Escrever à mão

Escrever à mão

Você ainda escreve à mão? Prática é valorizada nas escolas de Caxias, mesmo na era das telas, e especialistas apontam benefícios

Prática é estimulada nas salas de aula por contribuir para a memória, coordenação motora, organização do pensamento, aprendizagem e para o desenvolvimento cognitivo de crianças e adolescentes

Pablo Ribeiro
Neimar De Cesero / Agencia RBS
Aurora Leonardelli, 10 anos, é aluna do 5º ano do Colégio Murialdo, em Caxias do Sul.
Neimar De Cesero / Agencia RBS

 

 

— Eu gosto de escrever o que estou aprendendo.

Aos 10 anos, a estudante Aurora Leonardelli, do 5º ano do Colégio Murialdo, resume em poucas palavras um hábito que, apesar do avanço acelerado da tecnologia, continua presente no cotidiano escolar de milhares de crianças e adolescentes de Caxias do Sul.

Questionada se prefere escrever à mão ou usar o computador, a resposta vem sem hesitação:

— À mão.

Leitora assídua, ela conta que costuma ler livros para si e também para o irmão mais novo, de sete anos. Para especialistas e educadores, essa relação entre leitura e escrita é fundamental para o desenvolvimento da aprendizagem.

Em um mundo cada vez mais dominado por telas, teclados e comandos de voz, a escrita à mão tem perdido espaço em diversas partes do planeta. Enquanto países como a Finlândia reduziram a ênfase no ensino da letra cursiva e priorizaram habilidades de digitação, outras nações seguem valorizando a prática por seus benefícios cognitivos e pedagógicos. No Brasil, embora a Base Nacional Comum Curricular (BNCC) não determine a letra cursiva como disciplina obrigatória isolada, o ensino das diferentes formas de escrita integra o processo de alfabetização e letramento.

Equilíbrio entre tecnologia e papel

No Colégio Murialdo, a convivência entre a escrita manual e os recursos digitais faz parte da rotina dos alunos. A coordenadora pedagógica do 3º ao 5º ano, Débora Dai Prá, afirma que a escola percebeu mudanças no perfil dos estudantes nos últimos anos, especialmente em razão do aumento do tempo de exposição às telas.

— A escrita à mão tem que coexistir com a tecnologia. A gente pode ter ambas, mas não podemos anular a importância da escrita à mão. O uso em excesso de telas vai exigir raciocínio mais rápido, enquanto a escrita à mão tem muita importância porque, no momento em que a criança escreve, essa atividade consegue ativar todas as áreas cerebrais — afirma.

Neimar De Cesero / Agencia RBS
Débora Dai Prá é coordenadora pedagógica do 3º ao 5º ano do Colégio Murialdo.
Neimar De Cesero / Agencia RBS

 

 

Débora destaca que memória, processamento, reflexão e visão são estimulados durante a escrita manual:

— Nós estimulamos muito os alunos quanto ao hábito de estudos. Eles podem revisar conteúdos nas telas ou nos livros, mas precisam registrar aquilo que estão aprendendo. No momento em que a criança está colocando no papel os seus pensamentos, ela também está trabalhando as suas emoções.

Mapas mentais, listas de palavras, resumos e planejamento de estudos estão entre as estratégias utilizadas pela escola. Ao mesmo tempo, os estudantes têm acesso a laboratórios de informática e a chromebooks utilizados em pesquisas, trabalhos em grupo e avaliações online.

A coordenadora também ressalta a importância da participação das famílias nesse processo:

— A leitura precede a alfabetização. A família precisa estimular o que a criança faz aqui na escola, acompanhar os estudos, incentivar a leitura diária e ajudar na organização da rotina.

Benefícios que vão além da aprendizagem

Para a neuropsicopedagoga clínica, especialista em educação especial inclusiva e professora da Universidade de Caxias do Sul (UCS), Claire Longhi, a escrita manual mobiliza uma série de habilidades fundamentais para o desenvolvimento infantil.

— A escrita à mão não envolve somente o registrar das letras no papel. Essa habilidade mobiliza questões cognitivas, motoras e perceptivas extremamente fundamentais para o desenvolvimento infantil.

Segundo a especialista, a prática estimula a coordenação motora fina, a memória, a atenção, a organização espacial e o planejamento motor.

— Para escrever, a gente precisa lembrar como é o traçado das letras, organizar a escrita no papel, prestar atenção no que está fazendo e coordenar os movimentos da mão. Tudo isso auxilia na consolidação da aprendizagem — explica Claire.

 

Claire Longhi / Acervo pessoal
Claire Longhi é neuropsicopedagoga clínica, especialista em educação especial inclusiva e professora da UCS.    Claire Longhi / Acervo pessoal

 

 

Claire afirma que o uso excessivo de telas tem reduzido oportunidades para o desenvolvimento dessas habilidades:

— As crianças estão perdendo habilidades relacionadas à coordenação motora fina. Isso impacta não apenas a escrita, mas também tarefas do cotidiano, como fechar um zíper, abotoar uma roupa ou amarrar um calçado.

Na prática clínica, ela observa uma crescente resistência de crianças e adolescentes às atividades escritas.

— Eles estão consumindo conteúdos muito rapidamente, por meio de vídeos curtos, mensagens e áudios. Quando chegam à escola, apresentam resistência a tarefas escritas porque escrever exige muito mais do cérebro. São várias áreas cerebrais trabalhando em conjunto. Quando a escrita perde espaço, essas áreas deixam de receber um estímulo extremamente importante — afirma.

Apesar disso, Claire reforça que a tecnologia não deve ser encarada como uma inimiga.

— Ela traz benefícios para a aprendizagem, para a pesquisa e para o acesso à informação. O importante é que seja utilizada de forma equilibrada e consciente, especialmente nos primeiros anos do desenvolvimento infantil — sintetiza.

A especialista recomenda atividades simples para estimular a coordenação motora fina, como desenhar, pintar, recortar, fazer bolinhas de papel, separar feijões, usar pregadores de roupa, montar pulseiras e praticar a escrita cursiva. Segundo ela, essas atividades favorecem não apenas a alfabetização, mas o desenvolvimento global da criança, especialmente a autonomia.

Rede municipal mantém incentivo à escrita

Nas escolas da rede municipal de Caxias do Sul, a escrita manual também continua sendo parte importante do processo de ensino, mesmo com a ampliação dos recursos tecnológicos.

Assessora pedagógica dos projetos de alfabetização e letramento da Secretaria Municipal da Educação (Smed), a pedagoga e mestre em Educação Nicole Longhi afirma que a prática segue presente no cotidiano escolar. A rede municipal conta atualmente com chromebooks, mesas interativas e kits de robótica em todas as escolas.

— Embora a rede tenha equipamentos de tecnologia digital, as professoras não abrem mão da escrita à mão. Isso continua muito vivo nas escolas. Os estudantes utilizam livros físicos de literatura, realizam produções textuais à mão e participam de propostas que incentivam a escrita no cotidiano — destaca.

Entre as ações desenvolvidas estão produções de texto, tarefas de casa, reescritas coletivas e projetos voltados à formação do hábito e do prazer pela escrita. Há ainda iniciativas simples que ajudam a estimular o hábito.

— Tem turmas que mantêm caixinhas de bilhetes. Os alunos escrevem mensagens para os colegas durante a semana e, ao final, a professora faz a distribuição e a leitura. Isso tudo estimula a escrita à mão — afirma.

Segundo Nicole, cabe à escola ensinar os estudantes a compreender as diferenças entre a comunicação utilizada nas redes sociais e a norma padrão da língua portuguesa.

— Existe uma forma de escrever nos meios digitais e existe uma forma culta, uma forma padrão. Os estudantes precisam compreender essa diferença. A tecnologia e a escrita precisam andar juntas. Os recursos digitais fazem parte da vida dos estudantes e precisam ser ensinados, mas não podemos deixar de trabalhar aspectos extremamente importantes da escrita à mão — finaliza.

FONTE:

https://gauchazh.clicrbs.com.br/pioneiro/geral/noticia/2026/06/voce-ainda-escreve-a-mao-pratica-e-valorizada-nas-escolas-de-caxias-mesmo-na-era-das-telas-e-especialistas-apontam-beneficios-cmpwlov8u00fm016dxnypjuq3.html 




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