Debate sobre violência contra professores
Esfaqueamento em Caxias reacende debate sobre violência contra professores
Ataques a professores não são casos isolados. Dirigente sindical e pesquisador em educação apontam cultura de ódio das redes sociais como um dos motores
Por Marcelo Menna Barreto / Publicado em 2 de abril de 2025

Ato de campanha salarial organizado pelo Sindicato dos Servidores da Prefeitura de Caxias do Sul (Sindiserv) se transmutou em uma grande ação de solidariedade à professora de inglês da Escola Municipal João de Zorzi, vítima de violência em plena sala de aula, ao ser esfaqueada na terça-feira, 1º, no município da serra gaúcha por três estudantes adolescentes. A presidente do Sindiserv, Silvana Piroli, destacou que o foco principal acabou sendo um apelo a não violência nas escolas. Segundo ela, o “fato de ontem não é um fato isolado”.
A dirigente relata hostilidades em vários setores do serviço público. Para Silvana, também professora, em especial na educação há fortes ações para a desmoralização do trabalho dos professores.
“Há muitas fake news do tipo, ah, ideologia de gênero, ah, a escola civil militar é a melhor”, desabafa. Segundo a dirigente, parcela da sociedade radicalizada desrespeita o trabalho pedagógico e contamina todo um ambiente que deve ser de aprendizado.
“Não dá para só valorizar os professores na época de campanha ou no Dia do Professor. Nós precisamos reconhecer que esse é um trabalho importante e que a educação precisa partir das pessoas que se relacionam com as crianças e com esse estudante. A escola é o saber, é a convivência, é a cidadania, mas a família precisa também fazer a sua parte, estar juntos, participar da comunidade cidadã”, entende.
Esfaquear professora é atacar a escola como instituição

Hugo Monteiro Ferreira, pós-doutor em Estudos da Criança.
Fotos: Andréa Avelar Duarte/Divulgação
Hugo Monteiro Ferreira é autor do best seller A Geração do Quarto (Editora Record), doutor em educação, pós-doutor em estudos da criança e líder do Grupo de Estudos da Transdisciplinaridade, da Infância e da Juventude (Getij).
Pesquisador na área de saúde emocional e mental de crianças, adolescentes e jovens, Ferreira diz que, apesar de estudos apontar aumento nos tipos de violência que ocorrem dentro da escola, não significa que seja a escola a causadora da violência.
Nos dias atuais, segundo ele, elementos como redes sociais digitais, discursos de ódio frequentes produzidos por pessoas populares “como, por exemplo, políticos”; dificuldades nas relações familiares, situações psicopatológicos, muitos adolescentes apresentam comportamentos violentos, sejam autodestrutivos ou heterodestrutivos.
“Esfaquear uma professora numa escola, em um grau de menor alcance, é uma forma de atacar a escola, este espaço que representa a sociedade como um todo. Atacar a professora é atacar uma representante social a qual traduz elementos sociais talvez estressores para esses adolescentes”, analisa o pesquisador.
Em síntese, Monteiro Ferreira declara “o ataque não é nem alheio e nem aleatório ao contexto desses jovens. Antes de uma condenação, ele entende que os adolescentes agressores precisam ser ouvidos atentamente. “Isto para que possamos entender as razões do ataque a docente. De toda maneira, é possível dizer que esses jovens atacantes são potencialmente vulneráveis e precisam de cuidado no sentido saber como eles pensam e sentem a vida”, conclui o especialista.
Entenda o ocorrido
Segundo a Brigada Militar, três estudante (dois meninos e uma menina) de 13, 14 e 15 anos, teriam quebrado câmeras de vigilância e, em seguida, agredido a professora com golpes de faca.
Conforme o vice-diretor da escola, Gabriel Boff, estudantes da turma deixaram a sala assustados e gritando e relataram que a professora foi atacada
Neste momento, ele abriu um dos portões. Os alunos saíram e buscaram ajuda em uma unidade de saúde próxima à escola
A técnica em enfermagem Raquel Pereira, que trabalha na Unidade Básica de Saúde (UBS) Fátima Baixo, fez o primeiro atendimento à docente que estava consciente, mas sangrando muito.
A professora foi levada por uma unidade da Samu para um hospital. A vítima ficou estável, não corre risco de morte e teve alta nesta quarta-feira, 2.
O que está sendo feito para conter violência
O combate à violência nas escolas tem mobilizado ações norteadoras do governo federal e do Legislativo.
O Sistema Nacional de Acompanhamento e Combate à Violência nas Escolas (Snave), instituído por decreto do presidente Luiz Inácio Lula da Silva (PT) tem promovido estudos e mapeamentos sobre ocorrências, sistematizado medidas de gestão, apoiado escolas com altos índices de violência e oferecido suporte psicossocial à comunidade escolar.
Além disso, o governo destinou R$ 150 milhões para reforçar rondas escolares e monitorar ameaças online. Paralelamente, o Senado analisa o Projeto de Lei nº 3.345/2024, que propõe treinamentos regulares para prevenir e responder a ataques violentos, capacitando professores, funcionários e estudantes por meio de cursos e simulações práticas. A proposta, alinhada ao Snave, busca fortalecer a segurança escolar e já recebeu parecer favorável na Comissão de Segurança Pública, aguardando análise na Comissão de Educação e Cultura.
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