Entre o racismo e o machismo
Entre o racismo e o machismo: o desafio da escola e da luta sindical do Sintepp
A educação antirracista não pode ser tratada como um tema secundário dentro da escola. Ela é, antes de tudo, um compromisso com a vida, com a justiça social e com a formação de cidadãos críticos. Quando a escola silencia diante das desigualdades, acaba contribuindo para que as violências da sociedade continuem se reproduzindo dentro e fora de seus muros.
No Brasil, a violência contra a mulher não pode ser compreendida apenas como uma questão de gênero; ela também tem cor, classe e território. Os dados oficiais mais recentes revelam que a violência de gênero no país é atravessada por uma profunda desigualdade racial. De acordo com o Atlas da Violência 2025 e o Anuário Brasileiro de Segurança Pública, as mulheres negras representam a maioria absoluta das vítimas de feminicídio, totalizando 62,6% dos casos registrados.
Enquanto os índices de homicídio entre mulheres não negras apresentam uma tendência de queda de aproximadamente 2%, a letalidade contra mulheres negras seguiu o caminho inverso, registrando um aumento de 2,4%. Esse cenário evidencia que uma mulher negra tem quase o dobro de chance de ser morta em comparação a uma mulher branca, com uma taxa de mortalidade de 4,3 por 100 mil habitantes.
Além da violência letal, a vulnerabilidade se estende a outras formas de agressão. Segundo o relatório “Elas Vivem” (2025), mais de 55% das vítimas de violência sexual no Brasil são pretas ou pardas, com uma incidência alarmante em territórios periféricos onde o acesso a mecanismos de proteção, como as Delegacias Especializadas de Atendimento à Mulher (DEAMs), é mais escasso.
A eficácia das Medidas Protetivas de Urgência também é menor para esse grupo: apenas 13,1% das vítimas de feminicídio negro possuíam o documento ativo, indicando que o racismo estrutural e a vulnerabilidade socioeconômica dificultam tanto a denúncia quanto a proteção efetiva do Estado.

O Papel da Escola e o Enfrentamento Necessário
Essa realidade escancara que o machismo atua lado a lado com o racismo estrutural. Por isso, a escola precisa ter coragem de enfrentar perguntas fundamentais: como o racismo impacta a vida das meninas negras? Por que seus corpos são historicamente hipersexualizados? Que tipo de masculinidade estamos formando dentro das salas de aula?
O racismo estrutural abrevia a infância de meninas negras por meio da “adultização”, negando-lhes o direito à fragilidade. No ambiente escolar, o sistema de proteção frequentemente falha com elas ao priorizar o acolhimento de corpos lidos como “ideais” — geralmente brancos —, enquanto estudantes negras são mais sujeitas a medidas disciplinares rígidas e ao isolamento pedagógico. Ao mesmo tempo, as salas de aula muitas vezes reproduzem uma masculinidade hegemônica e tóxica, que associa o ser homem ao domínio e à agressividade.
Educar para a igualdade racial e de gênero é assumir o compromisso de enfrentar o racismo e o machismo estrutural, conforme estabelecem as Leis 10.639/2003, 11.645/2008, a Constituição Federal e a LDB. O combate ao racismo e ao machismo não pode acontecer de forma separada, pois essas opressões se entrelaçam.
O Compromisso do Sintepp
Nesse processo, o Sintepp, com uma base majoritariamente feminina, tem a responsabilidade histórica de cobrar do poder público o desenvolvimento de políticas educacionais que enfrentem essas violências. Isso passa pela defesa da formação continuada, pela implementação efetiva das legislações étnico-raciais e de igualdade de gênero no currículo escolar e pela construção de políticas públicas de proteção e financiamento que garanta a efetivação dessas ações.
Como forma de fortalecer a militância negra e feminina, o sindicato promove continuamente formações políticas com recorte de gênero e raça, além de dispor de um corpo jurídico feminino especializado para o acolhimento técnico e psicológico das trabalhadoras. A paridade obrigatória e a atuação estratégica das Secretarias de Igualdade Racial e de Mulheres garantem que a diretoria reflita fielmente a realidade de sua base.
Convocação à Luta
Diante deste cenário, convocamos toda a categoria a se somar ativamente à luta antirracista e pela igualdade de gênero. Não basta não sermos racistas ou machistas; precisamos ser antirracistas e antimachistas em nossa prática pedagógica e sindical.
Nossa união é a ferramenta mais poderosa para transformar a escola em um território de liberdade e segurança para todas as mulheres e meninas. Sindicalize-se, participe das formações e ajude o Sintepp a construir uma educação que não apenas ensine, mas que liberte e proteja a vida em toda a sua diversidade. A luta por uma educação pública de qualidade é, inseparavelmente, a luta contra todas as formas de opressão!
André Silva Secretaria Étnico-Racial – SINTEPP
Robson Bastos Coordenador de Comunicação – SINTEPP
FONTE:




