Estudantes faltam à escola regularmente
Mais da metade dos estudantes brasileiros falta à escola regularmente, revela pesquisa global
Dados do Pisa 2025 foram divulgados nesta terça-feira (8)
Isabella Sander
Mais da metade dos estudantes brasileiros de 15 anos faltou à escola pelo menos um dia nas duas semanas anteriores à aplicação do Programa Internacional de Avaliação de Estudantes (Pisa) 2025, aponta o relatório divulgado nesta terça-feira (8) pela Organização para a Cooperação e Desenvolvimento Econômico (OCDE), grupo que reúne 38 países, a maioria de alta renda.
O índice, de 55%, voltou a superar a marca de metade dos alunos – algo que já havia sido registrado em 2018 – e representa uma forte alta em relação a 2022, quando 22% dos estudantes disseram ter faltado um dia inteiro à escola no mesmo período. O levantamento também mostra um crescimento das faltas a aulas específicas: 53% afirmaram ter "cabulado" pelo menos uma disciplina nas duas semanas anteriores à prova, ante 19% em 2022. Na média dos países da OCDE, os percentuais são de 22% e 24%, respectivamente.

Camila Hermes / Agencia RBS
Na comparação com os países latino-americanos, o Brasil aparece entre os casos mais críticos de absenteísmo escolar. Apenas o Paraguai registra percentuais mais elevados de estudantes que faltaram um dia inteiro à escola (59%) e que deixaram de comparecer a aulas específicas (59%). No outro extremo estão Chile, onde apenas 7% relataram faltar um dia inteiro, e Uruguai, com 14%.
Para a OCDE, o aumento das ausências representa uma das principais mudanças observadas no Brasil desde a edição anterior da pesquisa e sinaliza uma crise de engajamento dos estudantes com a escola.
Mais desigualdade
O levantamento também indica que a desigualdade educacional aumentou no país. O Brasil passou a registrar o maior abismo de desempenho entre estudantes ricos e pobres da América Latina.
A diferença entre os dois grupos chegou a 96 pontos em Ciências, acima da média da OCDE (85 pontos) e superior à de países como Colômbia (93), Argentina (82) e Chile (76). Segundo a OCDE, o Brasil foi o único país latino-americano em que essa diferença cresceu de forma estatisticamente significativa na última década.
Estagnação
Os resultados de aprendizagem, por sua vez, mostram que o Brasil segue praticamente no mesmo patamar registrado nas últimas edições do Pisa.
Brasil x média da OCDE
- Ciências: 409 x 488 pontos
- Leitura: 408 x 474
- Matemática: 377 x 453
Segundo o relatório, as diferenças em relação a 2022 não são estatisticamente significativas, mantendo uma trajetória de estagnação observada há cerca de uma década.
A Matemática continua sendo o principal desafio do sistema educacional brasileiro.
Em Matemática:
- 72% dos estudantes brasileiros estão abaixo do nível básico
- na OCDE, esse percentual é de 35%
- praticamente não há alunos brasileiros nos níveis mais altos de desempenho
- na OCDE, 8% chegam aos níveis 5 e 6
Na comparação latino-americana, o país ocupa uma posição intermediária em aprendizagem, à frente de vizinhos como Argentina e Paraguai, mas atrás de Chile, Uruguai, Costa Rica e Colômbia em diferentes indicadores de proficiência.
Menos celular
Entre os poucos indicadores que apresentaram melhora, o Brasil registrou um avanço expressivo na restrição ao uso de celulares nas escolas. Em 2025, 81% dos estudantes frequentavam instituições que proibiam completamente o uso dos aparelhos em suas dependências, mais que o dobro do registrado em 2022 (37%) e bem acima da média da OCDE, de 49%.
A redução ocorre após a criação de uma lei que proíbe em todo o país o uso de dispositivos eletrônicos em escolas para fins não pedagógicos.
O relatório aponta ainda que os alunos que relataram maior distração causada por dispositivos digitais tiveram desempenho inferior em Ciências, reforçando a relação entre o uso inadequado da tecnologia e a aprendizagem.
Participação dos pais
Na direção oposta, a pesquisa identificou uma redução no acompanhamento das famílias sobre a vida escolar dos adolescentes.
Em 2025, 51% dos estudantes brasileiros disseram que os pais ou responsáveis perguntavam pelo menos uma vez por semana sobre o que haviam feito na escola, ante 62% em 2022. Também caiu a proporção dos que conversavam semanalmente em casa sobre problemas ou dificuldades escolares, de 55% para 41%.
Segundo a OCDE, essa retração aconteceu paralelamente ao aumento do absenteísmo e pode indicar um enfraquecimento do vínculo entre estudantes, famílias e escola.
O Pisa
Criado pela OCDE, o Pisa é uma pesquisa comparativa que mede os conhecimentos e as habilidades de jovens de 15 anos em Ciências, Leitura e Matemática.
Tradicionalmente realizado a cada três anos – embora o ciclo mais recente tenha sido adiado devido à pandemia de covid-19 – o estudo reúne dezenas de países e economias para comparar o desempenho dos estudantes e identificar fatores associados à aprendizagem.
No Brasil, a aplicação é coordenada pelo Instituto Nacional de Estudos e Pesquisas Educacionais Anísio Teixeira (Inep). Em 2025, participaram da avaliação 30.140 estudantes de 15 anos, distribuídos em 1.053 escolas de todo o país, representando um universo estimado de 2,18 milhões de jovens matriculados, o equivalente a cerca de 76% da população brasileira nessa faixa etária.
FONTE:





