Democracia

Democracia

DEMOCRACIA — O PANO DE FUNDO PARA A ESCRAVATURA ECONÓMICA

 

Chamaram-lhe democracia. Ergueram-na como o mais sublime monumento da civilização, adornaram-na com discursos inflamados, revestiram-na de bandeiras, hinos e promessas, ensinaram as crianças a venerá-la como se fosse o derradeiro triunfo da inteligência humana. Porém, enquanto os cidadãos contemplavam a fachada iluminada do edifício, poucos ousaram descer às fundações, onde o cimento era preparado com a argamassa invisível da dependência económica.

Não existe homem verdadeiramente livre quando o salário mal sobrevive ao calendário; quando a habitação consome a esperança antes de consumir o rendimento; quando a educação se transforma num luxo e a saúde numa inquietação permanente. A liberdade política, desacompanhada da dignidade material, moral e ética converte-se numa palavra elegante pronunciada por quem nunca conheceu o peso da privação.

A democracia aprendeu, com espantosa habilidade, a substituir as antigas correntes de ferro por contratos a prazo, prestações, créditos e dívidas. O chicote desapareceu dos olhos, mas permaneceu escondido nas estatísticas, nos juros compostos, na inflação silenciosa, na precariedade apresentada como modernidade e na instabilidade baptizada de flexibilidade laboral. O escravo contemporâneo já não transporta grilhões nos pulsos; transporta-os na conta bancária, nas obrigações fiscais, nos empréstimos que hipotecam décadas inteiras de existência e na angústia permanente de perder aquilo que nunca chegou verdadeiramente a possuir (casa, carro, terras...).

Nunca houve tantos direitos proclamados e, simultaneamente, tantos homens incapazes de exercer plenamente a sua liberdade. A cidadania reduz-se, demasiadas vezes, ao breve instante em que um boletim de voto cai dentro de uma urna, para depois regressar ao longo silêncio de quatro anos, onde decisões fundamentais são tomadas em gabinetes distantes, frequentemente mais atentos às flutuações dos mercados do que às oscilações da dignidade humana.

A sociedade celebra o crescimento económico como quem festeja uma colheita abundante, esquecendo-se de perguntar quem leva o pão para casa e quem apenas recolhe as migalhas deixadas sobre a mesa. O Produto Interno Bruto sobe, os índices financeiros sorriem, as bolsas aplaudem, mas o trabalhador continua a acordar antes do nascer do sol e a regressar depois do anoitecer, cada vez mais cansado e cada vez mais pobre em tempo, que é, afinal, a única riqueza que jamais poderá recuperar.

Criou-se uma estranha religião onde o consumo substituiu a contemplação, o crédito tomou o lugar da poupança, a aparência venceu a substância e o sucesso passou a medir-se pela dimensão da vitrina do telemóvel, da marca do carro, das roupas em vez da profundidade do carácter. O indivíduo trabalha para comprar aquilo de que não necessita, impressionar pessoas que desconhece e alimentar um sistema que o convencerá, amanhã, de que ainda lhe falta qualquer coisa para ser feliz. É nesta engrenagem subtil que a escravatura económica revela toda a sua sofisticação. Já não exige violência explícita; basta cultivar necessidades artificiais, alimentar medos permanentes e transformar a insegurança num estado psicológico constante. Um povo preocupado em sobreviver dificilmente encontrará serenidade para questionar quem governa ou para exigir uma sociedade verdadeiramente justa.

As democracias modernas correm, assim, o risco de se converterem em magníficos palcos onde a liberdade representa diariamente o papel principal, enquanto, nos bastidores, a desigualdade escreve o verdadeiro argumento. Conservam-se as eleições, respeitam-se os protocolos institucionais, multiplicam-se os debates televisivos, os comentadores de idiologias estrategicamente posicionados, mas a distribuição da riqueza continua a obedecer a uma lógica que concentra o poder económico em cada vez menos mãos, deixando multidões inteiras a disputar as sobras de um progresso que ajudaram a construir.

O maior triunfo desta nova servidão reside precisamente na sua invisibilidade. O escravo antigo conhecia o rosto do seu senhor; o moderno acredita ser absolutamente livre, sem perceber que as suas escolhas foram previamente condicionadas pelo medo, pela necessidade e pela permanente corrida contra um futuro que nunca chega a oferecer descanso.

Uma democracia digna desse nome não pode limitar-se a garantir o direito de votar; deve assegurar o direito de viver com dignidade, de trabalhar sem humilhação, de educar os filhos sem desespero, de envelhecer sem abandono e de sonhar sem que cada sonho seja imediatamente convertido numa prestação bancária.

A verdadeira liberdade não consiste apenas em escolher, verdadeiramente quem governa. Consiste, sobretudo, em não sermos obrigados a vender a própria consciência para garantir o pão de cada dia.

Enquanto existir um sistema onde a riqueza de poucos depender da inquietação permanente de muitos, onde o lucro se sobreponha ao valor da pessoa humana e onde a economia dite aquilo que a ética deveria impedir, a democracia permanecerá incompleta: uma admirável pintura pendurada na parede da História, escondendo, atrás da moldura dourada, as fissuras profundas de uma civilização que confundiu prosperidade com humanidade.

Talvez o julgamento mais severo que as futuras gerações farão do nosso tempo não seja por termos proclamado demasiadas liberdades, mas por termos permitido que tantas delas fossem silenciosamente compradas, hipotecadas e vendidas ao preço de um salário insuficiente — nisso as máquinas partidárias são exímias. Uma sociedade deixa de ser verdadeiramente democrática no exacto momento em que a liberdade passa a ser um privilégio económico, e não um património moral de todos os cidadãos.

António Manuel Palhinha

FONTE:

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AS NOVAS DEMOCRACIAS

Certas épocas da História não morrem; apenas mudam de vestuário. Tiram a casaca severa dos séculos, abandonam os cetros, os elmos e as coroas, e regressam depois, mais discretas, mais polidas e mais hábeis, com um sorriso civilizado nos lábios e um discurso de liberdade cuidadosamente perfumado. A tirania, essa velha actriz de mil rostos, aprendeu com os séculos a arte subtil da metamorfose.

As novas democracias, por exemplo, erguem-se com uma solenidade quase religiosa. Falam do povo com a devoção com que os sacerdotes falavam dos santos. Invocam a liberdade, a igualdade e a justiça com uma insistência tão fervorosa que até as palavras parecem cansadas, gastas pelo excesso de uso e pela escassez de sinceridade. E as multidões, sedentas de esperança, escutam-nas com a mesma credulidade com que uma criança contempla as estrelas, julgando que a luz que vê ainda pertence ao presente, ignorando que muitas vezes contempla apenas um brilho morto que continua a viajar no escuro do universo.

Mas há uma singularidade inquietante nestes novos templos da virtude pública: o homem íntegro tornou-se um estranho.

Antigamente sacrificavam-se os homens honestos em praças públicas. Erguiam-se cadafalsos, acendiam-se fogueiras e convocavam-se multidões para assistir ao espectáculo da condenação.

Hoje, as formas são outras, mais delicadas e menos sanguinárias. A civilização refinou a crueldade. Já não se queimam corpos; queimam-se reputações. Já não se quebram ossos; quebram-se consciências. Já não se executam homens; executa-se a sua dignidade.

E tudo isto se faz com uma extraordinária serenidade moral.

Um homem íntegro — essa criatura quase arqueológica, um quase dinossauro essa espécie em vias de extinção — ousa levantar-se no meio da assembleia dos satisfeitos e dizer uma verdade inconveniente. Não uma dessas verdades ornamentais que servem para discursos ou cerimónias; não uma verdade domesticada e educada para agradar aos ouvidos delicados. Não. Uma verdade áspera, nua e inclemente; uma verdade que traz consigo a desagradável virtude de revelar aquilo que todos conheciam, mas que todos haviam decidido ignorar.

E eis que imediatamente se movimenta a grande maquinaria do escândalo.

Não se responde à ideia; ataca-se o homem. Não se combate o argumento; combate-se a existência daquele que ousou pronunciá-lo. Subitamente, o indivíduo íntegro passa a ser perigoso. A sua honestidade transforma-se em arrogância; a sua lucidez em extremismo; a sua coragem em perturbação social.

Porque as sociedades modernas, apesar das suas tecnologias, dos seus progressos e das suas luminosas proclamações humanistas, conservam ainda um velho instinto tribal: o medo daquele que diz aquilo que os outros apenas têm coragem de pensar em silêncio.

A multidão possui uma estranha relação com a verdade. Admira-a à distância, elogia-a nos livros, grava-a em monumentos e cita-a em ocasiões solenes; mas quando ela entra pela porta da realidade, quando se senta à mesa e começa a soletrar as hipocrisias familiares e profissionais, torna-se imediatamente uma presença incómoda.

É então que se inicia o linchamento.

Não o linchamento brutal das pedras e das cordas, mas outro, talvez mais cruel pela sua aparência civilizada. O homem é cercado por olhares indignados, por moralistas improvisados, por juízes cuja autoridade nasceu apenas do ruído e da repetição. E todos participam com uma espécie de entusiasmo purificador, como se estivessem a cumprir um dever nobre.

Há qualquer coisa de profundamente macabro nesta necessidade humana de destruir quem perturba o conforto colectivo.

De facto a verdade possui um defeito irreparável: não consola. A verdade não acaricia as vaidades; não adormece consciências; não distribui absolvições gratuitas. Vem apenas iluminar os lugares escuros onde a alma humana esconde aquilo que não deseja ver. Talvez seja por isso que os homens preferem tantas vezes a mentira elegante à verdade austera.

As novas democracias orgulham-se de conceder voz a todos. Porém, frequentemente, concedem-na apenas enquanto essa voz repetir o coro geral. A liberdade transforma-se, então, numa curiosa cerimónia onde todos são convidados a falar, desde que digam exactamente a mesma coisa.

E assim caminhamos: entre aplausos, discursos e proclamações magníficas, acreditando que avançamos inexoravelmente para uma era superior, enquanto repetimos, com novas máscaras e novas linguagens, os velhos pecados do espírito humano.

O maior perigo de uma sociedade não é a ausência de liberdade. É a ilusão de possuí-la plenamente.

Quando um homem íntegro é "linchado" por dizer verdades incómodas, não é apenas esse homem que sofre condenação.

É a própria consciência colectiva que sobe ao cadafalso.

— António Manuel Palhinha

FONTE:

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