Eduardo Leite fora da eleição

Eduardo Leite fora da eleição

Os fatores que tiraram Eduardo Leite da eleição presidencial

Objetivos reais do PSD, confiança, experiência e capacidade de aglutinação são citados como determinantes por analistas políticos

Flavia Bemfica

 

O governador do RS, Eduardo Leite, e o presidente nacional do PSD, Gilberto Kassab
Foto : Mauricio Tonetto/Divulgação/CP

 

Mais de mil quilômetros de distância vão separar, na tarde desta segunda-feira, 30, as pretensões do governador Eduardo Leite do anúncio do PSD sobre quem será o candidato da sigla à presidência da República. Enquanto o presidente nacional do PSD, Gilberto Kassab e o governador de Goiás, Ronaldo Caiado, estiverem proclamando, em São Paulo, que Caiado é o pré-candidato da legenda na corrida presidencial, Leite, em Porto Alegre, estará cumprindo compromissos institucionais do Executivo gaúcho.

A ‘lonjura’ física entre as duas agendas vem sendo usada por analistas e articuladores políticos no RS como um comparativo para explicar os motivos que levaram Leite a, apesar da reiterada disposição, ser, pela segunda vez, preterido para entrar na disputa nacional.

“A política, e aqui estamos falando da política mesmo, e do cesto de elementos que ela abarca, entende que não é a hora do Eduardo. Eu citaria pelo menos três fatores principais que pesaram na definição do PSD: confiança, tamanho e os próprios objetivos do partido. O jogo político de 2026 é muito tradicional. Neste cenário, querer ser não é o bastante, precisa haver toda uma construção. Que depende de um número considerável de atores, distintos, e de uma gigantesca capacidade de articulação”, elenca o publicitário e especialista em análise e marketing político, José Luiz Fuscaldo. Conforme ele, Leite colocou a candidatura presidencial como ponto de chegada, mesmo que ela não tivesse condições necessariamente favoráveis, enquanto que os políticos, via de regra, avaliam todo o ambiente.

A ‘política com P maiúsculo’ foi justamente o que Kassab, durante sua participação em ato de filiações coletivas no RS, em 21 de março, assinalou que seria determinante na escolha. Ante a empolgação da plateia que lotava um dos auditórios da sede da Fecomércio naquele sábado, o dirigente, em diferentes ocasiões, afagou o gaúcho, afirmando sua certeza de que Leite será presidente. Mas, em todas, ressalvou que a oportunidade poderia “ficar para a frente”.

Instado a detalhar o que embasaria a avaliação sobre quem seria o melhor candidato para o partido, Kassab elencou a combinação entre performance em sondagens eleitorais, perspectivas de desempenho, perfil dos adversários, experiências anteriores, eleitorado, propostas específicas e capacidade de atingir campos adversários.

Ao listar os fatores, Kassab desenhou uma flecha brilhante na direção do governador do Paraná, Ratinho Júnior, até então estabelecido como o nome do PSD para a disputa presidencial. Mesmo que, de público, a sigla seguisse mantendo três pré-candidatos: Ratinho, Caiado e Leite. Com associação expressa ao bolsonarismo, Ratinho até externava uma leve inclinação ao centro. Mas sempre com foco nos eleitores que não se empolgam com a pré-candidatura do senador Flávio Bolsonaro (PL).

Na segunda-feira seguinte ao ato no RS, Ratinho anunciou sua desistência da corrida presidencial. Automaticamente Caiado passou a ser apontado como a escolha do PSD. Leite, contudo, viu uma oportunidade de dobrar a aposta. Fez uma comunicação pública de que só deixaria o mandato para concorrer à presidência, descartando o Senado e mostrando o pouco apetite por uma vaga de vice na chapa do goiano.

Entre aliados gaúchos, o movimento foi visto como uma cartada derradeira para tentar convencer Kassab e o PSD a mudarem de ideia. Na sequência, Leite fez uma série de movimentos para capitanear apoios públicos de setores empresarias e do mercado financeiro, tentando se firmar como uma alternativa de terceira via liberal, arejada, e com discurso anti-polarização. Não funcionou. O discurso adotado por Leite, conforme diferentes analistas políticos, esbarra no comportamento real do eleitorado, para além da teoria. Nesta segunda, durante participação no evento Banco Safra Macro Day, em São Paulo, Kassab, por exemplo, assinalou que a avaliação foi a de que Caiado tem mais chances de chegar ao segundo turno.

“O apoio da fatia do empresariado historicamente vinculada ao PSDB não chega a ser suficiente para alavancar o percentual de votos necessário a manter o PSD no jogo. Isso inclui, para bem mais além do que chegar ou não ao segundo turno, que o PSD esteja bem posicionado para negociações em curso e futuras em múltiplas direções, até a convenção, lá em julho. Além disso, enquanto Leite se apresenta como centrista, tecnocrata, é Caiado quem enverga o traje completo da direita respeitável”, explica o professor Rodrigo González, do programa de pós-graduação em Ciência Política da Ufrgs.

Ele completa ainda que, dentro deste contexto, a menor experiência de Leite e as dúvidas sobre sua capacidade de aglutinação também atrapalharam. No cenário regional atual, o governador não conseguiu manter unida sua base política para as eleições estaduais deste ano, perdendo partidos importantes justamente para a aliança encabeçada pelo PL.

FONTE:

https://www.correiodopovo.com.br/not%C3%ADcias/pol%C3%ADtica/os-fatores-que-tiraram-eduardo-leite-da-eleicao-presidencial-1.1701602 

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