Gosto de política
Por que gosto tanto de política
Vânia Wolff
Muita gente me pergunta por que gosto tanto de política. E talvez a primeira resposta seja a mais simples, porque política é uma ciência. Não é conversa de boteco, não é torcida organizada, não é apenas uma disputa entre pessoas ou partidos. Política diz respeito à maneira como organizamos a vida em sociedade, às escolhas que fazemos coletivamente e ao tipo de mundo que estamos construindo.
Aristóteles já compreendia isso quando pensou a polis como o espaço da vida comum. Para ele, o ser humano é, por natureza, um animal político, porque é na comunidade que realiza plenamente sua existência. A política, portanto, não deveria ser compreendida apenas como a ocupação do Estado ou a disputa pelo poder, mas como uma reflexão sobre a vida que queremos construir juntos.
É por isso que, quando penso em política, não penso apenas em mim.
Penso nos meus filhos. Penso nos meus netos. Penso nas gerações que ainda virão e que talvez nunca saibam quem tomou determinadas decisões, mas viverão inevitavelmente com as consequências delas.
Que país estaremos deixando para eles? Que mundo? Que planeta?
Será que teremos sido capazes de enfrentar uma crise ambiental antes que ela se transforme em uma crise de sobrevivência? Teremos sistemas de saúde capazes de responder a uma nova pandemia? Teremos instituições suficientemente fortes para preservar a paz, a democracia e os direitos? Teremos educação capaz de preparar as próximas gerações para um mundo que sequer conseguimos imaginar completamente?
Essas perguntas são políticas.
E talvez seja justamente aí que esteja a diferença entre uma política pensada a partir do próprio umbigo e uma política pensada a partir do mundo.
Eu poderia olhar para uma decisão econômica apenas pelo efeito que ela produzirá sobre o meu patrimônio. Tenho imóveis, por exemplo. Poderia pensar exclusivamente no preço dos aluguéis, nos juros, nos impostos, na valorização ou desvalorização dos meus bens. Mas, se minha preocupação política termina naquilo que afeta diretamente o meu bolso, então estou confundindo interesse particular com interesse público.
O patrimônio de uma pessoa é legítimo. Seus interesses também são. O problema começa quando imaginamos que eles devem ser o único critério para avaliar o destino de uma sociedade.
Eu prefiro pensar de outra maneira.
Se há emprego, se há demanda por trabalhadores e se as pessoas começam a ter a possibilidade de escolher entre diferentes atividades, isso pode significar que estamos diante de uma sociedade na qual o trabalhador conquistou algum poder de escolha.
E isso é importante.
Porque liberdade não deveria significar apenas poder escolher o que comprar, onde morar ou para onde viajar. Liberdade também significa poder escolher, dentro das possibilidades concretas da vida, como trabalhar, em que trabalhar e em que condições trabalhar.
A Organização Internacional do Trabalho reconhece justamente a liberdade de escolha do trabalho como um princípio fundamental e considera a liberdade de deixar uma relação de trabalho parte essencial dessa autonomia.
Por isso, quando alguém precisa aceitar qualquer trabalho, por qualquer salário e em qualquer condição simplesmente porque não tem outra alternativa para sobreviver, não estamos diante de uma liberdade plena. A escolha existe formalmente, mas pode não existir materialmente.
Uma sociedade verdadeiramente livre não é aquela em que todos têm infinitas opções no papel. É aquela em que as pessoas possuem condições reais para fazer escolhas.
E isso nos leva a uma questão ainda maior, que é a igualdade e a equidade de oportunidades.
Não me interessa uma política que diga apenas que todos são iguais diante da lei se, na vida concreta, alguns nascem com todas as possibilidades e outros começam a caminhada sem sequer ter acesso às condições mínimas para escolher o próprio destino.
Por isso, quando penso em política, penso em projeto de país.
Penso em projeto de soberania.
Penso em projeto de educação.
Penso em projeto de saúde.
Penso em projeto de desenvolvimento.
Penso em projeto ambiental.
Penso em projeto de futuro.
Porque governos passam. Políticos passam. Mandatos passam. Mas as consequências das escolhas de hoje podem permanecer durante décadas.
Uma escola construída hoje pode transformar a vida de uma criança daqui a vinte anos. Uma universidade financiada hoje pode produzir uma descoberta daqui a trinta. Uma política ambiental adotada agora talvez só revele plenamente seus efeitos quando nós já não estivermos aqui.
É por isso que políticas públicas não podem ser avaliadas apenas pela fotografia do presente. Algumas delas precisam ser pensadas como quem planta uma árvore cuja sombra talvez seja desfrutada por outra geração.
A própria Agenda 2030 das Nações Unidas parte dessa compreensão ao tratar conjuntamente de pobreza, desigualdade, saúde, educação, trabalho, clima, paz e instituições. A ideia de desenvolvimento sustentável pressupõe justamente que o presente não pode ser pensado separado do futuro.
Talvez seja por isso que me incomode tanto a redução da política a interesses pessoais.
Há quem diga que quer determinado político porque ele vai resolver o problema do próprio pai. Há quem escolha outro porque acredita que ele vai proteger seu patrimônio. Há ainda quem defenda um candidato porque espera que ele perdoe a dívida da própria família.
Mas e o restante da sociedade?
Qual é o projeto de país que existe por trás disso?
Quando a política se transforma apenas em instrumento para resolver problemas particulares, ela perde sua dimensão pública. O cidadão deixa de perguntar “que país estamos construindo?” e passa a perguntar apenas “o que eu ganho com isso?”.
E talvez essa seja uma das maiores doenças da política contemporânea, que é a transformação do interesse coletivo em uma soma de interesses individuais.
Política, para mim, deveria ser justamente o contrário.
É sair de si.
É conseguir olhar para o próprio interesse sem perder de vista o interesse do outro.
É compreender que o meu futuro está ligado ao futuro de pessoas que eu sequer conheço.
Porque uma pandemia não pergunta em quem você votou. Uma enchente não pergunta qual é a sua ideologia. Uma crise econômica não escolhe suas vítimas pela preferência partidária. A destruição de um ecossistema não termina na propriedade de quem o destruiu. E uma guerra não poupa necessariamente aqueles que acreditavam estar distantes dela.
Há problemas que simplesmente não cabem dentro do indivíduo.
Eles precisam de comunidade.
Precisam de Estado.
Precisam de instituições.
Precisam de cooperação.
Precisam de política.
E é justamente por isso que acredito que precisamos recuperar uma palavra que parece simples, mas que talvez seja uma das mais importantes da vida coletiva, a solidariedade.
Caridade e solidariedade não são a mesma coisa. Como escreveu Eduardo Galeano, a caridade é vertical, porque existe alguém que está acima e alguém que está abaixo. Há quem dê e quem receba, quem ajude e quem seja ajudado. A solidariedade, ao contrário, é horizontal. Ela não coloca uma pessoa acima da outra, mas estabelece entre elas uma relação de pertencimento e responsabilidade mútua.
É uma distinção que considero profundamente importante. A caridade pode aliviar uma necessidade imediata, mas a solidariedade procura compreender as razões que produzem a desigualdade e questionar as estruturas que fazem com que alguns precisem permanentemente da ajuda de outros.
A solidariedade não parte da ideia de que “eu tenho e vou dar a você”. Ela parte de uma compreensão muito diferente, que é a de que “nós temos responsabilidades uns pelos outros”.
E talvez seja esse o sentido mais profundo de fazer política.
Não pensar apenas nos meus filhos, mas nos filhos dos outros.
Não pensar apenas nos meus netos, mas nos netos de quem nunca conhecerei.
Não perguntar apenas “o que esse país pode fazer por mim?”, mas também “que país estou ajudando a construir para aqueles que virão depois de mim?”.
É por isso que gosto de política.
Não porque tenha prazer em disputas partidárias.
Não porque queira transformar adversários em inimigos.
Não porque acredite que um político seja capaz de salvar sozinho uma sociedade.
Gosto de política porque acredito que nossas escolhas coletivas determinam, em grande medida, as condições em que viveremos.
E porque, no fundo, fazer política é decidir que tipo de sociedade queremos ser.
Uma sociedade em que cada um luta apenas por si?
Ou uma sociedade em que compreendemos que ninguém se salva completamente sozinho?
Eu prefiro a segunda.
Porque, quando penso no futuro, não consigo pensar apenas nos meus.
Penso nos nossos.
E talvez seja exatamente aí que começa a verdadeira política.
Bom dia!
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