Dois Palanques, Um Projeto

Dois Palanques, Um Projeto: a Dialética da Derrota da Extrema Direita
Por Enilson Gonçalves
Há, no debate recente, uma hipótese que revela mais sobre seus formuladores do que sobre a realidade política do Rio Grande do Sul: a possibilidade de uma intervenção do diretório nacional do PT sobre o PT gaúcho. Trata-se de uma ideia descabida não apenas pela forma — que tensiona a autonomia federativa dos partidos e ignora a inteligência política local —, mas sobretudo pelo conteúdo, por não apreender a especificidade do cenário eleitoral do estado. Intervir, nesse caso, não seria um gesto de força estratégica, mas de miopia analítica: um equívoco que confunde unidade com homogeneização e estratégia com imposição.
No Rio Grande do Sul, eleição raramente é apenas disputa, é também memória, identidade e cálculo. Há algo de profundamente gaúcho na insistência em repetir dilemas antigos sob novas siglas: fragmentar para afirmar ou unir para vencer.
No tabuleiro atual, três vetores parecem se entrecruzar com tensão evidente: o campo governista associado a Gabriel Souza, a presença de uma extrema direita fascista mais radical representada por Zucco (ou figuras equivalentes nesse espectro), e, no campo progressista de esquerda, nomes como Edegar Pretto e Juliana Brizola.
A questão que se impõe não é apenas quem disputa, mas como se disputa.
Historicamente, o eleitorado de esquerda no estado não é homogêneo. Ele se distribui entre tradições distintas: uma vertente mais vinculada ao trabalhismo histórico, evocando o legado de Brizola; outra, ancorada na estrutura partidária e sindical mais associada ao PT. Em tese, a coexistência de duas candidaturas pode parecer um erro estratégico uma divisão que dilui forças diante de adversários mais consolidados.
Mas a política raramente obedece à lógica linear.
Há cenários em que a multiplicidade inicial não fragmenta, ela amplia. Duas candidaturas podem ocupar nichos eleitorais diferentes, ativar redes distintas e mobilizar segmentos que, de outro modo, não se engajariam sob uma única bandeira. Nesse sentido, Juliana Brizola poderia dialogar com um eleitorado mais identificado com o trabalhismo clássico e com setores moderados, enquanto Edegar Pretto poderia consolidar uma base mais orgânica, vinculada a movimentos sociais e estruturas partidárias.
O ponto crítico, contudo, não está no primeiro turno está no momento de convergência.
Se houver coordenação estratégica, duas candidaturas no início podem funcionar como “antenas” captando diferentes correntes eleitorais. Mas isso exige uma condição rara: capacidade real de unificação no segundo turno, sem ressentimentos acumulados e com transferência efetiva de votos.
Sem isso, o que começa como expansão termina como dispersão.
Outro elemento relevante é o papel do incumbente. Um governador em exercício tende a concentrar votos de centro e de estabilidade administrativa. Nesse contexto, candidaturas progressistas múltiplas podem tanto disputar esse espaço quanto, paradoxalmente, empurrar parte do eleitorado moderado para a continuidade.
Já no caso de um segundo turno contra uma candidatura de direita mais radical, o cenário muda de natureza.
A disputa deixa de ser programática e passa a ser, muitas vezes, plebiscitária. Nesses casos, a história recente mostra que alianças amplas, mesmo improváveis, tornam-se mais viáveis.
Mas isso não é automático.
A transferência de votos depende de fatores que escapam ao cálculo aritmético: rejeição, identificação simbólica, confiança no candidato final. Nem todo eleitor migra com facilidade de uma legenda para outra, especialmente quando há rivalidades históricas entre partidos.
No fundo, a pergunta que paira sobre o campo progressista gaúcho não é apenas “quantos candidatos lançar?”, mas qual narrativa construir. Fragmentação sem narrativa gera ruído; pluralidade com convergência pode gerar densidade política.
Entre a pureza identitária e a eficácia eleitoral, o que se coloca para a esquerda gaúcha não é uma escolha abstrata, mas um problema concreto de estratégia em dois tempos. No primeiro turno, duas candidaturas não significam dispersão, mas capacidade ampliada de enfrentamento: de um lado, tensionar o campo governista expressão de uma direita moderada que se apresenta como centro; de outro, confrontar diretamente a direita radical, hoje vocalizada por Luciano Zucco. Nesse movimento, a pluralidade não fragmenta ela ocupa mais espaço, disputa mais narrativas e amplia o alcance eleitoral. O segundo turno, por sua vez, exige outra racionalidade: não mais a diferenciação, mas a convergência. É aí que a unidade entre Edegar Pretto e Juliana Brizola deixa de ser possibilidade e passa a ser condição de vitória. Assim, longe de contraditória, a estratégia se revela dialética: dois palanques no início para ampliar a disputa; um projeto comum ao final para vencer e, nesse processo, abrir caminho real para derrotar a extrema direita no estado.
No fim das contas, o que se desenha no horizonte gaúcho não é apenas uma disputa de nomes, mas de arquitetura eleitoral. Em determinados contextos, a presença simultânea de duas candidaturas no mesmo campo político não opera como cisão, mas como expansão de alcance uma espécie de capilaridade estratégica que permite dialogar com segmentos distintos do eleitorado. O ponto decisivo, entretanto, não está na largada, mas na capacidade de recomposição no segundo turno. Se essa convergência se efetiva com unidade discursiva, coordenação de forças e construção de um palanque amplo o que antes parecia dispersão pode se converter em densidade política.
É nesse arranjo que emergem as reais possibilidades de reorganização do campo progressista no estado: duas candidaturas no primeiro turno funcionando como vetores de mobilização e, no segundo, a consolidação de uma frente unificada capaz de polarizar com força suficiente para derrotar o candidato do conservadorismo.
Nesse desenho, além de ampliar o alcance eleitoral, a estratégia também projeta dois palanques relevantes para Luiz Inácio Lula da Silva no Rio Grande do Sul, o que, longe de fragmentar, potencializa a presença política e fortalece a capacidade de agregação no momento decisivo da disputa.
Enilson Gonçalves é cineasta e mestre em Filosofia Política pela Universidade Federal de Pelotas (UFPEL) e pela Universidade Federal da Fronteira Sul (UFFS), doutorando em Filosofia da Educação pela (UFPEL) e pesquisador em política internacional.
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