Erros de Português

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A secretária executiva de Comunicação da APP-Sindicato, Cláudia Gruber, faz uma reflexão do Dia dos Povos Indígenas vinculada à literatura


Imagem: Reprodução

 

No artigo, Cláudia Gruber faz uma viagem ao túnel do tempo entrelaçando o Dia dos Povos Indígenas à literatura com vários clássicos nacionais. Ela costura  a história e a literatura, traçando um paralelo entre ficção e realidade, começando pela carta do descobrimento de Pero Vaz de Caminha  até chegar ao Modernismo de Oswald de Andrade, com questionamentos dos erros de português à liberdade da licença poética.

Professora da rede estadual e mestra em Estudos Literários (UFPR), Cláudia nos convida a enxergar além da superfície: onde alguns detectam os “erros de português”, ela revela camadas de uma fartura literária ímpar e necessária para entender nossa identidade.

Artigo: Erros de Português

Para este 19 de abril, que tal falarmos também um pouco sobre literatura? 

Os povos indígenas sempre estiveram presentes em nossa literatura desde a carta do descobrimento: “Eram pardos, todos nus, sem coisa alguma que lhes cobrisse suas vergonhas. Nas mãos traziam arcos com suas setas. Vinham todos rijos sobre o batel; e Nicolau Coelho lhes fez sinal que pousassem os arcos. E eles os pousaram.” (Caminha,1500, grifos nossos), passando pelo Arcadismo (1768-1836) onde começam a ter contornos épicos em obras como O Uraguay (Basílio da Gama) e Caramuru (Santa Rita Durão).

Mas, foi no Romantismo (1836-1881), sobretudo na fase indianista,  que houve uma  maior apropriação dos mesmos. Nesta escola literária, são personagens de obras que se tornaram clássicos como: IracemaO Guarani e Ubirajara, de José de Alencar e I-Juca Pirama, de Gonçalves Dias. Muito embora, tornem-se protagonistas, a maneira com que são retratados é completamente idealizada a partir da teoria do “bom selvagem” de Rousseau, colocando-os lado a lado com os cavaleiros medievais europeus como podemos ver nesta breve descrição de Peri, em O Guarani:  “Estendeu o braço e fez com a mão um gesto de rei, que rei das florestas ele era, intimando aos cavaleiros que continuassem a sua marcha.” (Alencar, 1996, p.15, grifos nossos)

Já no Realismo-Naturalismo e no Pré-Modernismo, deixam de ser protagonistas e se tornam figurantes, retratados de maneira determinista, sempre associados à degeneração da raça, atraso cultural ou passivos diante da natureza e do meio. 

O resgate da temática de forma positivada vem com o Modernismo, a partir da Semana de Arte  Moderna (São Paulo, Teatro Municipal, dias 13, 15 e 17 de fevereiro de 1922). Durante as três noites do evento, artistas e intelectuais apresentaram a um público perplexo, suas visões de mundo a partir de elementos revolucionários na forma de se fazer arte. Depois disso, o que se viu foi uma explosão de criatividade em todos os campos artísticos brasileiros, embora ainda pautada pelos princípios das Vanguardas Europeias.  

O grande responsável por essa quebra de paradigmas culturais e também pela realização da SAM foi o famoso Grupo dos Cinco: Mário de Andrade, Oswald de Andrade, Anita Malfatti, Tarsila do Amaral e Menotti del Picchia, que buscava criar uma verdadeira arte nacional.    

Na literatura, algumas características tornaram-se uma constante:  informalidade, coloquialidade, ironia, humor, liberdade de escrita, nacionalismo crítico, experimentação estética, são algumas e Oswald de Andrade foi fiel a elas, criando inclusive o chamado Movimento Antropofágico, junto com Tarsila do Amaral e Raul Bopp. Inspirando-se nos rituais de canibalismo dos Tupinambás,  a ideia central do movimento consistia  em devorar metaforicamente a cultura europeia, deglutindo-a com elementos locais e a regurgitando numa nova cultura cheia de brasilidade. Assim surgem obras consagradas como Abaporu Urutu, ambos pintados por Tarsila em 1928. 

Já Oswald veio na toada poética e erro de português, poema escrito em 1925,  aparece no segundo livro do autor:  Primeiro caderno de Poesia do aluno Oswald de Andrade (1927) e traz para o leitor algumas das principais características da primeira fase do Modernismo como a releitura do país e a ironia. 

Quando o português chegou
Debaixo duma bruta chuva
Vestiu o índio
Que pena!
Fosse uma manhã de sol
O índio tinha despido
O português.

De uma aparente simplicidade e economia gramatical, há diversas camadas neste pequeno texto que demonstram uma fartura literária ímpar. Formalmente temos uma estrofe única, com sete versos (septilha), todos eles brancos (sem rimas).  Quanto ao vocabulário, muitos substantivos e adjetivos, poucos verbos mas, que se confrontam – vestir e despir – e é a partir dessa oposição que todo o poema se desdobra.

Os três primeiros versos remetem a um fato histórico: o descobrimento do Brasil (quando o português chegou).  Ao atribuir a chegada dos português a uma condição climática específica (debaixo de uma baita chuva), além de caracterizar a chegada do hemisfério norte para cá, sempre associado ao frio e tempo nublado, traz também a perspectiva do colonizador com relação a visão que estes tiveram dos povos originários, ao buscar vesti-los, ou seja, oprimi-los, primeiro pela vestimenta e depois pela cultura (vestiu o índio).  A vestimenta aqui não tem apenas a função de cobrir corpos nus mas, de doutriná-los e deixar à mostra a suposta preguiça e languidade atribuídas a quem vive numa região tropical, que supostamente seria bem mais atrasada que a Europa. Por isso, é necessário vesti-los e fazê-los produzir, abrir mão de suas crenças e valores, submetendo-os aos novos e “legítimos” donos da terra (des)coberta. Cobertos, os índios deixam de despertar desejos e se tornam apenas seres explorados, sem alma, sem eira nem beira.    

Diante da história oficial contada até aqui, o eu-lírico faz um desabafo (Que pena!) e sugere uma inversão da história ao apresentar uma nova condição climática (fosse uma manhã de sol) que mudaria os rumos da história, uma vez que o despir inverteria o papel do colonizado para colonizador, destacando aqui a ideia motriz do movimento antropofágico idealizado pelo poeta, que como já dissemos, é o devorar a cultura estrangeira para criar uma verdadeira arte brasileira. Mas, essa suposição vai muito além dos aspectos culturais e artísticos, pois remeteria a uma guinada histórica no processo colonizatório, onde o branco sucumbiria ao povo originário e todo processo histórico teria outros rumos. 

Talvez seja por esse motivo que o poeta usou de ambiguidade no título – erro de português – que, num primeiro momento, estaria associado ao uso da norma culta da língua mas, que também pode ser interpretado como o erro cometido contra os habitantes originários ao lhes impor, à força, outra cultura.  Ao utilizar do recurso da ambiguidade, abre-se um leque de possibilidades interpretativas para o leitor e este faz as associações que lhe parecerem mais acertadas, independente de quais sejam.   

Importante frisar que o povo indígena, neste período literário, foi sempre utilizado como elemento estético e ideológico no intuito da criação da tão desejada arte nacional. Permanecendo sempre a visão colonizadora e a comparação entre homens naturais/ primitivos e homens urbanizados e por isso suas vozes não tiveram eco, permanecendo apenas no mundo hipotético do eu-lírico: o índio teria despido o português. 

Agora, historicizemos um pouco a vestimenta dada pelos portugueses para os índios. A realidade dos verdadeiros donos da terra foi e continua sendo outra:  escravizados, mortos e banidos de seus territórios, sendo vítimas de um “despovoamento” constante desde 1500. Segundo o IBGE (instituto Brasileiro de Geografia e Estatística), nesta época, haveria em torno de  8 a 10 milhões de habitantes originários espalhados por todo o território, com  mais de 1.000 etnias distintas, falando também 1.000 idiomas diferentes, com uma grande diversidade cultural que acabou se vendo reduzida drasticamente devido a fatores como: doenças vindas do colonizador, conflitos por terras e escravidão. 

Durante o período colonial, era como se esses povos não tivessem existido oficialmente pois, as primeiras políticas voltadas para os povos indígenas são datadas de 1845,  pelo Decreto Imperial que estabelece o Regulamento acerca das Missões de catequese e civilização dos índios. Nele, estão fixadas as dinâmicas de controle interno das terras ocupadas pelos indígenas e a necessidade constante de “catequizar e  civilizar os índios”, com o suposto intuito de colocá-los no mercado de trabalho. 

Mais tarde, já na República Café-com Leite, é criado, em 1910, o Serviço de Proteção ao Índio (SPI). Projeto este liderado pelo Marechal Cândido Rondon que teria como foco primeiro a proteção dos povos indígenas mas, ainda os mantinha sob tutela do estado. O órgão atuou por 57 anos, realizando inúmeras expedições  de reconhecimento pelo território nacional, também colecionou casos de corrupção, abuso, negligência, violência e atrocidades cometidas contra seus tutelados. 

Durante a Ditadura Militar surge a Fundação Nacional do Índio (Funai) em 1967 para tentar remediar os erros cometidos pelo SPI mas, acabou por reproduzir e aumentar tais erros, já que era comandada por militares que tinham uma visão de inferioridade dos povos originários, além da sanha e crueldade praticada contra os mesmos. 

Com a Constituição Cidadã, de 1988, ocorrem reformas nas políticas indigenistas e projetos voltados à proteção, saúde, educação, inclusão, habitação, dentre outros que começam a ser desenvolvidos; acabando com a visão de tutelar os povos originários. Mesmo com tais mudanças, os problemas continuaram se avolumando, já que  interesses ruralistas e econômicos impediram e impedem até hoje que reparações históricas sejam feitas. Um trágico exemplo de tais interesses foi a tragédia ocorrida com os ianomâmis entre 2019 e 2022 quando mais de 500 crianças morreram de fome ou por doenças que poderiam ter sido tratadas, caso o (des)governo da época tivesse cumprido minimamente seu papel e houvesse barrado o garimpo ilegal naquelas terras.  

A Funai sofreu mudanças estruturais profundas até 2023, quando passou a ser vinculada ao Ministério dos Povos Indígenas, agora com o nome de Fundação Nacional dos Povos Indígenas. Havia uma grande expectativa que questões como a do “marco temporal” fossem resolvidas mas, pouca coisa mudou já que as disputas políticas e as múltiplas violências continuam e estão longe de acabar.  

Atualmente, segundo dados do Censo 2022, temos 1.693.535 pessoas indígenas, o que representa 0,83% da população total do país, concentradas sobretudo nas regiões Norte e Nordeste do país, com 391 etnias e 295 línguas faladas. Apesar de haver uma maior autodeclaração racial, sobretudo nas áreas urbanas, a redução populacional  dos povos originários é preocupante e neste 19 de abril, há muito pouco o que se comemorar. Ao contrário, há muito ainda para se lutar. 

Poderíamos começar então imaginando como seria esse Brasil caso tivesse sido uma manhã de sol, como sugeriu Oswald de Andrade?  

Cláudia Gruber, secretária executiva de Comunicação da APP-Sindicato, professora de Língua Portuguesa e mestra em Estudos Literários pela Universidade Federal do Paraná (UFPR).

REFERÊNCIAS BIBLIOGRÁFICAS:

ALENCAR, José de. O guarani. 20ª ed., São Paulo: Ática, 1996.

ANDRADE, Oswald de. Primeiro caderno do alumno de poesia Oswald de Andrade. 
São Paulo: Companhia das Letras, 2018. 

CAMINHA, Pero Vaz de. Carta a el-rei D. Manuel sobre o achamento do Brasil. 
Porto Seguro, 1º maio de 1


FONTE:
https://appsindicato.org.br/artigo-erros-de-portugues/




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