Doutrinação marxista

Doutrinação marxista

 

 

Quem tiver um mínimo de juízo, pare pra refletir sobre isso, é sério.

A conversinha fiada de que existe uma “doutrinação marxista nas escolas” é, na prática, um espantalho político cuidadosamente construído para desviar o olhar do que realmente acontece em larga escala: a formação ideológica rígida, precoce e pouco questionada dentro de instituições religiosas.

Essa narrativa foi amplamente difundida por figuras altamente (des)confiáveis como Olavo de Carvalho e repetida por políticos como Jair Bolsonaro e afins, mas quando se observa a realidade concreta da educação básica, o que se encontra está muito distante dessa fantasia...

Não existe currículo escolar estruturado em Marxismo, não há ensino sistemático de Karl Marx para crianças, e os próprios professores coitados, submetidos a condições precárias, mal conseguem cumprir o conteúdo curricular básico. O que aparece, no máximo, são discussões necessárias sobre desigualdade, direitos humanos e história social, ou seja, elementos mínimos pra qualquer formação crítica, que acabam sendo distorcidos como ameaça ideológica. E hoje em dia, com tanta perseguição urdida pela extrema-direita, nem isso é de praxe.

Já a formação religiosa infantil ocorre de forma muito mais profunda, contínua e emocionalmente incisiva. Em muitos contextos, crianças são ensinadas desde cedo a interpretar o mundo a partir de uma lógica binária entre bem absoluto e mal absoluto, internalizando a ideia de que há forças invisíveis agindo o tempo todo e de que qualquer desvio pode resultar em punição espiritual...

O medo do inferno, do demônio e da condenação se baseia em metáforas distantes e sim como realidade concreta que molda comportamento, pensamento e até sentimentos. Ao mesmo tempo, instala-se uma lógica de culpa permanente: o corpo, o desejo, a curiosidade, tudo pode ser enquadrado como pecado. Essa combinação de medo e culpa cria um ambiente psicológico de vigilância constante, onde questionar não é estimulado, mas reprimido.

Bem diferente da escola, que ainda preserva algum espaço para dúvida e reflexão, a doutrinação religiosa dogmática tende a fechar o campo do pensamento. A criança aprende a aceitar verdades prontas ao invés de investigá-las, a obedecer mesmo sem compreender. Esse processo tem efeitos profundos: bloqueio do pensamento crítico, ansiedade precoce, sensação de inadequação e conflitos internos duradouros. Pesquisas como as da psicóloga Marlene Winell* apontam justamente para os impactos do chamado trauma religioso, que envolve medo crônico, culpa internalizada e dificuldade de construção de autonomia. Além disso, há a repressão de aspectos fundamentais da identidade, especialmente em temas ligados à sexualidade e ao próprio corpo, o que pode gerar vergonha, negação de si e sofrimento psíquico prolongado...

Outro efeito importante é a formação de uma visão de mundo empobrecida e intolerante. Quando tudo que foge daquele sistema é associado ao erro, ao pecado ou ao mal, cria-se terreno fértil pra preconceitos de diversas naturezas, incluindo racismo religioso e rejeição ao diferente. Paralelamente, estabelece-se uma relação de dependência emocional e institucional, na qual o indivíduo passa a acreditar que não consegue viver, decidir ou compreender a realidade sem a mediação da autoridade religiosa. Isso limita profundamente a autonomia e a capacidade de agir no mundo de forma livre...

É verdade que existem aspectos positivos de crescer numa comunidade de fé como senso de comunidade, apoio emocional e redes de solidariedade, mas esses benefícios quase sempre estão condicionados à conformidade. Ou você fecha os olhos pra qualquer possível erro naquela estrutura ou você é malvisto e excluído. O pertencimento não respeita sua individualidade: ele exige alinhamento, obediência submissa e silêncio diante de discordâncias...

O discurso sobre “doutrinação comunista” cumpre uma função bastante clara: deslegitimar a escola, perseguir e demonizar professores, enfraquecer o pensamento crítico e deslocar o debate público, e a doutrinação religiosa, muito mais estruturada e impactante na formação subjetiva desde a infância, permanece protegida, naturalizada e, muitas vezes, incentivada politicamente.

E no fim das contas, sabe no que dá tamanha ideologização?

Em abusos.

Em um ambiente de extrema violência moral, psicológica e física.

Um ambiente onde o poderio das lideranças é tão indiscutível que favorece um acúmulo perene e gradual de violência sexual, principalmente contra mulheres e, obviamente, crianças.

No ambiente religioso cristão as crianças estão sempre à mercê disso e na grande maioria das vezes, crescem sem entender como se defender e sem coragem nem apoio pra denunciar seus predadores ungidos. Muitas vezes até se culpando da violência que sofreram.

Os números são alarmantes, perturbadores. E hoje em dia nem mais tão ocultados são...

A história do catolicismo, do protestantismo, do evangelicalismo não me deixa mentir. E vocês sabem. Todos sabem, mas a PEDAGOGIA DO MEDO E DA OBEDIÊNCIA APLICADA NOS AMBIENTES RELIGIOSOS NÃO DEIXA QUE A INDIGNAÇÃO SEJA POTENTE O SUFICIENTE PRA PRODUZIR TRANSFORMAÇÕES.

Nem individual nem coletivamente.

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Gi Stadnicki

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*Sobre Marlene Winell

Religious abuse - Wikipedia https://share.google/kjQw3yna2R8wOaTUV 

Fundamentalismo gera trauma religioso - Extra Classe https://share.google/OIVPeIFzKeB1ctEQE 

FONTE:

https://www.facebook.com/giovanna.stadnicki?locale=pt_BR 

 

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Você já reparou como, quanto mais o caos político, econômico, social se aprofunda, as igrejas ficam mais cheias?

Bom, isso é óbvio né?

Quando o dinheiro não dá mais pra nada, quando o desemprego espreita, quando a violência é cada vez mais rotineira, quando o Estado falha em tudo aquilo que deveria garantir e conflitos, guerras e tormentas climáticas assolam a terra, quando nos foi sugada toda a alma e esta é substituída por cobranças extremas por adaptação a um sistema desumanizante, é justamente nesse cenário que muita gente encontra na igreja o único lugar de acolhimento possível.

E isso tem peso real. A igreja escuta, organiza, dá sentido, oferece pertencimento, dá a sensação de segurança e esperança. Pra quem está no limite, isso não é pouca coisa...

Mas é justamente aí que se abre uma questão incômoda...

Se a igreja cresce quando o sofrimento aumenta, o que aconteceria com ela se esse sofrimento diminuísse?

E mais: por que a atuação dela quase sempre fica no alívio imediato, tipo, na dor individual, na dimensão pessoal da fé e da esperança?

Sim, por que raramente avança pra QUESTIONAR e ENFRENTAR EFETIVAMENTE as estruturas que produzem essa dor em larga escala?

Vejam que uma coisa é ajudar alguém, individualmente, a suportar a realidade. Outra, bem diferente, é enfrentar a raiz dessa realidade e enfrentar a raiz significa entrar em conflito com interesses econômicos, com desigualdade estrutural, com concentração de poder. Significa sair do campo do consolo e entrar no campo da disputa.

Agindo politicamente em favor das pessoas, de verdade.

"Ain, mas religião e política não devem se misturar..."

-- é o que sempre repetem os desavisados que até hoje não perceberam que até essa crença incutida em suas mentes é fruto de estratégia político-religiosa.

O problema é que muita gente não percebe que esse modelo eclesiástico de acolher o sofrimento sem questionar o que o gera, acaba funcionando de forma muito eficiente dentro de uma sociedade desigual. Ele não precisa criar a miséria. Mas aprende a operar perfeitamente dentro dela.

Ele anestesia as pessoas, obstrui a reação de indignação e a potência de luta e resistência. Traduzindo em miúdos, age POLITICAMENTE à favor do sistema (que permanece indicado e brutal) e contra o povo e suas necessidades mais essenciais.

Quanto mais gente vulnerável, mais gente buscando sentido pra uma vida precarizada, vazia, dura além da conta, entendem? Quanto mais gente buscando sentido, mais relevância para quem oferece respostas prontas...

E isso não quer dizer que exista uma ~conspiração consciente~ em cada igreja ou em cada fiel. Seria simplista demais reduzir a isso. Mas, como já apontava Paulo Freire, as instituições também educam e podem ensinar tanto a questionar quanto a aceitar o mundo como ele é...

No caso da Igreja, é sempre sobre aceitar, esperar uma futura redenção que nunca chega, "viver no mundo sem ser do mundo"(como se isso fosse possível em algum nível)...

Se o discurso nunca ultrapassa o nível do “tenha fé e aguente”, algo errado não está certo. E esse errado é justamente a pergunta mais dolorosa: por que tanta gente precisa aguentar o inaceitável?

Por que suportar tanto?

Sofrer tanto?

Ser tão "provado", enquanto uns tão aí, de boa?

É justo produção?

Alguém aqui já parou pra analisar essa "justiça" cristã com o devido senso crítico que ela merece?

Ou é "pecado"? É "blasfêmia"?

No fim, a questão não é que eu estou negando o papel emocional e social que a igreja exerce. Não, não, longe disso. Ele existe sim e, em muitos casos, é o que impede pessoas de desmoronar completamente. A questão é outra, é por que esse acolhimento não vem acompanhado de um enfrentamento real das causas da desigualdade?

Por que isso não interessa às lideranças?

Por que essas lideranças não estão PROTAGONIZANDO as lutas históricas em favor do bem-estar físico, mental, emocional das pessoas?

Por que quando lideranças cristãs concorrem a cargos públicos e são eleitas, NUNCA trabalham pra reduzir essas desigualdades?

Por que só agem CONTRA as demandas urgentes do povo e focam só em pautas sensacionalistas de costumes?

Por que, a GRANDE MAIORIA DAS LIDERANÇAS CRISTÃS mundiais, de todos os segmentos, não se inflamam à altura, diante do sofrimento do povo e não lutam politicamente, DANDO A CARA PRA BATER, por um mundo mais justo e digno, onde a humanidade viva em paz?

Por que só retroalimentam o ciclo onde o sofrimento da população empreende a busca por sentido, e a busca por sentido, nas igrejas, encontra respostas que só ajudam a suportar, mas não a transformar a realidade?

E aí a engrenagem continua girando, impiedosamente?

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Não sou cristã, vocês sabem, mas esse não seria o ideal do Jesus que vocês creem?

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Então, as igrejas SE BENEFICIAM DO CAOS DO MUNDO?

É o que parece né?

Sem o caos, sem as incertezas, a ignorância, a dor, a ansiedade, a depressão, a angústia, o pavor, essa série de tormentos produzidos principalmente pela instabilidade político-econômica do mundo...

As igrejas seriam esse segmento de tão absoluto sucesso?

Esse nicho de mercado tão rentável e sempre em ascensão?

Será que ainda sabemos/conseguimos, diferenciar espiritualidade de desespero?

De produto?

De doutrinação?

Não sei.

Mas os SENHORES DA FÉ (lideranças religiosas) contam com a nossa incapacidade.

Por isso, pra eles, todo caos é pouco.

Sempre pouco.

Então, lhes resta, como missão maior, aprofundá-lo. A história mostra, século a século, a evolução das tecnologias de produção do caos, com sua ampla e inegável participação.

Quer tenham, hoje, discurso belicista ou discurso pacifista. Tudo depende da conveniência e a alternância é o padrão.

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Gi Stadnicki

FONTE:

https://www.facebook.com/giovanna.stadnicki?locale=pt_BR 




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