Fracasso do modelo cívico-militar
Violência na Lapa esquenta debate sobre fracasso do modelo cívico-militar
Ocorrências registram ameaças, bullying, racismo e agressões no município, expondo as falhas do que foi anunciado como garantia de segurança
o governo estadual planeja ampliar o programa de 345 para 500 escolas. Foto: AEN
Casos de violência no Colégio Cívico-Militar na Lapa chamaram a atenção nas redes sociais na última semana. As ocorrências incluem ameaças, bullying, racismo e agressões físicas, surpreendendo pela gravidade no ambiente que é defendido pelo governo como garantia de maior segurança para as(os) estudantes.
O primeiro caso ocorreu no dia 31 de agosto e foi divulgado pelo portal Lapa em Foco. Uma estudante sofreu uma série de episódios de bullying, racismo e conflitos dentro da escola, culminando em uma agressão física em frente à unidade, onde educadoras(es) precisaram intervir para separar a briga. Em relato ao portal, a família da estudante informou ter registrado um boletim de ocorrência e aguarda as providências das autoridades.
O segundo caso choca pela naturalização da violência: um estudante publicou uma foto em que aparece com uma arma e fez ameaças, gerando preocupação entre alunas(os), familiares e educadoras(es). Os responsáveis foram chamados e o conteúdo foi encaminhado às autoridades competentes.
“A violência nas escolas é real, precisa ser enfrentada, mas não será com a militarização da educação que construiremos uma escola segura. Repudiamos toda forma de violência, ameaça e discriminação. Ao mesmo tempo, não aceitamos que professores e diretores sejam responsabilizados por problemas que são sociais e exigem políticas públicas, investimento e proteção” aponta a pedagoga e secretária de Administração e Patrimônio da APP-Sindicato, Margleyse dos Santos.
A dirigente reforça que a APP-Sindicato é contrária ao modelo, acusando-o de manter a cultura do medo sem enfrentar a raiz dos problemas na educação pública.
“É por isso que somos contra o modelo cívico-militar. Educação não se faz com a lógica da força. Enfrentar a violência exige diálogo, acolhimento, equipes fortalecidas e profissionais valorizados. A APP-Sindicato defende uma escola pública democrática, segura e acolhedora para estudantes e trabalhadores. E essa defesa exige união, coragem e mobilização de toda a comunidade escolar”, completa a educadora.
Repercussão
Nas redes sociais, internautas comentam que episódios assim se tornaram recorrentes com a implementação da gestão militarizada. Em um dos comentários, uma usuária destaca que a mudança no modelo piorou a situação da unidade.
“Esse colégio, infelizmente, não vai mudar enquanto não colocarem certas regras. Sempre acontece isso. Autoridades, por favor, apurem os casos. Passou para colégio militar, parece que piorou a situação. Vão tomar uma atitude depois que acontecer algo pior que isso. Os alunos têm que ser educados em casa. O professor faz a sua parte, mas não consegue amenizar a situação pela quantidade de jovens e adolescentes”, comenta uma internauta.
Outra usuária questiona a atuação dos monitores militares na prevenção dos conflitos.
“Meu Deus, cadê os responsáveis? Os militares estão fazendo o quê aí? Só esperando o salário no fim do mês. Eu mesma já presenciei muita coisa errada nessa escola. Já foi o tempo em que foi uma escola exemplar”, reforça.
Violência generalizada
“No momento em que se tem o diretor disciplinar, que é um policial aposentado, até o entorno do colégio fica mais seguro”. A declaração do governador Ratinho Jr, em entrevista ao site Gazeta do Povo, destoa da realidade. Longe das peças publicitárias, registros e denúncias de violência em colégios cívico-militares multiplicam-se pelo Paraná.
No dia 28 de agosto, em Curitiba, moradores flagraram uma briga entre estudantes no portão do Colégio Estadual Cívico-Militar Cruzeiro do Sul, no bairro Santa Cândida. As imagens mostram uma aglomeração enquanto duas jovens travam luta corporal sob gritos de “Uh! Vai morrer. Uh! Vai morrer”, sendo contidas apenas após a intervenção de adultos.
Poucos dias antes, em 24 de agosto, a professora Márcia Luciana da Rocha Dei Tos relatou momentos de terror no Colégio Estadual Cívico-Militar Monsenhor Josemaria Escrivá, em Londrina. A educadora sofreu ferimentos no olho após ser agredida com socos por um estudante dentro da sala de aula.
Apesar das denúncias e dos questionamentos sobre a constitucionalidade da medida, o governo estadual planeja ampliar o programa de 345 para 500 escolas, alterando a legislação para admitir militares com apenas dois anos de aposentadoria (atualmente o limite é de cinco anos). Em entrevista publicada em 17 de agosto, Ratinho Jr. declarou:
“Hoje o policial se aposenta e só pode entrar no projeto após cinco anos de aposentadoria. Mas alguns policiais se aposentam muito novos, com 50 anos, e ficam sem o que fazer. Às vezes ficam depressivos, e isso é um grande problema. Quando ele sai da dinâmica do dia a dia, da adrenalina, fica louco. Aí o cara faz o quê? Faz bico na zona, em bailão. É isso, infelizmente. É muito melhor ele trabalhar dentro da escola, ajudando a cuidar de tudo”.
A fala reforça a crítica da APP-Sindicato de que o governo usa a estrutura escolar para conceder gratificações aos militares. Além do benefício da aposentadoria, cada militar contratado recebe R$ 5,5 mil mensais, valor superior ao salário inicial de professoras (R$ 5,1 mil) e de funcionárias de escola (R$ 2,2 mil), que possuem formação pedagógica. Um levantamento feito pelo Jornal Plural revelou que o Governo do Paraná já redirecionou R$ 156,2 milhões do orçamento da Educação para arcar com essa gratificação.
Um escândalo atrás do outro
Desde sua implementação em 2020, o modelo cívico-militar acumula denúncias de abusos. Em junho deste ano, veio à tona a denúncia de que um militar teria cometido assédio sexual contra estudantes no Colégio Cívico-Militar Castelo Branco, em Cascavel. No mês anterior, o Colégio Estadual Cívico-Militar Professora Etelvina Cordeiro Ribas, em Curitiba, impediu um aluno de assistir às aulas porque seu tênis tinha uma listra branca no solado.
Relatórios do sindicato expõem a insatisfação de familiares e estudantes com regras estéticas rígidas impostas sem qualquer relação com o aprendizado.
“O governador prometeu colocar militares nas escolas para dar mais segurança, mas está sendo o contrário. Não está tendo segurança, inclusive as crianças estão sendo punidas e castigadas”, contou o pai de um aluno de Curitiba, cujo filho foi submetido a constrangimentos por ter cabelo comprido. “Eles ficam gritando com as crianças, intimidando, ameaçando, falando que quem não cortar o cabelo do jeito que eles estão mandando e que quem usa brinco não vai entrar na escola e vai receber punição. Meu filho e os outros estudantes foram obrigados a ficar duas horas em pé, em posição de sentido”, relatou.
As exigências constam no manual das escolas cívico-militares, que classifica a padronização estética como elemento de “higiene, boa aparência, sociabilidade, postura, dentre outros”. Estudantes, contudo, relatam que a prática é abusiva e promove discriminação contra a identidade de grupos sociais, como pessoas negras e LGBTI+:
“Me sinto péssimo, porque eles estão querendo mudar a personalidade das pessoas. Eles falaram que quem não tirar os piercings e os bonés vai ter que mudar de escola. O ambiente no colégio está péssimo. A gente vai para a escola estudar e aprender, mas chega lá, parece uma prisão”, desabafou um estudante.
Cultura de violência
No final de 2025, imagens divulgadas pela APP-Sindicato mostraram estudantes do Colégio Cívico-Militar João Turin, em Curitiba, entoando cânticos de apologia à violência enquanto marchavam na quadra: “Homem de preto, qual é sua missão? Entrar na favela e deixar corpo no chão”. Em Colombo, no Colégio Cívico-Militar Vinicius de Moraes, crianças foram expostas à exibição de armamento pesado.
Episódios de violência contra educadores também marcam o histórico do programa. Em Apucarana, no Colégio Polivalente Carlos Domingos Silva, um sargento da reserva dirigiu-se de forma intimidadora a uma professora durante uma reunião, chamando-a de “acéfala”. Em março deste ano, no Colégio Jardim Maracanã, em Toledo, um militar sacou uma arma na presença de alunos, apontou para o rosto de uma funcionária e ameaçou atirar, chamando-a de “BRUXA” e “VELHA”.
A falta de preparo pedagógico é apontada pela comunidade escolar como causa direta de conflitos:
“A ampla maioria dos monitores militares que atuam nessas instituições não têm experiência alguma em ambientes educativos. Limitam-se a um conjunto de procedimentos que tentam uniformizar a juventude. Frases como: “Sentido”, “Descansar”, “Apresentar armas”, “Sem cadência” e “Marche” predominam, enquanto reflexões sobre diversidade, pluralidade e entendimento do contraditório são completamente ignoradas”, pontuou um professor em carta aberta.
Inconstitucionalidade no STF
Diante do volume de violações, a APP-Sindicato entregou um dossiê de denúncias ao Ministério da Educação. Na esfera jurídica, o Supremo Tribunal Federal (STF) analisa uma Ação Direta de Inconstitucionalidade (ADI) movida por PT, PSOL e PCdoB, que pede a anulação da Lei 20.338/2020 e do dispositivo legal que proíbe eleições diretas para a gestão dessas unidades.
Em manifestação no processo, a Advocacia-Geral da União (AGU) considerou o modelo cívico-militar do Paraná inconstitucional. O parecer ressalta que os estados não podem criar modelos educacionais não previstos na Lei de Diretrizes e Bases da Educação (LDB) e que a Constituição Federal não autoriza militares a exercerem funções escolares. A ação aguarda decisão sob a relatoria do ministro Gilmar Mendes.
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