Desperdiçar batom

Desperdiçar batom

Não se deve desperdiçar batom

03 abril 2025

 

 

Por SOLON SALDANHA*

Uma mulher de 38 anos de idade, casada e mãe de dois filhos, residente em Paulínia, no interior de São Paulo, viaja de ônibus sem ter pago pela passagem e se dirige até Brasília, distante 896,7 quilômetros. Se ausenta de casa e da família que certamente precisaria dela e, uma vez na capital federal, fica em acampamento na frente do Quartel-General do Exército, aguardando por instruções. Depois de recebê-las, ela se une à turba de anencéfalos doutrinados que de fato acreditava que salvaria o país, caso invadisse e destruísse tudo o que pudesse nos prédios da Praça dos Três Poderes. Então, acaba filmada escrevendo na conhecida como Estátua da Justiça (*) a frase “Perdeu, Mané”, provavelmente dirigida ou a um dos ministros do Supremo Tribunal Federal (STF) ou ao presidente da República recém eleito. E se vangloria disso, fazendo pose e rindo do seu ato “corajoso e revolucionário”.

Identificada, presa e processada, Débora Rodrigues dos Santos está sendo julgada junto com algumas centenas de outros invasores. São vários os crimes cometidos por ela e seu grupo. Em seu caso específico consta associação criminosa armada, deterioração de patrimônio tombado, dano qualificado e outros mais. Entretanto, a extrema-direita está divulgando mensagens enganosas de que “apenas por ter usado seu batom” ela deve pegar 14 anos de prisão. Dois ministros já votaram pela condenação, faltando outros três. A condenação, caso venha a ser confirmada, é pelo conjunto da obra. Inacreditável é que ela disse, no depoimento prestado aos ministros do STF, que achava os prédios todos muito bonitos e que por isso estava lá, tirando fotos. E que nunca tinha se afastado dos seus filhos. Ou seja, jura que fez a viagem por motivos turísticos, tendo tudo pago por estranhos, abrindo mão da companhia deles e do marido. Só faltou afirmar que a bandeira do Brasil que usava no pescoço ela encontrou por acaso, jogada no chão, e que considerou que ficaria bonita com ela como echarpe.

Jogada à própria sorte pelos verdadeiros interessados na concretização do golpe de estado, como boi de piranha daqueles magros e doentes, ela parece começar a se dar conta da imensa bobagem feita, da fria na qual se metera. Mesmo assim, prossegue sendo usada, agora como exemplo de uma pobre vítima, “levada por fortes emoções e no afã do momento” a cometer um ato tresloucado. Eis que um vídeo dela, chorosa e pedindo perdão, viraliza agora na Internet. Na falta de imagens de velhinhas com Bíblias na mão e de crianças – uma vez que não estavam no local, dia 8 de janeiro de 2023 –, agora se tornou importante mostrar mulher que foi subitamente alçada à condição de mãe e esposa exemplar. Sim, ela cita os filhos, uma vez que depois da prisão sua memória e sua afetividade parecem ter subido de patamar.

Na realidade seus parceiros golpistas estão pouco se lixando para a sua condição atual ou futura – exceto pelo “detalhe” do PL já estar cogitando lançar a candidatura da dita para deputada. Apesar da repercussão ter permitido que ela fosse para casa aguardar o término dos votos, usando tornozeleira eletrônica, o que interessa a eles neste primeiro momento é que esta é uma peça a mais no tabuleiro que busca a anistia para todos os golpistas. O que, em grau máximo, se fosse alcançado, significaria trazer de volta a possibilidade de Jair Bolsonaro concorrer à presidência em 2026. Isso, além de afastar o risco de vários militares conhecerem mais de perto prisões que, mesmo assim, nem de perto lembrariam aquelas onde eles enjaulavam sem julgamento os opositores do seu regime autoritário e violento.

Jacinta Velloso Passos, escritora e poetisa, nasceu em 30 de novembro de 1914, na cidade de Cruz das Almas, na Bahia. Foi casada com James Amado, irmão do escritor Jorge Amado. Seu primeiro livro foi lançado em 1942, em coautoria com seu irmão mais novo, Manoel Caetano Filho, e se chamava “Nossos Poemas”. O segundo, “Canção da Partida”, é de 1945 e foi ilustrado com desenhos de Lasar Segall. No total foram quatro obras, que receberam elogios de críticos do porte de Mário de Andrade, Antônio Candido, Roger Bastide e Aníbal Machado. Em setembro de 1951, após participar do IV Congresso de Escritores Brasileiros, em Porto Alegre, retornou ao Rio de Janeiro, onde teve uma forte crise nervosa, seguida de delírios. Era o início de uma série de transtornos mentais que passou a enfrentar.

Em 1965, quando morava em Sergipe, foi presa por escrever, no muro da sua própria casa, a frase “Liberdade à Pátria”. Terminou espancada e torturada a mando dos militares, que não levaram em consideração as suas condições, de fragilidade física e emocional. Agora, fardados que tiveram uma formação idêntica àqueles do golpe de 1º de abril de 1964, considerados ídolos por eles, estão às voltas com outra mulher e outra pichação, com a qual buscam se beneficiar. Só que não se pode de modo algum tentar equiparar a intensidade, o local e a circunstâncias dos dois atos – até porque só o recente é crime. Assim como, atualmente, o que foi feito como reação foi a aplicação da lei e não uma ação arbitrária e desumana, como a anterior.


*Solon Saldanha é jornalista e blogueiro.

Texto publicado originalmente no Blog  Virtualidades.

Foto de capa: Gabriela Biló 

 

FONTE:

https://red.org.br/noticias/nao-se-deve-desperdicar-batom/?fbclid=IwY2xjawJdQpxleHRuA2FlbQIxMQABHgz179
qTCgYG1ehJa2bjzIONZec9ME7iFTysrK-1dy6B4Dd9Im7uJg574nhI_aem_tmzdCvYepUowJN__s7PX2A
 

 

 

 

 

O CASO DO BATOM E AS EMOÇÕES VIOLENTAS QUE AFUGENTARAM FUX DA SERRA GAÚCHA

Jornalistas pela Democracia

Moisés Mendes, 02 de abril de 2025

Foto: Rosinei Coutinho/STF

Em maio de 2022, uma revolta virtual articulada por grandes empresários impediu que Luiz Fux fosse a Bento Gonçalves, na Serra gaúcha, para uma palestra no CIC (Centro da Indústria, Comércio e Serviços). Parte da elite da região de colonização italiana não queria ouvir o ministro nem saber que ele estava por perto.

A sequência do que aconteceu em Bento pode ajudar a entender o contexto do famoso caso da Débora do batom e suas controvérsias sobre o 8 de janeiro. Pode contribuir para que se entenda que afrontas a instituições e autoridades não são o que parecem ser como manifestações de liberdade de pessoas apenas tensionadas.

Fux deveria falar, em junho daquele ano, sobre ‘Risco Brasil e segurança jurídica’. Empresários e executivos de empresas de porte, organizados em grupos de zap, começaram a pressionar patrocinadores e a própria CIC para que Fux fosse desconvidado. O banco Sicredi, que patrocina o futebol, foi um dos primeiros realizadores a avisar que estavam saltando fora.

O movimento cresceu e a CIC informou que, depois das reações, não teria como acolher o ministro em sua sede. A OAB local assumiu a tarefa, mas logo recuou. Ninguém garantia a segurança do convidado. Fux era o presidente do Supremo.

O STF anunciou a decisão de cancelar a ida a Bento Gonçalves, por falta de segurança. Não porque Fux estava constrangido pelo boicote, nem pelos excessos dos que alertavam de que ali ele não entrava e, se entrasse, dali não saía. Fux não foi por precaução, por medo mesmo.

É provável que, entre uma maioria de machos da velha direita agora aliados da nova extrema direita, que viam Fux como um juiz de esquerda, existissem mulheres com batom. Que, se olhadas de longe, seriam apenas mulheres com batom. E se, olhadas de perto, seriam mães de dois ou mais filhos que haviam, num momento ruim, atacado não só o ministro, mas todo o STF.

Fux era conhecido como apoiador da Lava-Jato e linha-dura na imposição das suas ideias e seus votos sobre corruptos, que eram, claro, identificados na época como ligados ao PT, a Lula, ao comunismo e a tudo que estava ali. Pois os reaças de Bento não queriam Fux.

Mesmo que Fux, como a Folha revelou agora na edição dessa quarta-feira, tivesse se reunido a sós com Bolsonaro quando assumiu a presidência do STF. Mesmo que, para as esquerdas, fosse muito mais engajado às causas e discursos da direita. Mesmo que a própria CIC tivesse convidado o ministro.

Fux pensou e não foi. Pode-se perguntar hoje, para fazer conexão com uma declaração da semana passada do próprio ministro, se aqueles ataques não aconteceram sob violenta emoção e se isso não atenua possíveis delitos. Os tios empresários de Bento estavam emocionados demais, e uma autoridade não poderia responder com o mesmo grau de emoção. Como Fux propôs no caso da Débora do batom.

Também foi sob violenta emoção que logo depois, em novembro de 2022, uma turba expulsou o ministro Luis Roberto Barroso e sua família da praia de Porto Belo, em Santa Catarina. Se havia dado certo em Bento, daria em Porto Belo. E foi o que aconteceu.

Qualquer outro ministro do STF que se aventurassem a andar pelo interior, desafiando o fascismo, correria o mesmo risco. Mas, para muitos, o que aconteceu em Bento e o que se repetiu em Porto Belo foram apenas escaramuças. Não se tem notícia de ninguém alcançado pelo Ministério Público por causa daquelas ameaças.

Tudo normal, dentro do que pode ser considerado liberdade de expressão, risco Brasil e segurança jurídica precária. Por insegurança, Fux não foi a Bento e Barroso fugiu da praia catarinense como quem escapa no meio da madrugada de uma cidade do faroeste sitiada pelos bandidos. Não havia o que fazer.

Os derrotados eram ministros do Supremo, dois dos que, pelo ponto de vista de direita e esquerda, chegaram no auge do lavajatismo a ficar mais próximos dos justiceiros que diziam lavar do que dos que estavam sendo lavados. E mesmo assim foram perseguidos pela direita.

E chegamos então, depois de toda a articulação do golpe, ao 8 de janeiro e ao momento em que Débora do batom picha a estátua da Justiça diante do STF. De todos os personagens, só ela ficou famosa, por causa do batom. Os homens de Bento e de Porto Belo não se tornaram celebridades.

E assim estamos hoje tentando saber se é possível calibrar as emoções, inclusive as dos ministros da mais alta Corte, por recomendação de Luiz Fux, o ministro que perdeu para os tios de Bento e teve de recuar. Porque tudo, incluindo outros episódios semelhantes, parecia normal e apenas exagerado num ambiente reconhecidamente anormal.

Gente de Bento e de Porto Belo deve saber quantas mulheres com e sem batom fizeram parte dos grupos que acossaram e venceram Fux e Barroso. E não só por causa de emoções violentas.

Escrito por: Moisés Mendes

Moisés Mendes é jornalista de Porto Alegre e escreve no blogdomoisesmendes. É autor de ‘Todos querem ser Mujica’ (Editora Diadorim). Foi editor de economia, editor especial e colunista de Zero Hora.

 

FONTE:

https://www.facebook.com/tomenota.dicasdeeducacao/?locale=pt_BR 




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