Desconstruir mais um Mito

Desconstruir mais um Mito

 

 

Bora desconstruir mais um mitinho hoje?

Então, a imagem de Tiradentes como “herói da liberdade” diz mais sobre o projeto político da República do que sobre o homem real. O que existiu foi um sujeito inserido até o pescoço na lógica colonial: branco, de posição intermediária, circulando entre pequenos negócios, serviço militar e relações típicas de uma sociedade estruturada pela escravidão. Ele não foi um revolucionário popular, nem um abolicionista, nem um pensador radical. Foi parte de um movimento regional, a Inconfidência Mineira, que expressava o incômodo de setores da elite de Minas Gerais com a cobrança de impostos pela Coroa Portuguesa, especialmente a derrama...

Ou seja, sem romantização: não era um levante contra a opressão social em si, mas contra quem estava cobrando a conta.

A Inconfidência nunca foi um projeto de libertação coletiva. Não havia ali compromisso com o povão nem com o fim da escravidão, tampouco qualquer intenção de reorganizar a sociedade em bases igualitárias. A independência que se imaginava era restrita, regional e profundamente conservadora do ponto de vista social.

A engrenagem que sustentava a economia ~o trabalho escravizado~ não estava em questão.

E isso é o centro da coisa. Num território onde a riqueza dependia diretamente da exploração brutal de pessoas negras, qualquer movimento que não enfrentasse isso estava, na prática, defendendo a continuidade da barbárie, não é?

Lógico!

Lembrando que, historicamente, Tiradentes não aparece nas fontes como um grande senhor de escravizados e isso importa pra não cair o nível aqui da crítica, mas também não há qualquer evidência de que ele tenha rompido com esse sistema.

Ele viveu dentro dele, se beneficiou das hierarquias raciais e sociais e não deixou registro de oposição à escravidão. Ou seja, está longe de qualquer figura ética que mereça toda essa veneração.

Tiradentes é o retrato típico de alguém que deseja mudanças políticas sem mexer na estrutura de exploração que o favorece...

E isso, convenhamos, continua sendo um padrão recorrente na história brasileira.

Observem, é muito bom entender o passado pra conseguir destrinchar o presente.

A transformação desse homem em mártir nacional é uma operação ideológica muito clara. Após 1889, quando a República foi proclamada sem participação popular, o novo regime precisava de um símbolo que desse aparência de legitimidade histórica. Daí Tiradentes serviu perfeitamente: já morto, facilmente moldável e sem um legado político que ameaçasse a ordem vigente. Sua imagem foi fabricada, mesmo, literalmente. Sem retratos reais, passou a ser representado com barba e cabelos longos, numa estética que remete a Jesus Cristo...

E não foi coincidência: num país moldado pelo cristianismo rasteiro, associar o “mártir da República” a uma figura messiânica era uma forma eficiente de criar identificação emocional e apagar as contradições históricas...

Feio né? Bom, eu acho.

Enquanto isso, figuras que enfrentaram diretamente a escravidão e a estrutura colonial foram sistematicamente apagadas ou marginalizadas. Zumbi dos Palmares organizou uma resistência concreta contra o sistema escravista. Luís Gama atuou juridicamente para libertar centenas de pessoas escravizadas. Luísa Mahin participou de articulações de revoltas negras.

André Rebouças, engenheiro de renome, articulou o movimento abolicionista, defendendo a abolição com reforma agrária (distribuição de terras aos ex-escravizados).

José do Patrocínio, jornalista e escritor conhecido como o "Tigre da Abolição", destacou-se pela oratória e campanhas na imprensa.

Maria Firmina dos Reis, primeira romancista brasileira, escreveu Úrsula (1859), obra pioneira com visão humanista sobre a escravidão.

Francisco José do Nascimento, (Chico da Matilde) o Dragão do Mar - Líder jangadeiro no Ceará que organizou a "Greve dos Jangadeiros", paralisando o tráfico de escravizados no porto de Fortaleza.

Adelina Charuteira, figura da resistência no Maranhão, usava sua liberdade de trânsito como charuteira para auxiliar na fuga e libertação de escravizados...

Esses nomes, sim, representam ruptura real com a lógica de exploração e, justamente por isso, foram por muito tempo tratados como periféricos na narrativa oficial.

Muita gente até hoje sabe nada ou muito pouco, sobre vários deles.

Mas sobre o tal Tiradentes todo mundo tem alguma noção!

Então a pergunta não é só: “Tiradentes foi herói da liberdade e justiça?”

Aqui a pergunta correta é: herói pra quem e pra qual projeto de país?

Exaltá-lo como símbolo máximo da liberdade é, no mínimo, uma distorção conveniente a algum projeto de poder. E que se perpetua até hoje né?

Ele não lutou pelo fim da escravidão, não mobilizou o povo e não propôs transformação social profunda. Foi apropriado como ícone porque cabia perfeitamente num projeto de nação que queria parecer moderna e republicana sem tocar nas bases da desigualdade.

Tem tanto disso ainda hoje...Nos projetos de poder de hoje...

É ou não é?

E como tem!

Desmontar esse mito não significa substituir um culto por outro ou inventar um vilão absoluto. Significa é reconhecer que a história brasileira foi construída por disputas de poder onde, muitas vezes, a liberdade proclamada era apenas a liberdade das elites de governarem sem interferência externa, mantendo intacta a exploração interna.

Tiradentes é no máximo, um símbolo de uma ruptura limitada, apropriada e transformada em propaganda. E tratar propaganda como história é exatamente o tipo de operação que mantém as estruturas de poder confortavelmente intactas.

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Gi Stadnicki

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Mais detalhes aqui: Tiradentes: O herói construído entre o ideal republicano e o mito nacional
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FONTE:

https://www.facebook.com/giovanna.stadnicki?locale=pt_BR 




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