Escola que os Governos Receiam

Singapura II
A Escola Que a Madeira Merece e os Governos Receiam
Se a Madeira quisesse beber alguma coisa do sistema educativo de Singapura, e poderia fazê-lo, começaria por desistir desta vaidade provinciana de achar que o futuro se compra em caixotes, tablets embrulhados, computadores distribuídos, plataformas baptizadas e fotografias de crianças diante de ecrãs, todas muito direitinhas, todas muito modernas, todas muito úteis para o jornal do dia seguinte.
Não copiaria Singapura, porque copiar é a ambição dos maus alunos e a consolação dos governantes sem imaginação. Não anunciaria, com aquele ar grave de quem acabou de descobrir a roda, que adaptou o modelo singapurense por ter colocado uns aparelhos nas mãos dos alunos e por ter repetido a palavra inovação com a mesma fé com que antigamente se repetia uma ladainha. Faria uma coisa muito mais perigosa, mais rara, quase subversiva: estudaria. Estudaria de verdade. Perceberia o que há ali de disciplina, de coerência, de exigência, de continuidade, de selecção, de método, de Estado. E depois teria a humildade, essa virtude que nunca dá votos nem inaugurações, de confessar que a Madeira é uma ilha no Atlântico, com a sua história, as suas escolas, os seus professores, as suas fragilidades, os seus progressos e as suas vaidades, e que Singapura é outra coisa, uma cidade-estado que fez da educação a sua forma de sobrevivência. Mas a política prefere o brilho da comparação ao trabalho da adaptação. É mais barato. E dá melhores frases.
O primeiro princípio seria tão simples que, por isso mesmo, dificilmente resistiria ao primeiro embate com uma reunião de gabinete: os professores seriam o centro do sistema. Não as salas do futuro, esse nome de feira tecnológica aplicado a divisões em que, muitas vezes, falta o essencial. Não os manuais digitais, esses santos electrónicos da pedagogia oficial, perante os quais se ajoelham secretários, directores e comunicados. Não as plataformas, não os painéis, não os projectos-piloto, não os ecrãs inteligentes, não os relatórios cheios de adjectivos, não as conferências onde tudo está sempre em consolidação, em aprofundamento, em transição, em articulação, como se o ensino fosse uma doença burocrática tratada com advérbios. Os professores.
Em Singapura, a profissão docente é tratada como uma peça estratégica. Escolhem-se candidatos bons, fortes, preparados, capazes de pensar, de falar, de ensinar, de aguentar uma turma sem se desfazerem em fórmulas feitas. Na Madeira, aprender com Singapura significaria transformar o professor no investimento principal da Região, não no figurante de cerimónias onde lhe agradecem muito, lhe prometem tudo e depois o deixam a preencher papéis, resolver problemas sociais, fazer de psicólogo, assistente social, técnico informático, animador cultural e, nas horas vagas, professor.
Isto obrigaria a uma reforma séria da carreira docente. Séria, digo eu, naquele sentido antigo, quase arqueológico, em que uma coisa séria não era uma apresentação com setas azuis, fotografias de miúdos sorridentes e uma frase em inglês no canto inferior direito. A carreira deixaria de ser apenas uma escada que se sobe com tempo, paciência, resignação e uma capacidade quase monástica de suportar a papelada. Teria percursos distintos. Um percurso para os grandes professores de sala de aula, aqueles que sabem transformar uma matéria difícil numa evidência, uma turma indiferente numa comunidade, uma criança insegura numa inteligência desperta. Um percurso para líderes escolares, escolhidos pela competência e não pela aptidão, tão apreciada entre nós, para estar bem com todos sem servir verdadeiramente ninguém. Um percurso para especialistas em modelos currículares, investigação, avaliação e inovação pedagógica, não inovação de catálogo, não inovação de feira, não inovação de tablet, mas a outra, a que muda a forma como se aprende.
Em Singapura esta diferenciação existe porque alguém percebeu que nem todo o bom professor deve ser director, nem todo o director é pedagogo, nem todo o especialista deve andar preso a funções que não servem o seu talento. Na Madeira, tal ideia introduziria no sistema uma perturbação grave: o mérito. E o mérito, como se sabe, é sempre muito elogiado em abstracto e cuidadosamente evitado quando se começa a escolher pessoas concretas.
Depois viria a pedagogia, essa palavra tão maltratada que devia pedir indemnização. Singapura percebeu que ensinar mais não significa ensinar melhor. Entre nós, isto ainda parece uma heresia dita à porta da igreja. O nosso instinto administrativo é acrescentar. Acrescenta-se uma disciplina, uma actividade, um programa, uma ficha, uma grelha, uma reunião, um plano, uma estratégia, um documento, uma missão, um plano estratégico, uma comissão, uma subcomissão e, quando a escola já mal consegue respirar debaixo desse entulho virtuoso, anuncia-se uma simplificação. A Madeira deveria levar a sério a ideia de ensinar menos para aprender mais. Menos matéria despejada. Mais compreensão. Menos enchimento. Mais profundidade. Menos memorização obediente. Mais raciocínio. Um aluno deveria sair da escola sabendo ler um texto sem tropeçar em cada frase, escrever sem assassinar a língua, fazer contas sem pedir desculpa à calculadora, distinguir um facto de uma opinião, perceber a História sem a reduzir a datas, compreender a ciência sem a transformar em catecismo e olhar para a tecnologia sem se ajoelhar diante dela como se cada ecrã fosse uma aparição. Mas isto é antiquado, dirão. Antiquíssimo. Tão antiquado como saber pensar.
A Escola a Tempo Inteiro teria de ser revista sem piedade sentimental. Teve utilidade social, sim. Ajudou famílias, sim. Deu resposta a uma necessidade real, sim. Mas uma escola não melhora automaticamente por reter crianças por mais tempo. Também se pode guardar uma mala numa arrecadação o dia inteiro e, nem por isso, ela aprende francês. A escola não deve ser um depósito de infância com vigilância pedagógica. Se as crianças chegam ao fim da tarde cansadas, irritadas, dispersas, pequenas almas exaustas a bater com lápis nas mesas como prisioneiros brandos de uma boa intenção mal medida, talvez o problema não esteja na falta de mais uma actividade, mas no excesso de permanência. Um sistema inspirado no melhor de Singapura organizaria o tempo escolar com inteligência. Menos ocupação. Mais aprendizagem. Menos barulho. Mais concentração. Menos entretenimento educativo. Mais estudo. A escola não existe para preencher o dia dos adultos através do corpo das crianças. Existe para formar pessoas. Esta afirmação, de tão elementar, tornou-se quase revolucionária.
A autonomia das escolas seria outro ponto essencial, embora perigoso, porque a palavra autonomia assusta sempre quem a pronuncia apenas para ficar bem. As escolas madeirenses deveriam ter liberdade real para organizar métodos, projectos, horários, apoios, parcerias e respostas. Uma escola no Funchal não vive o mesmo mundo que uma escola no Porto Moniz, em Santana, na Calheta ou no Curral das Freiras. A ilha é pequena, mas não é uniforme. Quem a trata como uniforme não a conhece ou prefere não conhecê-la. Mas a liberdade teria de vir acompanhada de responsabilidade. Resultados avaliados. Dados públicos. Indicadores claros. Comparações justas. Avaliação independente. Não rankings de feira, não humilhação pública, não castigo burocrático, mas conhecimento. Saber que escola melhora. Saber que escola estagna. Saber que escola precisa de apoio. Saber que direcção funciona. Saber que política falhou. Autonomia sem avaliação é fantasia. Avaliação sem autonomia é polícia. O difícil é juntar as duas.
A tecnologia teria de ser retirada do altar onde a colocaram, com incenso digital e hinos à modernidade. Na Madeira, os manuais digitais foram apresentados como se Moisés tivesse descido do Pico do Areeiro com duas tábuas Samsung debaixo do braço, e nelas viesse escrito, em letras luminosas, o futuro da educação regional. Distribuíram-se equipamentos. Criaram-se plataformas. Instalaram-se filtros. Definiram-se perfis. Bloquearam-se jogos. Vigiaram-se acessos. Fez-se tudo aquilo que dá a uma administração a reconfortante sensação de estar a governar o futuro, porque conseguiu configurar o presente. Mas depois vem a pergunta desagradável, aquela pergunta pequena e venenosa que arruína tantos discursos: os alunos aprendem mais?
Um sistema inspirado em Singapura usaria a tecnologia como ferramenta, não como relíquia. As crianças deviam ler em papel, escrever à mão, desenhar, falar, ouvir, contar, recortar, mexer, errar, repetir, memorizar, adquirir linguagem, atenção, coordenação e paciência. A tecnologia entraria mais tarde, com objectivos claros, professores preparados, critérios de uso e de avaliação dos efeitos. Uma escola não se mede pelo número de ecrãs. Mede-se pelo que os alunos sabem fazer quando o ecrã se apaga.
Na inclusão, poderíamos aprender muito sem fingir que já descobrimos tudo. Já há equipas, centros, programas, legislação e siglas suficientes para que uma criança com dificuldades se perca antes mesmo de ser ajudada. Mas a questão não é a quantidade de dispositivos legais. É a capacidade concreta de ver o aluno antes de o transformar num processo. Cada escola deveria ter equipas multidisciplinares estáveis, com psicólogos, terapeutas, especialistas em dificuldades de aprendizagem, técnicos de intervenção social, orientadores vocacionais e profissionais preparados para acompanhar alunos reais, com famílias reais, dores reais, atrasos reais, talentos reais. Não mais uma camada de relatórios sobre a criança que ninguém tem tempo de ouvir. Intervenção precoce. Apoio próximo. Acompanhamento contínuo. E, ao mesmo tempo, programas exigentes para alunos com talento excepcional, porque a justiça educativa não consiste em fingir que todos precisam da mesma coisa. Consiste em dar mais a quem precisa de mais e em desafiar quem pode ir mais longe. Mas a excelência, entre nós, anda, muitas vezes, envergonhada, como se pedir mais a quem pode mais fosse uma indelicadeza social.
A ligação entre educação e economia regional teria de deixar de ser uma frase bonita em documentos estratégicos e passar a ser um trabalho quotidiano. Singapura percebeu que a educação é a base da economia. A Madeira repete que precisa de qualificações com a mesma convicção com que se repetem slogans em fim de campanha. As escolas secundárias e profissionais deveriam estar ligadas ao mar, à energia, à agricultura inteligente, à saúde, ao envelhecimento, ao turismo de valor acrescentado, às indústrias criativas, à programação, à inteligência artificial, à biotecnologia, ao ambiente, à cultura. Os alunos deveriam conhecer empresas, oficinas, laboratórios, bibliotecas, teatros, quintas, centros de investigação, unidades hoteleiras, projectos sociais, instituições públicas. Deviam ver o mundo antes de serem despejados nele. Deviam perceber que estudar não serve apenas para passar de ano, mas é essa pequena vitória burocrática que tantas vezes substitui a verdadeira aprendizagem. Serve para ganhar instrumentos. Para escolher. Para não ficar dependente da bondade do primeiro patrão, do primeiro partido, do primeiro favor.
O ensino profissional teria de deixar de ser tratado como a cave social do sistema, o fundo do elevador, para onde descem os que não subiram pela escada dita nobre. Essa distinção, tão persistente, é uma das vaidades mais tolas de uma sociedade que adora diplomas e despreza competências até precisar delas. Um modelo sério criaria vias profissionais de excelência, com laboratórios modernos, professores especializados, empresas envolvidas, exigência técnica e possibilidade de prosseguimento de estudos. Um bom técnico vale mais para a Região do que dez licenciados decorativos produzidos para engrossar estatísticas e alimentar expectativas que depois ninguém cumpre. Mas isto ainda custa a dizer, porque há muita fantasia de classe média pendurada na ideia de que um diploma, por si só, salva uma vida. Não salva. Às vezes apenas adia a desilusão.
A avaliação dos alunos também teria de mudar, não para cair na puerilidade de abolir exames, como quem acredita que a febre desaparece ao partir o termómetro, mas para avaliar melhor. Exames, sim. Avaliação contínua, sim. Projectos, sim. Oralidade, sim. Escrita argumentativa, sim. Resolução de problemas, sim.
Trabalho experimental, sim. A escola deve avaliar aquilo que diz valorizar. Se fala em pensamento crítico e, depois, só recompensa a repetição obediente, mente. Se fala em criatividade e depois castiga tudo o que não está previsto na grelha, mente. Se fala em autonomia e, depois, organiza o aluno como um passageiro sentado, calado, transportado de disciplina em disciplina, mente. O problema da avaliação não é existir. O problema é existir mal, tarde, de forma opaca e burocrática, frequentemente mais preocupada em proteger o sistema do que em conhecer o aluno.
E haveria, finalmente, uma política séria para a liderança escolar. Directores escolhidos pela competência pedagógica e organizacional, não pela simples capacidade de atravessar anos lectivos sem incendiar demasiadas relações. Formação obrigatória. Mandatos avaliados. Objectivos claros. Equipas com autoridade real. Uma escola depende brutalmente de quem a dirige. Um mau director transforma professores vivos em funcionários apagados. Um bom director cria cultura, protege tempo, exige qualidade, apoia alunos, enfrenta conflitos e dá à escola uma ideia de si própria. Isto não se inaugura. Não dá fita para cortar. Não rende fotografia ao lado de uma parede acabada de pintar. Mas muda a vida de uma escola.
Uma Madeira que bebesse o melhor de Singapura teria de trocar a política educativa de ocasião por uma estratégia de vinte anos. Vinte anos, essa eternidade indecente para quem pensa em ciclos eleitorais, almoços, sondagens e fotografias. Teria metas claras para leitura, matemática, ciência, abandono escolar, ensino profissional, inclusão, formação docente, liderança, tecnologia e ligação à economia. Teria avaliação independente. Relatórios públicos. Correcções de rumo. Coragem para admitir falhanços. Humildade para abandonar projectos maus. Ambição de aprender sem fingir que já sabe. Seria menos vaidosa. Menos teatral.
Menos dependente do brilho fácil da palavra "inovação". Em suma, mais adulta. E ser adulto, como se sabe, é uma qualidade raríssima em governos que vivem a anunciar maturidade.
A principal lição de Singapura não está nos tablets, nem nas palavras inglesas, nem na ornamentação digital, nem na vaidade patética de dizer que somos parecidos com quem lidera rankings mundiais. Está numa evidência dura: a educação é demasiado importante para ser entregue à propaganda. Um sistema educativo constrói-se com professores excelentes, currículos exigentes, escolas autónomas, avaliação séria, apoio real aos alunos, liderança competente e ligação inteligente à economia e à cultura. A Madeira podia fazer isso. Não seria Singapura, nem tem de ser. Talvez fosse melhor não querer ser Singapura. Talvez bastasse querer ser uma Madeira exigente, lúcida, responsável, menos apaixonada pela montra e mais preocupada com a substância. Uma ilha onde a escola deixasse de servir para decorar discursos e passasse a formar gente capaz. O que, convenhamos, já seria uma revolução suficiente para assustar muita gente.
И.uno
Maio 2026
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