Estelionato desmascarado

Estelionato desmascarado

 

 

A imagem de Flávio Bolsonaro (PL) saltando e dançando funk sobre um trio elétrico no bairro Sarandi, em Porto Alegre, enquanto o plenário do Senado aprovava por esmagadores 75 votos a 1 o fim da escala 6x1, sintetiza o descompasso entre a encenação de palanque da extrema-direita e as demandas concretas da classe trabalhadora brasileira.

Ao optar por registrar um voto remoto burocrático no aplicativo do Senado — sem pisar no Congresso e sem dedicar uma única palavra em seu discurso à redução histórica da jornada semanal de 44 para 40 horas —, o candidato do PL protagonizou um duplo recuo: evitou o constrangimento de subir à tribuna para defender uma pauta contra a qual sempre operou e sonegou de seu próprio público gaúcho o debate sobre a conquista de dois dias de descanso remunerado sem redução salarial.

O estelionato desmascarado pela confissão de Sóstenes

A manobra de registrar voto favorável à distância foi rapidamente desmoralizada pelo próprio comando de seu partido em Brasília. A admissão do líder do PL na Câmara, Sóstenes Cavalcante (RJ), de que a bancada prepara a PEC do pagamento por hora trabalhada para 2027, confirmou a denúncia de que o apoio de Flávio à escala 6x1 durou apenas o tempo necessário para atravessar a semana do debate da Band:

Folga sem salário: O modelo que o PL pretende impor em 2027 retira a garantia constitucional do repouso semanal remunerado. Sob a desculpa de permitir "dois dias livres", a remuneração passa a ser calculada por hora de serviço prestado, legalizando o corte salarial proporcional aos dias de descanso;

A demolição da CLT: O projeto por hora elimina o piso salarial mensal fixo, desidrata a base de cálculo do 13º e das férias e empurra o trabalhador para a obrigação de complementar recolhimentos previdenciários caso a soma das horas trabalhadas no mês fique abaixo do salário mínimo;

O "salto alto" denunciado por Erika Hilton: Como alertou a deputada federal do PSOL, a cúpula bolsonarista atua sob a presunção autoritária de que, caso vença o pleito, usará a correlação de forças no parlamento para revogar direitos recém-promulgados e restaurar a submissão dos trabalhadores.

O isolamento de Mourão e o silêncio covarde no Sul

O placar de 75 a 1 no Senado Federal revelou o grau de isolamento da oposição ideológica. O único voto ostensivamente contrário partiu do general Hamilton Mourão (Republicanos-RS), que representou a linha dura do empresariado ultraconservador enquanto os demais parlamentares da oposição foram forçados pela pressão popular a recuar.

No palanque de Porto Alegre, ao lado de governadores que tentavam disfarçar o baixo público do ato, Flávio não teve coragem de defender a escala extenuante nem de comemorar a vitória dos trabalhadores:

A cortina de fumaça da maioridade penal: Para preencher o vazio programático, o senador recorreu à retórica punitivista da redução da maioridade penal para 16 anos na PEC da Segurança Pública, tentando fabricar um enfrentamento moral para desviar os olhares do público gaúcho;

O constrangimento dos aliados: Estar no palco enquanto o líder dançava ao som de paródias de funk não escondeu o desconforto de Tarcísio de Freitas — ainda ressentido por ter sido publicamente desqualificado na véspera como "forasteiro carioca torcedor do Flamengo" — e de Sergio Moro, confrontados com a imagem de um comício esvaziado no bairro Sarandi;

A contradição entre a dança e o colapso da campanha: Enquanto Flávio pulava no palco, a Polícia Federal prendia no Rio de Janeiro seu principal articulador na Baixada Fluminense, o deputado Márcio Canella, e laudos periciais expunham a presença de "Kassio" e o aluguel de quartos exclusivos no triplex de Daniel Vorcaro.

A cobrança inevitável no estúdio da TV Bandeirantes

A fuga física do Senado e a dancinha improvisada no Sul tornam-se munição direta para o confronto do próximo domingo (18), às 20h. No palco da Band, Flávio Bolsonaro não poderá recorrer ao aplicativo do celular para votar escondido:

Ele terá de responder, diante das câmeras e de milhões de trabalhadores que cumprem jornadas exaustivas no comércio, na indústria e no setor de serviços, por que faltou à sessão histórica do Senado e se endossa a declaração de Sóstenes Cavalcante de que o PL planeja confiscar o descanso remunerado já no início de 2027.

Enquanto o candidato do PL tenta tratar o destino de milhões de famílias trabalhadoras como coreografia de rede social, a mobilização popular em Brasília, no Rio de Janeiro e em Porto Alegre demonstra que o povo brasileiro não aceita trocar direitos constitucionais conquistados por promessas de precarização disfarçadas de festa.

FONTE:

Hilton Aquino 




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