Ed Básica privada cresce
Educação básica privada cresce e muda de perfil no estado
A chegada de novas redes educacionais e de escolas de viés empresarial ao RS transforma o cenário do lucrativo mercado da educação privada

Fotos: Igor Sperotto
O cenário da educação básica privada no Rio Grande do Sul vem se alterando rapidamente nos últimos cinco anos, com a entrada de grupos educacionais mercantis vindos de outras regiões do país, de fora do Brasil, e ainda com o investimento pesado do chamado Sistema S no setor, especificamente o comércio e a indústria.
O que até pouco tempo caracterizava o perfil do estado por suas escolas confessionais ou comunitárias, está ganhando novas características. Entre esses grupos vindos de fora, está o Raiz, do Rio de Janeiro, que adquiriu o tradicional Colégio Americano, em 2025. Além desse, o Raiz é o novo proprietário de duas unidades do Colégio Leonardo da Vinci (Alfa e Beta), em Porto Alegre, e da unidade de Canoas. Também responde por duas unidades do Colégio Unificado na capital gaúcha.
Outra empresa, Rede Inspira de Educadores, presente em todas as regiões do país, entrou no mercado gaúcho com a aquisição dos colégios João Paulo, Higienópolis, Praia de Belas e Pedra Redonda. O mesmo caminho percorrem o Colégio Gabarito, o qual investiu em escolas em Porto Alegre e Canoas, e o Instituto Educacional Dimensão, que se tornou presente em Guaíba, Camaquã e Pelotas.
“Nos últimos cinco anos, esses grupos entraram com força no estado e passaram a comprar escolas que atendem a um público majoritário de classe média e média alta. Escola privada dá muito dinheiro”, informa o professor Cássio Bessa, diretor do Sinpro/RS. Ele vem observando as modificações ocorridas em poucos anos e aponta que o cenário mudará mais ainda em bem pouco tempo. “Este é um movimento novo no RS, é uma nova realidade. O que estamos presenciando hoje estará desatualizado em breve”, explica.
Entre as empresas estrangeiras a ocupar espaço no setor, está a norte-americana Maple Bear, que possui mais de 400 escolas, distribuídas em 39 países.
Com metodologia canadense, a Maple Bear se estabeleceu no Rio Grande do Sul em 2017. Desde então vem expandindo sua rede. Possui unidades em Bento Gonçalves, Caxias do Sul, Passo Fundo, Porto Alegre (duas unidades), Santa Maria, São Leopoldo. A mais recente, de 2025, está situada em Gramado. Seu chamamento é para o estudo bilíngue. No período de matrículas, a marca investiu pesado nas redes sociais com o slogan “Garanta já o futuro bilíngue de seu filho”.
Sistema S amplia o número de escolas no RS
A Federação das Indústrias do RS (Fiergs) decidiu investir pesado no Sistema S. Em maio de 2023, foram aplicados R$ 300 milhões na educação regional por meio do Serviço Social da Indústria do Rio Grande do Sul (Sesi-RS), prevendo a construção de seis escolas de Ensino Médio em tempo integral nas cidades de Bento Gonçalves, Canoas, Caxias do Sul, Novo Hamburgo, Lajeado e Santa Cruz do Sul.
Das seis escolas, três já foram inauguradas e estão em funcionamento: Canoas, Lajeado e Bento Gonçalves. Novo Hamburgo iniciou o ano letivo em fevereiro deste ano, e as demais, Santa Cruz do Sul e Caxias do Sul, estão em processo de construção. O Sesi-RS conta, ainda, com escolas de Ensino Médio em Pelotas, Sapucaia do Sul, São Leopoldo, Montenegro e Gravataí.
Conforme a diretora-geral do Sistema Fiergs, Ana Paula Werlang, as ações direcionadas para a educação básica tiveram maior volume a partir de 2013.
“Neste período, os estudos sobre a falta de identidade do Ensino Médio para os jovens e a necessidade de oferecer uma formação integral e mais conectada com o mundo do trabalho – em especial na indústria – motivaram a decisão de ampliar os serviços no setor”, esclarece.
As escolas atendem a alunos trabalhadores da indústria, seus dependentes e alunos da comunidade. Werlang comenta que todos passam por avaliação socioeconômica e podem receber bolsas de 20% a 100% e, a partir do 2º ano, fazem o itinerário de ciências da natureza, matemática e o ensino técnico, o que oportuniza a receberem bolsa de jovem aprendiz.
Na área do comércio, pelo Sistema Fecomércio-RS, os investimentos em educação também são expressivos. Em 2021, a Federação iniciou a ampliação dos serviços educacionais do Sesc, implantando o Ensino Fundamental nas cidades de Santa Maria e Novo Hamburgo. O Sesc encerrou 2025 com investimentos em educação e aumentou sua atuação, com projeto de expansão educacional, o que inclui melhorias de infraestrutura e novas unidades.
De acordo com o Núcleo de Marketing do Sistema Fecomércio, em 2026 o Sesc passa a contar com uma nova escola com todos os níveis de ensino da educação básica, do berçário ao Ensino Médio: a Escola Sesc São Judas, na zona norte da capital, que havia encerrado suas atividades; também uma nova escola de Educação Infantil, Sesc Pelotas, duas escolas para os anos finais do Ensino Fundamental em Santa Maria e Novo Hamburgo e outra escola de Ensino Médio com qualificação profissional em Santa Cruz do Sul.
Educação infantil
Ainda neste ano, o Sesc planeja inaugurar mais uma escola de Educação Infantil no interior do estado e, a partir de 2027, novos projetos também no interior. Em Porto Alegre, terão continuidade as obras da Escola José Roberto Tadros, junto ao Sesc Protásio, que ofertará todos os níveis de ensino.
O Sistema Fecomércio informa que, desde 2022, o Sesc conta com 35 polos educacionais, que atendem à demanda do Ensino Médio, EJA, EAD, com editais anuais de ingresso e 100% gratuito.
Em 2020, o valor investido em educação foi de R$ 22,1 milhões, com mais R$ 570 mil em investimentos novos ao longo do ano. Em 2025, a cifra alcançou mais de R$ 48,2 milhões, com mais R$ 2,3 milhões em investimentos novos durante o ano, totalizando R$ 50,5 milhões. Para 2026, a projeção é de um total de mais de R$ 74,2 milhões de recursos na área. Desses, são R$ 10,1 milhões em novos investimentos. As escolas Sesc atendem prioritariamente aos trabalhadores do comércio de bens, serviços e turismo.
Ao todo, são mais de quatro mil alunos na rede, e a cada nova escola esse número cresce, conforme o segmento que está sendo implantado. Cerca de 55 professores foram contratados neste ano, além de auxiliares pedagógicos e equipe administrativa.
Processo global
O presidente do Sindicato do Ensino Privado do RS (Sinepe/RS), Oswaldo Dalpiaz, informa que a entidade acompanha com atenção as transformações que vêm ocorrendo na educação básica privada. “Esse movimento não é exclusivo do estado nem do Brasil. Está inserido em um processo global de reorganização do setor educacional, que envolve mudanças demográficas, transformações tecnológicas, novas demandas das famílias e diferentes modelos de gestão educacional”, diz.
Para ele, a rede privada de ensino no RS sempre foi marcada pela diversidade de perfis institucionais, incluindo escolas familiares, comunitárias, confessionais, cooperativas e grupos educacionais. “Essa pluralidade é uma característica histórica do setor e tende a permanecer como um dos seus principais diferenciais”, projeta.
E acrescenta que “a presença de novos grupos pode trazer aportes importantes em termos de gestão, inovação, tecnologia educacional e capacidade de investimento”. Dalpiaz observa que o que deve orientar o futuro do setor é a qualidade do projeto pedagógico, a responsabilidade com os estudantes e famílias e o compromisso com a formação integral. “Em relação às escolas confessionais e comunitárias, elas continuam exercendo um papel relevante, especialmente pela vinculação com valores institucionais, identidade cultural e relação histórica com as comunidades onde estão inseridas. O cenário atual aponta mais para um processo de reorganização e diversificação do que para perda automática de espaço de um ou outro perfil institucional”.
Para os próximos anos, ele vislumbra um setor ainda mais diverso, com convivência entre diferentes modelos de gestão, maior presença de tecnologia educacional, ampliação de propostas pedagógicas diferenciadas e maior exigência das famílias por transparência, qualidade e resultados educacionais.
Diversidade de modelos institucionais
O Ministério da Educação (MEC) destaca a existência de uma legislação educacional que assegura diversidade de modelos institucionais, cabendo aos sistemas estaduais e municipais de ensino a autorização e supervisão das instituições. O MEC não dispõe de dados sistematizados ou estudos específicos sobre impactos regionais decorrentes de mudanças no perfil do ensino privado.
Já a presidente do Conselho Estadual de Educação, Fátima Ehlert, afirma que todas as escolas privadas, sejam elas filantrópicas, profissionais e/ou particulares, “quando do interesse em credenciar-se junto à entidade e buscar autorização para funcionamento e ofertas de cursos, são submetidas à análise com base na legislação nacional e normas específicas do Sistema Estadual de Ensino e, estando de acordo, estarão aptas à respectiva oferta”.
Ela explica, ainda, que instituições de outros estados podem cadastrar mantenedora no Conselho obedecendo às normas específicas e, posteriormente, solicitar credenciamento e autorização de cursos em consonância com suas normativas.
Colégio progressista idealizado por professores
O Sistema Anglo de Ensino é uma rede de São Paulo, já consolidado no Rio Grande do Sul, marcadamente voltado para o vestibular. Em 2024, foi aberto o Colégio Anglo, em Porto Alegre, um prédio de seis andares que atende apenas a adolescentes. “Cada Anglo tem sua autonomia. O nosso Colégio tem como um dos focos o vestibular, mas não só isso. Funciona a partir do desenvolvimento de habilidades, ao contrário do foco apenas no conteúdo”, destaca o diretor André Fozzy. “Aqui, o conteúdo é aplicado a um contexto, que é a realidade. É uma escola progressista.” Para este ano, estão previstos 120 alunos estudando pela manhã, em quatro turmas. Possui 22 professores e o grupo tem planos de expansão, “buscando investidores para construir uma escola de altíssima qualidade, com preço justo”. A meta, diz Fozzy, é de crescimento: “É uma escola de professores, não de empresários. Está na hora de Porto Alegre ter escolas que se diferenciam de várias formas”.
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