Desinformação no YouTube

Desinformação no YouTube

Checadores clamam por ações contra desinformação no YouTube


Na última quarta-feira (12), mais de 80 organizações de checagem de fatos de 46 países publicaram, em conjunto, uma carta aberta direcionada à CEO do YouTube, Susan Wojcicki. O documento aponta que "o YouTube está permitindo que sua plataforma seja transformada em uma arma por infratores inescrupulosos, que a usam para manipular e explorar outros, além de se organizarem para arrecadar fundos" e afirma que as ações tomadas pela plataforma nos últimos anos são insuficientes para conter a desinformação que circula por lá.

Eu participei ativamente das discussões em torno desta carta. Os debates tiveram origem na Europa, mas se espalharam entre a comunidade de checadores à medida que boa parte dela reconheceu enfrentar problemas com o YouTube, não importando o país. Esses problemas se agravaram durante a pandemia de Covid-19 e há muitos exemplos de informações falsas que se espalharam na plataforma de vídeos e tiveram impactos devastadores no mundo real.

A própria carta os traz, como no caso dos "Doutores pela Verdade", um grupo de conspiracionistas que promoveu curas falsas para a Covid-19 em uma rede de conteúdos que começou na Alemanha e se espalhou por toda a América Latina. Muitos dos vídeos ainda estão disponíveis em canais no YouTube ― e um deles, inclusive, ensina como driblar as restrições da plataforma e assistir aos vídeos "censurados."

Identificar desinformação no YouTube não é tarefa fácil. São milhares de horas de vídeo subindo todos os dias na plataforma e não há ferramentas efetivas de monitoramento dos discursos e dos debates compartilhados por lá. Com base nisso, a carta enviada à CEO da plataforma sugere quatro medidas: o compromisso com a transparência (a partir do apoio a estudos e da publicação de suas políticas relacionadas à desinformação), o foco em oferecer mais conteúdo verificado e de contexto, com parcerias estruturadas com os checadores de fatos, a punição a atores reincidentes no compartilhamento de desinformação e um olhar atento para os países que não falam inglês, a fim de construir soluções que atendam às peculiaridades dos diferentes idiomas e de cada país.

Os checadores também reafirmaram sua disponibilidade para o diálogo e para apoiar o YouTube em ações que, de fato, se mostrem efetivas contra a desinformação na plataforma. A resposta da plataforma veio em reportagem de Renata Galf publicada no jornal Folha de S.Paulo também na última quarta-feira: "o YouTube afirmou ter investido em políticas e produtos em todos os países em que opera 'para conectar as pessoas a conteúdo qualificado, reduzir a disseminação de informação limítrofe e remover vídeos que violam as políticas' da plataforma. Segundo a empresa, o site mantém o 'consumo de desinformação limítrofe recomendada significativamente abaixo de 1% de todas as visualizações no YouTube'. 'Estamos sempre procurando maneiras significativas de melhorar e continuaremos a fortalecer nosso trabalho com a comunidade de checagem de fatos.'"

Talvez você não tenha ideia, mas o YouTube contabiliza mais de 1 bilhão de horas de vídeo consumidas todos os dias, além de ser o segundo site mais acessado do mundo, perdendo apenas para o próprio Google, que o controla. Ou seja, se cerca de 1% disso é desinformação, significa que os usuários consomem, diariamente, algo em torno de 10 milhões de horas de conteúdos desinformativos. Se quisermos assumir o "significativamente abaixo" mencionado na nota como a metade disso, ainda serão 5 milhões de horas de "informação limítrofe", a forma que o YouTube usa para descrever conteúdos problemáticos.

O problema do conteúdo limítrofe é velho conhecido do YouTube. Em 2018, uma pesquisa da Pew Research mostrou que 64% dos usuários americanos da plataforma disseram encontrar, às vezes, vídeos com conteúdo problemático, entre eles informações falsas — e aqui, mais um ponto interessante: apenas 12% disseram nunca ter visto esse tipo de conteúdo, enquanto 15% afirmaram vê-lo com frequência.

A experiência de consumo de conteúdo desinformativo é altamente potencializada pelo algoritmo de recomendação do YouTube. Ele "aprende" com o comportamento do usuário e sugere vídeos semelhantes àqueles que prendem mais sua atenção, aumentando o tempo de uso individual da plataforma (os engenheiros do Google escreveram um artigo em 2016, explicando como ele funciona e o papel das redes neurais e do machine learning nesse processo). Em 2019, uma reportagem do The New York Times mostrou que esse modo de operação, que naquele ano gerava mais de 70% do tempo total de uso da plataforma, ajudou a radicalizar o Brasil. Um trecho: "Como o sistema sugere vídeos mais provocativos para manter os usuários assistindo, ele pode direcioná-los para conteúdo extremo que, de outra forma, nunca encontrariam. E foi projetado para levar os usuários a novos tópicos para despertar novos interesses."

Se você preferir, o episódio 9 da primeira temporada da série The Weekly conta essa história e está disponível na GloboPlay. Não por acaso, o nome do episódio é The Rabbit Hole (em português, buraco ou toca de coelho), como ficou conhecido o efeito provocado pelo algoritmo de recomendação nos usuários: a inteligência artificial da plataforma sugere vídeos semelhantes aos que eles já assistiram, mas conforme ela trabalha, essas sugestões trazem conteúdos cada vez mais extremos e, em muitas vezes, mais próximos a conteúdos limítrofes.

É claro que o YouTube não está totalmente alheio a essas discussões. A empresa já tomou algumas ações e sempre promete a expansão delas para a maior quantidade possível de países. Entre elas está a disponibilização de um "painel de checagem", que exibe verificações de organizações de checagem entre os resultados de buscas na plataforma. A ferramenta, no entanto, tem desempenho pífio no Brasil, e a empresa nunca compartilhou informações sobre a efetividade dessa medida.

A carta dos checadores de fatos ao YouTube é mais uma ação da comunidade com o objetivo de tornar o ambiente digital mais saudável. Antes dela, apelos foram direcionados ao Facebook e ao WhatsApp, que, apesar de apresentarem inúmeros problemas, tomaram medidas para conter a desinformação em seus ambientes. Não são medidas totalmente efetivas, mas permitem discussões e construção de soluções conjuntas.

Nossa expectativa é de que o YouTube siga o mesmo caminho.

Um abraço,

Natália Leal
CEO da Lupa

 Agência Lupa <lupa@lupa.news> 




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