Ensino de matemática

Ensino de matemática

Ensino de matemática: o que explica os baixos índices de aprendizagem de estudantes do RS? 

Estudos da OCDE e do Todos Pela Educação revelam desempenho dos estudantes gaúchos abaixo do adequado na disciplina

 

 

Ronaldo Bernardi / Agencia RBS
Pior média registrada no RS no Pisa 2025 foi em matemática.
Ronaldo Bernardi / Agencia RBS

 

 

A aprendizagem em matemática carrega um estigma de dificuldade que ultrapassa os muros de escolas em diferentes espaços geográficos. O desafio também está refletido em dados de estudantes do Rio Grande do Sul. 

No Programa Internacional de Avaliação de Estudantes (Pisa) 2025, o Estado ficou com pontuação semelhante à do Brasil. Matemática aparece como a mais baixa média entre as áreas acompanhadas. A pesquisa, que inclui ainda ciências e leitura, foi divulgada em setembro pela Organização para a Cooperação e o Desenvolvimento Econômico (OCDE). O Pisa mede conhecimentos e habilidades de jovens de 15 anos.  

RS x Brasil x OCDE 

  • Leitura: 413,5 x 408 x 474

  • Ciências: 411,4 x 409 x 488

  • Matemática: 378 x 377 x 453

Embora a tendência de pior resultado na avaliação em matemática se repita no cenário nacional e internacional, as pontuações de Brasil e RS ficaram abaixo das médias da OCDE, grupo que reúne 38 países. O Estado ficou com 378 na disciplina. Em ciências, a média dos alunos gaúchos foi 411,4, e em leitura, a média foi 413,5.

Sobre os números, a Secretaria da Educação do RS (Seduc) destacou que o Estado "ultrapassou a média nacional no Pisa 2025". Por meio de nota (leia na íntegra), a Seduc ressaltou ainda o resultado em relação aos demais Estados brasileiros. Na comparação, o RS figura entre os 10 mais bem colocados nas três áreas avaliadas. 

 

 

Contraste socioeconômico

Para incluir questões sociais à avaliação, pesquisadores do instituto Interdisciplinaridade e Evidências no Debate Educacional (Iede) propuseram um novo cálculo. A partir de dados como acesso à internet e escolaridade dos pais dos alunos, eles estimaram quais seriam as notas esperadas de cada Estado no Pisa considerando o aspecto socioeconômico. 

Levando esse fator em conta, o panorama ficaria um pouco diferente. A escala padronizada revela que a nota esperada em matemática dos alunos do RS seria 397. Ou seja, o Estado ficou 19 pontos abaixo do esperado na avaliação, com 378. Em leitura, no entanto, os alunos gaúchos superaram o resultado esperado, com 25,4 pontos a mais. Já em ciências, o RS ficou levemente acima do esperado (+0,5).

— O RS teve um resultado que não destoa muito do que seria esperado, dado o perfil socioeconômico dos alunos. O Estado segue a tendência nacional de ter um resultado mais desafiador em matemática, um pouco melhor em leitura e ciências, muito influenciado pelo nível socioeconômico — explica o diretor-fundador do Iede, Ernesto Martins Faria.

O levantamento utiliza o índice ESCS (index of socio-economic status) para avaliar se os estudantes obtiveram médias superiores às esperadas considerando o nível socioeconômico da amostra da pesquisa. 

Nesse cálculo, o Paraná é destaque entre os Estados brasileiros, com 462 pontos em ciências, 458 em leitura e 423 pontos em matemática, todos acima do esperado para a amostra. Conforme o levantamento do Iede, além do RS, outros 20 Estados ficaram abaixo do esperado em matemática.

— O Pisa mostra que para a garantia de habilidades mais complexas, o Brasil não tem conseguido fazer com que a escola compense as desvantagens de fora do ambiente escolar. Estados que atendem alunos de mais alto nível socioeconômico tendem a se sobressair, como no Sul e Sudeste. Isso demonstra a dificuldade que temos de compensar as desvantagens socioeconômicas — pondera Faria.

Na visão da secretária-adjunta da Educação do RS, Stefanie Eskereski, ainda há um longo caminho pela frente em termos de equidade, mas os números do RS mostram avanços:

— O nosso trabalho está conseguindo acessar as camadas mais vulneráveis da população e começando a mantê-los na escola. Quando olhamos o histórico do Estado, com as nossas taxas de aprovação melhorando, nosso abandono reduzindo, vemos que estamos conseguindo manter esses estudantes na escola e garantir que aprendam cada vez mais. Os dados, apesar de ainda serem preocupantes, mostram uma evolução e um caminho positivo que estamos seguindo.

Aprendizagem abaixo da adequada 

O baixo índice de aprendizagem em matemática dos estudantes gaúchos também aparece nas estatísticas do Anuário Brasileiro da Educação Básica 2026, divulgado também em setembro pelo Todos Pela Educação. Os dados abrangem estudantes da rede pública:

Matemática

  • Ensino Médio: 41,3% abaixo do básico, 18,1% com aprendizagem adequada

  • Anos Finais: 19,2% abaixo do básico, 28,8% com aprendizagem adequada

  • Anos Iniciais: 12,3% abaixo do básico, 57,5% com aprendizagem adequada

Língua Portuguesa

  • Ensino Médio – 16,2% abaixo do básico, 53,4% com aprendizagem adequada

  • Anos Finais – 8,8% abaixo do básico, 51,8% com aprendizagem adequada

  • Anos Iniciais – 7,4% abaixo do básico, 67,7% com aprendizagem adequada

As classificações dizem respeito ao nível de aprendizagem. No caso daqueles com aprendizagem adequada, o estudante aprendeu aquilo que era esperado para aquela etapa. O nível básico é quando o estudante aprendeu, mas não tudo o que era esperado. Os que estão abaixo do básico ficaram muito abaixo do esperado.

Nesse nível, a aprendizagem necessária para a etapa praticamente não aconteceu. Com isso, o adolescente acaba tendo dificuldade para completar tarefas simples, como de multiplicação e divisão, porcentagem e conversão entre unidades. Isso pode acarretar problemas na vida cotidiana, como organizar a vida financeira.

Os números mostram que as lacunas de aprendizagem vão aumentando com o passar dos anos da trajetória escolar. Para o gerente de políticas educacionais do Todos Pela Educação, Ivan Gontijo, os dados demonstram a necessidade de ações de acompanhamento:

— Temos números preocupantes. Por isso, é importante avançar nas políticas de recomposição de aprendizagem, que aceleram a aprendizagem de alunos que estão mais para trás — ressaltou.

A secretária-adjunta observa que diferentes iniciativas do governo estadual vêm contribuindo para reduzir as lacunas de aprendizagem, como o Alfabetiza Tchê, focado em melhorias na alfabetização, e o Aprende Mais, programa de recomposição de aprendizagens. 

— Estamos reduzindo a distorção idade-série e aumentando as taxas de aprovação, ou seja, aumentando a fixação no Ensino Médio e melhorando a aprendizagem. Ainda que a gente saiba que temos esses estudantes com defasagens, que a gente precisa trabalhar ao longo de todo o Ensino Médio para conseguir recompor essa aprendizagem que vem de uma defasagem acumulada ao longo de todo o Ensino Fundamental — destaca. 

O levantamento do Todos Pela Educação é feito anualmente com base em números do Censo Escolar, do Indicador Criança Alfabetizada e do Sistema de Avaliação da Educação Básica (Saeb), do Instituto Nacional de Estudos e Pesquisas Educacionais Anísio Teixeira (Inep). Os dados são referentes a 2025.

Experiência escolar

Apesar dos desafios, os alunos gaúchos apresentaram índices superiores à média nacional. Em 2025, apenas 8,5% dos estudantes da rede pública no país concluíram o Ensino Médio com aprendizagem adequada em matemática. Nos Anos Finais, somente 18,8%. O RS supera ambos os resultados em 10 pontos percentuais.

A diretora executiva do Instituto Reúna, Katia Smole, explica que nem sempre os avanços do Saeb se refletem no Pisa, uma vez que a avaliação internacional é um exame à parte, que mede a capacidade dos alunos de aplicar conhecimentos em situações novas e resolução de problemas. Para ela, o desempenho do RS indica espaço para melhorar. 

— O país, como um todo, vai muito mal em matemática, e a gente consegue ver isso nos dados, seja no Pisa ou no Saeb. O país começa a reagir quando a gente cria o Compromisso Nacional Toda Matemática. Esse compromisso é recente e ele precisa continuar. E a força dele vem também quando os governos estaduais começam a propor ações para implementar — destaca.

Segundo Katia, para solucionar o problema, não basta apenas recompor conteúdo: é preciso transformar a experiência escolar dos adolescentes. A escola precisa ser mais atrativa e considerar interesses dos jovens, como tecnologia e projetos. Isso envolve a ampliação da política de tempo integral e preparo dos professores:

— Não dá para achar que eu vou aprender matemática no 5º e 9º ano, os anos de Saeb. Fazer a formação dos professores, escolher bem os materiais didáticos e apoiar os professores para que conheçam o currículo gaúcho ano a ano é fundamental. Se eu não garanto que no 1º ano as crianças aprendam, elas já levam defasagens para o 2º ano, e romper esse ciclo de fracasso escolar é muito desafiador.

Outra estratégia é trabalhar de forma conjunta alfabetização matemática e alfabetização em língua portuguesa. Conforme a especialista, assim, as crianças se alfabetizam mais rápido e aprendem matemática na idade certa. 

O que diz a Seduc sobre o Pisa

O Rio Grande do Sul ultrapassou a média nacional no Pisa 2025, situando-se entre os dez melhores estados brasileiros nas três áreas avaliadas. Os dados, divulgados no início de setembro, são resultado do maior estudo internacional sobre educação, que mede a aprendizagem de estudantes de 15 anos em matemática, ciências e leitura. 

Coordenado pela OCDE (Organização para a Cooperação e Desenvolvimento Econômico), a avaliação é realizada a cada três anos, estabelecendo indicadores que permitem comparar o desempenho educacional entre diferentes países e economias. A faixa etária dos 15 anos serve de referência porque, ao redor do mundo, é a idade em que se pressupõe o fim da educação escolar básica.  

Além disso, pela primeira vez, os resultados do Pisa foram desagregados de forma completa, o que permite uma análise direta entre os 26 estados brasileiros e o Distrito Federal.

Na comparação nacional, o RS alcançou o 8º lugar em Ciências, com 411,4 pontos, acima da média nacional de 409 pontos. Em Leitura, o Estado obteve 413,5 pontos, diante de 408 da média brasileira, e registrou o 7º posto na comparação. Por fim, em Matemática, o resultado gaúcho foi de 378 pontos, superando também a média de 377 pontos do Brasil, e ficando na 8ª posição.  

Em um cenário hipotético, considerando um contexto internacional, o RS, além de superar o Brasil, estaria entre o top 10 da América Latina, pontuando acima de países como Argentina e Equador nas três áreas. 

Outro destaque é que o Estado possui uma proporção de alunos resilientes – ou seja, de estudantes mais pobres, de baixo nível socioeconômico, mas que conquistaram alto desempenho na avaliação – maior do que a média da própria OCDE em Ciência  (14,2% x 11,9%), Matemática (12,9% x 11,8%) e Leitura (13,3% x 13,1%).  

No aspecto da equidade educacional, os dados demonstraram ainda que o RS apresenta uma menor desigualdade socioeconômica em relação à média nacional em todas as áreas avaliadas pelas provas do Pisa 2025. Para chegar a esses resultados, a avaliação utiliza uma metodologia contextual, levando em consideração a realidade prática dos estudantes, como a escolaridade dos pais e os recursos financeiros." 

 

FONTE:

https://gauchazh.clicrbs.com.br/educacao/educacao-basica/noticia/2026/09/aspectos-sociais-defasagem-acumulada-experiencia-escolar-o-que-explica-os-baixos-indices-de-aprendizagem-em-matematica-no-rs-cmue1m2bd00t2013eoqcnevwv.html

 

 




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