Dependência e morte

Dependência e morte

Dependência e morte

Frei Betto  06/09/2022

 

Qual o tamanho do Brasil no mundo? · Instituto Escolhas

 

Com a ex­po­sição de um co­ração atri­buído a D. Pedro I, im­por­tação cara e ne­cró­fila feita pelos atuais ocu­pantes do Pla­nalto, o Brasil co­me­mora 200 anos de in­de­pen­dência de Por­tugal. Dei­xamos Por­tugal para cair nos braços da In­gla­terra, da União Eu­ro­peia e, so­bre­tudo, dos EUA.

As nar­ra­tivas sobre o epi­sódio “às mar­gens do Ipi­ranga” são quase todas eli­tistas. Afonso Taunay (1876-1958), ao en­co­mendar pin­turas para o Museu Pau­lista, fez questão de ex­cluir as lutas po­pu­lares pela In­de­pen­dência e fa­vo­recer uma versão oli­gár­quica e pa­ci­fista.

A par­ti­ci­pação dos in­dí­genas em nossa In­de­pen­dência é ig­no­rada ainda hoje. Na es­tátua de D. Pedro I na Praça Ti­ra­dentes, no Rio, o pe­destal re­trata in­dí­genas e ani­mais de nossas selvas. Ao ser inau­gu­rada, em 1862, o his­to­ri­ador Mello Mo­rais chegou a in­dagar: “Que parte ti­veram esses ín­dios e aqueles ja­carés na In­de­pen­dência do Brasil?”

Quase todas as nar­ra­tivas sobre nossos povos ori­gi­ná­rios an­te­rior a 1980 soam como “crô­nicas de morte anun­ciada”, como se es­ti­vessem con­de­nados ao ex­ter­mínio ou a serem as­si­mi­lados pela po­pu­lação em geral. Só em 1988 a Cons­ti­tuição as­se­gurou a eles di­reito à terra e às suas tra­di­ções e cul­turas. Pela pri­meira vez, o Es­tado bra­si­leiro se re­co­nheceu mul­tiét­nico.

Criou-se o mito de que a In­de­pen­dência as­se­gurou a uni­dade ter­ri­to­rial do Brasil. Ora, D. Pedro I se in­te­res­sava apenas por Rio de Ja­neiro, São Paulo e Minas. Não dava ou­vidos às ou­tras pro­vín­cias. Por isso, teve que en­frentar vá­rias re­voltas re­gi­o­nais contra o go­verno im­pe­rial, como Far­rou­pilha (1835-1845), no Rio Grande do Sul; Ca­ba­nagem (1835-1840), no Pará; e a Sa­bi­nada (1837-1838), na Bahia. Ma­ra­nhão e Pará eram pro­vín­cias apar­tadas do Brasil até 1820. O Acre per­tencia ao Peru e à Bo­lívia, e só foi ane­xado ao Brasil em 1903.

D. Pedro I chegou a con­tratar o lorde in­glês Thomas Co­ch­rane (1775-1860) para re­primir re­be­liões po­pu­lares. No Pará, o cô­nego Ba­tista Campos (1782-1834), que se opunha ao tra­balho es­cravo, so­freu tor­tura em praça pú­blica, en­quanto 256 ali­ados dele eram as­fi­xi­ados no porão de um navio. É con­si­de­rado o autor in­te­lec­tual da Ca­ba­nagem, que teve im­por­tante par­ti­ci­pação in­dí­gena. Na versão da elite, “ca­bano” sig­ni­fica aquele que vivia em ca­banas à beira dos rios. Na versão dos ri­bei­ri­nhos, o termo é as­so­ciado aos brancos re­pres­sores que se van­glo­ri­avam da sanha re­pres­sora: “Aca­bamos com tudo”.

Se D. Pedro I tinha pouco in­te­resse pelo resto do Brasil, por que o nosso país, então in­te­grado por 18 pro­vín­cias, não se frag­mentou, como ocorreu em tantas re­giões da Amé­rica La­tina? Entre vá­rias hi­pó­teses fico com a mais ver­go­nhosa: a uni­dade ter­ri­to­rial se man­teve por força do pro­jeto es­cra­va­gista vol­tado à ex­plo­ração mi­neral. O re­gime es­cra­vo­crata uniu as elites pro­vin­ci­anas e ali­cerçou a for­mação do Es­tado bra­si­leiro.

Outro fator que in­fluiu em nossa co­esão ter­ri­to­rial foi a vinda da Corte por­tu­guesa para o Brasil em 1808. A frase atri­buída ao go­ver­nador de Minas, Antônio Carlos de An­drada, em 1930 – “fa­çamos a re­vo­lução antes que o povo a faça” -, po­deria ter sido dita no pe­ríodo co­lo­nial. D. Pedro I, filho de D. João VI, pro­clamou a In­de­pen­dência antes que as re­be­liões po­pu­lares, como a Con­ju­ração Mi­neira, lo­grassem de­volver a Corte a Por­tugal.

Não eram só as re­voltas po­pu­lares, pi­po­cando Brasil afora e agra­vadas pelos qui­lombos, ha­bi­tados por es­cravos li­bertos, que ti­ravam o sono do im­pe­rador. Ele sabia que os nossos vi­zi­nhos na Amé­rica do Sul se in­de­pen­den­ti­zavam da Coroa es­pa­nhola: Bo­lívar co­mandou as in­de­pen­dên­cias de Colômbia (1810); Ve­ne­zuela (1811); Equador (maio de 1822); e, em 1825, Bo­lívia. San Martin li­derou as da Ar­gen­tina (1816) e Peru (1821), e deu apoio à li­ber­tação do Chile (1818).

“Fa­çamos a In­de­pen­dência antes que o povo a faça”. Aqui ela foi con­su­mada “por cima”, a ponto de adotar uma ban­deira que não traz o azul dos nossos céus, como aprendi na es­cola, e sim a cor sím­bolo da no­breza (“sangue azul”); o ama­relo do ouro; e o verde que não re­trata as nossas matas, e sim a cor da Casa Real de Bra­gança. Já a ico­no­grafia das ban­deiras dos países his­pâ­nicos alude a mo­vi­mentos de li­ber­tação e pro­cessos re­vo­lu­ci­o­ná­rios.

O senso de bra­si­li­dade é tardio. Até final do sé­culo 18 os ha­bi­tantes daqui se con­si­de­ravam “por­tu­gueses da Amé­rica” e muitos rei­vin­di­cavam igual­dade de di­reitos com os por­tu­gueses de Por­tugal. Isso in­co­mo­dava a elite de Lisboa, que se ar­vo­rava em centro do Im­pério. D. Pedro então foi pres­si­o­nado a es­ta­be­lecer uma As­sem­bleia Le­gis­la­tiva no Brasil que ado­tasse leis pró­prias. Só então se po­pu­la­rizou a ideia de ser bra­si­leiro.

Con­cordo com Caio Prado Ju­nior e Flo­restan Fer­nandes: ao lo­grar a eman­ci­pação po­lí­tica do Brasil, a In­de­pen­dência criou um Es­tado capaz de pre­servar as es­tru­turas econô­micas e so­ciais do pe­ríodo co­lo­nial.

Ainda resta muito a con­quistar. E as elei­ções estão à porta. Vo­temos pela in­de­pen­dência do povo bra­si­leiro!

 

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