Endurecer leis não basta
Endurecer leis não basta: a prevenção da violência de gênero precisa começar na infância
A insistência brasileira em acreditar que penas mais duras resolverão a violência contra mulheres revela uma falta de perspectiva estratégica.
A cada dia, o Brasil enterra mais uma mulher assassinada por alguém que dizia amá-la. Todos os anos, milhares de meninas atravessam silenciosamente as portas da escola carregando marcas, físicas ou emocionais, da violência sofrida dentro da própria casa. Ainda assim, mesmo diante desse cenário devastador, seguimos investindo quase exclusivamente em respostas penais: aumento de penas, projetos de lei punitivistas e discursos de endurecimento criminal, como se o agressor, antes de puxar o gatilho ou levantar a mão, parasse para calcular quantos anos poderia cumprir na prisão.
Essa lógica é falha, superficial e cruel. Ela ignora aquilo que a pesquisa “Livres para Sonhar? Percepções da comunidade escolar sobre violência contra meninas”, do Instituto Serenas, expõe com urgência: o problema não nasce no crime; nasce na cultura.
A insistência brasileira em acreditar que penas mais duras resolverão a violência contra mulheres revela uma falta de perspectiva estratégica. O feminicida não calcula sua pena; o agressor não faz contas; o abusador não pondera consequências jurídicas, porque a violência já foi normalizada nele desde a infância.
Ela foi aprendida na piada machista que ficou impune, na educação que poupou meninos de responsabilidades domésticas, na fala religiosa que ensinou a submissão feminina como vontade divina, na escola que nunca ensinou igualdade de gênero e na política que se recusa a discutir sexualidade, afeto, consentimento e respeito. Não existe neutralidade quando o assunto é educação para a igualdade: o silêncio também é uma escolha, e ele sempre favorece o agressor.
O Brasil ainda trata a violência contra meninas e mulheres como se cada agressor surgisse do nada, como se o feminicida acordasse violento apenas no dia do crime. Essa narrativa é confortável, mas falsa. A violência não explode no instante da agressão; ela é construída aos poucos, alimentada por séculos de desigualdade e por uma lógica profundamente arraigada que Pierre Bourdieu1 descreveu como dominação masculina¹, um sistema simbólico e histórico que naturaliza a superioridade masculina e organiza o mundo a partir desse eixo.
Essa estrutura cultural aparece cedo. O relatório “Ela já é mocinha: como meninas são privadas de brincar”, publicado pelo Portal Lunetas em 2025, mostra que nossas meninas, desde os primeiros anos, são ensinadas a serem cuidadoras, discretas e responsáveis, enquanto meninos são estimulados à autonomia, ao risco e ao protagonismo. Não é à toa que estudos internacionais, como “Girls Just Wanna Have Fun: A Research Incubator Project”, apontam que diferenças tão precoces no estímulo motor, afetivo e cognitivo influenciam profundamente o desenvolvimento emocional e social.
Esses padrões constituem o que chamamos de machismo estrutural: uma lógica que antecede escolhas individuais e molda subjetividades desde a tenra idade.
Para desmontá-lo, a educação precisa começar exatamente nesse período, quando crianças aprendem empatia, cooperação, convivência e limites. É nesta fase, justamente a mais negligenciada na formulação de políticas públicas, que se formam os modos de compreender frustração, poder e afetividade.
FONTE:






