança não revela apenas uma opinião. Revela um país cada vez mais disposto a transformar desigualdade em defeito moral.
É mais fácil chamar o pobre de preguiçoso do que encarar um sistema que concentra renda, distribui privilégios e oferece pontos de partida completamente diferentes para ricos e pobres.
A meritocracia funciona como um mantra conveniente. A ideia de que basta esforço para vencer ignora a realidade de milhões de brasileiros.
Como competir em igualdade quando uma criança frequenta escola particular bilíngue, faz cursos de idiomas e tem acesso à tecnologia, enquanto outra estuda em escolas públicas abandonadas, enfrenta transporte precário e, muitas vezes, vai para a aula com fome?
Não existe corrida justa quando alguns largam dezenas de metros à frente.
Isso não significa negar o valor do esforço individual. Trabalhar, estudar e persistir fazem diferença. Mas esforço não elimina barreiras estruturais.
O desemprego, a informalidade, os baixos salários e a falta de qualificação não são fruto da preguiça coletiva. São consequências de um modelo econômico incapaz de garantir oportunidades para todos.
É sintomático que até pessoas de baixa renda reproduzam esse discurso. Trata-se da vitória de uma narrativa que transforma vítimas em culpados.
Durante anos, parte da sociedade foi bombardeada por mensagens de que quem fracassa é porque não se esforçou o suficiente.
É a lógica dos coaches, do empreendedorismo milagroso e da falsa promessa de que qualquer um pode enriquecer se acordar mais cedo ou "pensar positivo". A realidade insiste em desmentir essa fantasia.
O resultado é uma espécie de ignorância coletiva. Não pela falta de inteligência, mas pela incapacidade de enxergar os mecanismos que produzem a desigualdade.
Quando a pobreza deixa de ser entendida como problema social e passa a ser tratada como falha de caráter, desaparece também a solidariedade. Em seu lugar surgem o preconceito e a indiferença.
Os 40% que responsabilizam os pobres pela própria pobreza não estão apenas emitindo uma opinião. Estão legitimando uma visão de mundo que absolve privilégios, naturaliza desigualdades e enfraquece políticas públicas capazes de ampliar oportunidades.
Num dos países mais desiguais do planeta, culpar os pobres por serem pobres talvez seja a maior demonstração de cegueira social. E também uma das mais cruéis e desumanas.
Foto: Reprodução/Redes Sociais
René Ruschel
FONTE:
https://www.facebook.com/rene.ruschel.79?locale=pt_BR

A CONTA SEMPRE SOBRA PARA O POVO
As investigações sobre o Banco Master apontam que o prejuízo pode chegar a R$ 50 bilhões.
Ao mesmo tempo, novas operações da Polícia Federal estimam que as fraudes contábeis nas Lojas Americanas giram em torno de R$ 54 bilhões.
Juntos, os dois casos – apenas dois - somam R$ 104 bilhões. É dinheiro suficiente para mostrar onde estão alguns dos maiores rombos da economia brasileira.
Esse valor supera o orçamento anual da maioria dos ministérios do governo federal. Apenas Saúde, com cerca de R$ 245 bilhões, e Educação, com aproximadamente R$ 130 bilhões, têm recursos maiores.
Transportes, Cidades, Agricultura, Ciência e Tecnologia, Meio Ambiente, Justiça, Defesa e Relações Exteriores trabalham com orçamentos inferiores aos valores envolvidos nesses dois escândalos.
A comparação fica ainda mais impressionante quando entra em cena o Bolsa Família.
O principal programa de transferência de renda do país atende cerca de 19 milhões de famílias, alcançando aproximadamente 50 milhões de brasileiros. Seu orçamento anual gira em torno de R$ 150 bilhões.
Em outras palavras, duas supostas fraudes no setor privado equivalem a uma parcela significativa de todo o investimento destinado ao combate à pobreza.
Com R$ 104 bilhões seria possível ampliar programas de habitação popular, investir em saneamento básico, expandir universidades federais, fortalecer o SUS e reforçar políticas de proteção social em todo o país.
Mas o debate público costuma seguir outro caminho.
Quando o assunto é investimento social, logo aparecem discursos sobre "gastos excessivos", "Estado inchado" e necessidade de cortes.
Já quando bilhões desaparecem no topo do sistema financeiro e empresarial, o tratamento costuma ser outro. São "casos isolados", "falhas de gestão" ou "problemas de mercado".
A conta sempre acaba recaindo sobre toda a sociedade. O contraste expõe uma contradição.
Questiona-se o dinheiro destinado aos mais pobres, enquanto perdas bilionárias envolvendo grandes grupos econômicos raramente provocam a mesma indignação.
No Brasil dos privilégios, a elite se farta no banquete das fraudes e o povão, além de comer as migalhas, ainda é obrigado a pagar a conta.
René Ruschel
https://www.facebook.com/rene.ruschel.79?locale=pt_BR






