Eleições recentes na América Latina

Eleições recentes na América Latina

 

 

A extrema direita vence no detalhe.

As eleições recentes na América Latina deixam uma lição evidente: a extrema direita vence, mas vence no detalhe.

Na Colômbia, a diferença foi inferior a um ponto percentual. Cerca de 200 mil votos separaram o vencedor do candidato da esquerda em um país com dezenas de milhões de eleitores. No Peru, a disputa também foi decidida por uma margem mínima, tão apertada que o processo exigiu recontagens e gerou questionamentos sobre o resultado final.

Esses números mostram algo que vai muito além dos vencedores e derrotados. Revelam um continente dividido ao meio. Não existem maiorias esmagadoras nem consensos nacionais. Existe uma polarização profunda que atravessa fronteiras, culturas e gerações.

O aspecto mais preocupante é que a velha direita liberal, democrática e dialogista parece ter perdido espaço para uma extrema direita cada vez mais radicalizada. Uma direita que frequentemente flerta com o autoritarismo, com o discurso de ódio, com preconceitos raciais e sexuais, com a perseguição às minorias e com o fanatismo religioso transformado em ferramenta política.

Esse coquetel explosivo governa hoje boa parte do continente.

Mas existe uma contradição que seus líderes preferem ignorar. Apesar das comemorações e dos discursos triunfalistas, essas vitórias são frágeis. Governos eleitos por diferenças mínimas carregam consigo a marca da instabilidade desde o primeiro dia.

A própria polarização impede qualquer sensação de normalidade. Metade da população comemora enquanto a outra metade vê o novo governo como uma ameaça. O resultado é um ambiente permanentemente hostil, onde cada decisão gera conflitos e cada eleição parece uma batalha existencial.

A situação se agrava porque quase nenhum país latino-americano possui hoje um Congresso com maioria clara. Presidentes precisam negociar cada votação, cada projeto e cada reforma. Na prática, muitos parlamentos transformam-se em mercados políticos onde apoio é trocado por cargos, verbas e favores. É o terreno ideal para o fisiologismo e para a corrupção institucionalizada.

Mas existe um problema ainda maior para a extrema direita latino-americana: ela parece ter apostado todas as fichas em um único homem, Donald Trump.

Boa parte da nova direita continental se inspira diretamente no trumpismo. Copia suas estratégias, seus discursos, seus inimigos e sua forma de fazer política. Trump tornou-se uma espécie de referência internacional para movimentos conservadores e nacionalistas em toda a região.

Só que a política é implacável com quem acredita que uma maré dura para sempre.

Se as eleições de novembro confirmarem a tendência observada nos últimos meses e os republicanos sofrerem perdas importantes no Congresso, Trump entrará na segunda metade do mandato muito mais enfraquecido. Sem maioria parlamentar, sua capacidade de impor pautas, distribuir recursos políticos e influenciar o cenário internacional diminuirá consideravelmente.

E um Trump enfraquecido significa também uma extrema direita latino-americana mais isolada.

Muitos desses governos acostumaram-se a contar com apoio político, diplomático, midiático e estratégico vindo dos Estados Unidos. Mas esse apoio depende da força de quem ocupa a Casa Branca. E essa força não é infinita.

Olhando para 2028, o panorama é ainda mais difícil. Trump estará encerrando sua trajetória política. O trumpismo pode sobreviver como movimento, mas dificilmente manterá o mesmo peso sem seu principal líder. A história está cheia de exemplos de correntes políticas que pareciam invencíveis até perderem a figura que as unificava.

Por isso, as comemorações da extrema direita latino-americana parecem prematuras. Ganham eleições por décimos de ponto percentual, governam sociedades profundamente divididas, dependem de parlamentos fragmentados e apostam boa parte de seu futuro político em um líder estrangeiro que se aproxima do fim de sua carreira.

A realidade é menos gloriosa do que os discursos de vitória sugerem.

A extrema direita não está conquistando hegemonia. Está vencendo disputas apertadíssimas em sociedades polarizadas. E isso é muito diferente.

A América Latina talvez precise apenas de paciência histórica. Nenhum líder é eterno. Nenhuma onda política dura para sempre. E quando o ciclo do trumpismo chegar ao fim, muitos dos que hoje cantam vitória poderão descobrir que estavam apoiados em uma força muito menos sólida do que imaginavam.

 




ONLINE
43