Estrutura que produz pobreza

Estrutura que produz pobreza

 

 

Olha, pra começar, esta não é uma crítica gratuita aos cristãos, ou às pessoas de um modo geral comprometidas com a solidariedade, por favor. Muito menos uma defesa da indiferença diante da fome, da pobreza ou do sofrimento. Jamais. Ajudar alguém que está passando necessidade é um ato legítimo de solidariedade humana.

A questão aqui é outra, muito mais estrutural.

Eu creio que é preciso se perguntar e estender esse questionamento à sociedade, sobre o que acontece quando a caridade deixa de ser uma resposta emergencial ao sofrimento e passa a ocupar o lugar que deveria ser dos direitos, das políticas públicas e da transformação das estruturas sociais que produzem a desigualdade.

A caridade é uma das práticas mais blindadas contra a crítica política na civilização ocidental porque foi historicamente associada à virtude, ao amor ao próximo, à bondade e à moral cristã...

Daí, questioná-la parece uma demonstração de crueldade ou de falta de humanidade.

Mas uma sociedade mais igualitária, que é o devir de toda justiça social, não pode ser avaliada apenas pelas "boas ações" de pessoas dispostas a ajudar os pobres. É fundamental que nos ocupemos em entender por que existem tantos pobres necessitando de "boas obras" e por que a sociedade simplesmente aceita que a sobrevivência dessas pessoas dependa da generosidade de alguém...

Não deveria ser assim. Não deve ser assim.

É justamente essa dimensão do questionamento e consequentemente, reconhecimento de problemas sóciopolíticos seríssimos, que alguns importantes pensadores ajudaram a problematizar. Vou pautar esse texto nisso ok?

Nietzsche falou sobre uma moral que transforma o sofrimento em virtude...

Muito forte essa percepção dele, merece nossa atenção.

Na Genealogia da Moral, Friedrich Nietzsche identificou no cristianismo aquilo que chamou de “moral de escravos”, associando-a à valorização da humildade, da submissão e da resignação...

Sua crítica não se diminui na conclusão de que ajudar alguém seja errado. Tentemos evoluir pra além desse juízo tão raso. O problema está na transformação da fraqueza e do sofrimento em valores morais superiores.

Quando a pobreza, a resignação e o sofrimento são apresentados como virtudes espirituais, produz-se uma inversão de valores perversa pois aquilo que deveria provocar indignação, forte repúdio individual e coletivo, pode passar a ser interpretado como oportunidade de purificação, prova espiritual ou caminho para uma recompensa futura...

Muito cuidado com essa ideia.

A promessa de que os humilhados serão exaltados e de que haverá uma compensação divina depois da morte desloca a expectativa de justiça para o além...

E o hoje, a vida material, acaba negligenciada...

Abusos se agigantam...

Muito cuidado.

Pensa: se o sofrimento pode ser transformado em mérito espiritual, até que ponto a sociedade passou a tolerar/acolher/divinizar aquilo que deveria era combater?

Com todas as forças?!!

Daí Marx observou a caridade como amortecedor das contradições sociais...

E faz sentido.

Karl Marx avança ainda mais nessa discussão.

Na crítica marxista, instituições religiosas e práticas filantrópicas podem desempenhar uma função ideológica quando ajudam a administrar os efeitos da desigualdade sem questionar suas causas...

A esmola, a doação, a oferta podem aliviar uma necessidade real e imediata e esse alívio não deve ser desprezado. De forma alguma. Mas ela também pode funcionar como amortecedor dos conflitos sociais, especialmente quando substitui a luta por direitos...

E isso de fato acontece. Infelizmente. E é profundamente reforçado tanto no âmbito religioso quanto político.

O ser humano, o cidadão, tem DIREITO às condições materiais necessárias para viver com dignidade.

Isso significa que a sua sobrevivência digna não deve depender da generosidade de alguém.

Quando a assistência aos pobres se limita a amenizar as consequências da exploração, ela pode contribuir pra tornar o sistema mais suportável sem transformá-lo.

 

E a consequência disso é o escalamento da desigualdade, o aprofundamento da pobreza, a expansão do caos.

Temos visto né?

Temos visto!

Observem que a burguesia apresenta-se como "benevolente" enquanto mantém intactas relações econômicas profundamente desiguais...

Assim, a caridade acaba conferindo uma aparência humana a uma estrutura que continua produzindo miséria.

Em A Alma do Homem Sob o Socialismo, Oscar Wilde desenvolveu uma das críticas mais contundentes à filantropia.

Seu argumento não era simplesmente que ajudar os pobres fosse moralmente condenável. O alvo era a ideia de que a caridade pudesse ser apresentada como solução para a miséria.

A filantropia pode manter uma pessoa viva sem necessariamente oferecer-lhe as condições pra viver plenamente. A gente sabe.

Ela mira a consequência, sem levar em consideração a causa, exatamente porque aí terá que confrontar a benevolente e filantropa burguesia e seus infinitos privilégios...

Wilde também mostrou que a caridade pode estabelecer uma relação desigual entre quem doa e quem recebe.

Quem recebe pode sentir que precisa agradecer permanentemente por aquilo que deveria ser uma condição básica de existência. E aquele que doa, sempre pode transformar sua própria generosidade em prova de superioridade moral...

Por isso Wilde valorizava justamente aqueles que não aceitavam passivamente a condição que lhes era oferecida - os insatisfeitos, os inconformados e os rebeldes.

Uma verdadeira transformação social não é produzida simplesmente da multiplicação dos benfeitores. Se assim fosse, o processo de transformação já estaria beeeeem avançado.

As pessoas gostam de doar, contribuir, ajudar...

Mas não é suficiente.

Nunca será.

Transformação é quando as pessoas deixam de precisar de caridade.

E não existe simetria entre a pulsão assistencialista e a pulsão libertária. Sendo assim, estamos sempre correndo atrás do próprio rabo.

É preocupante, até porque a caridade não tem uma conexão de fato com o a luta por justiça social, o que realmente não é possível relevar, passar pano.


A Hannah Arendt também ajuda a compreender essa questão a partir da diferença entre piedade, compaixão, política e cidadania.

Quando a pobreza é tratada exclusivamente como sofrimento individual que desperta compaixão, ela é retirada do campo dos direitos e deslocada para o campo dos sentimentos privados.

A pessoa não é vista prioritariamente como cidadã portadora de direitos e sim como alguém que precisa despertar a compaixão de outra pessoa.

Isso não está certo.

Não há uma só gota de justiça nisso.

O direito humano é impessoal, universal e exigível.

E a caridade é voluntária, particular e depende da disposição de quem possui recursos...

Não dignifica quem recebe e pode desnortear quem doa...

Um cidadão não deveria precisar convencer alguém de que merece comida, moradia, saúde ou dignidade.

Ele deveria ter esses direitos independentemente da bondade de terceiros.

Portanto, criticar a caridade não significa defender que as pessoas deixem de ajudar umas às outras. Se alguém está com fome hoje, não se pode dizer a essa pessoa pra esperar pela revolução social de amanhã.

A solidariedade imediata continua sendo necessária!

O problema é quando o paliativo passa a ser confundido com a solução. E isso é a base moral e ideológica de inúmeras instituições religiosas, filantrópicas e inclusive de governos...

Uma sociedade profundamente desigual pode produzir milhões de pessoas necessitadas e, simultaneamente, celebrar aqueles que distribuem parte de suas sobras...

Nesse cenário, o benfeitor recebe reconhecimento moral enquanto as estruturas que produzem a necessidade permanecem praticamente invisíveis.

A mão que entrega uma cesta básica pode aliviar a fome de uma família hoje, de fato, mas não modifica as condições econômicas que produzirão a necessidade de uma próxima cesta básica...

A verdadeira emancipação está na construção de uma sociedade em que a dignidade humana não dependa da generosidade de ninguém.

Ainda estamos muito longe disso. E por favor, entendam esse texto como um ponto a refletir.

Somente.

Sigamos...

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Gi Stadnicki

FONTE:




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