História política dos sambas

História política dos sambas

Carnaval de 2018 retoma história política dos sambas de enredo das escolas cariocas

Cinco agremiações levaram temas com críticas sociais e políticas à Sapucaí neste ano

13/02/2018      LUÍS FELIPE DOS SANTOS

THIAGO RIBEIR / AGIF/ESTADÃO CONTEÚDO
Comissão de frente da Paraíso do Tuiuti, que falou sobre trabalho e escravidão   THIAGO RIBEIR / AGIF/ESTADÃO CONTEÚDO

Nas palavras de Cláudio Brito, comentarista de GaúchaZH, esse foi o Carnaval mais politizado do último quarto de século. Com o corte de verbas da prefeitura do Rio de Janeiro, as escolas de samba tiveram enormes dificuldades para manter o padrão luxuoso histórico dos desfiles. Algumas delas, então, aproveitaram o momento para protestar e refletir o descontentamento dos brasileiros com diversas instituições - o governo Temer, a corrupção nas estatais, a política, a religião, o racismo, a intolerância, a xenofobia.

Os desfiles com motivação política fazem parte da história do Carnaval do Rio de Janeiro desde a sua criação. Nos anos 1920, foram uma resposta à repressão constante do samba pelas autoridades policiais. Os blocos e ranchos tomavam as ruas e passavam em frente às casas das "tias baianas", como Tia Ciata, em contraposição aos bailes dos salões da Zona Sul, onde negros e mulatos muitas vezes eram impedidos de entrar. A Estação Primeira de Mangueira, inicialmente considerada A Escola de Samba (embora a Deixa Falar seja considerada, por historiadores, a primeira delas) foi formada pelo Bloco dos Arengueiros com outros cordões locais. Os "Arengueiros" eram jovens proibidos de sair nos cordões locais por serem considerados os "arruaceiros do morro".

Os primeiros desfiles: propaganda varguista para combater a malandragem

Quando Mário Filho, por meio do jornal Mundo Sportivo, cria o primeiro concurso de desfiles de escolas de samba, em 1932, o prefeito Pedro Ernesto vislumbra uma oportunidade para conquistar apoio popular. Pertencente ao Partido Autonomista e simpatizante da Aliança Nacional Libertadora - ligada ao "tenentismo de esquerda" - ele negocia com as escolas o apoio da prefeitura em troca de uma regra: que os desfiles falem sobre a história do Brasil. Esse movimento deu origem aos sambas de enredo de hoje.

Os primeiros sambas de enredo são retratos da história oficial do Brasil. Com intervenção direta de Getúlio Vargas, através do Departamento de Informação e Propaganda, o objetivo era exaltar as virtudes do trabalho e o nacionalismo - em detrimento da "malandragem". Nos primeiros anos, os enredos eram quase um jogo de cena - em 1941, a Portela homenageou os "Dez Anos de Glórias" do governo de Vargas sem um samba ou uma alegoria que representasse isso. Ganhou o Carnaval mesmo assim, com a Mangueira, que homenageou o prefeito Pedro Ernesto, em segundo. Em 1946, todas as escolas de samba do Rio foram obrigadas a cantar a vitória dos Aliados na Segunda Guerra Mundial.

Os primeiros enredos abertamente críticos à história oficial datam dos anos 1960. Em 1960, o Salgueiro apresentou a história de Zumbi, retratado como "divino imperador", com o enredo "Quilombo dos Palmares". Na época, desfilar "vestido de escravo" era um tabu, e o carnavalesco Fernando Pamplona teve que convencer os componentes da escola a mostrar a história dos negros que desafiaram o Império pela liberdade. O Salgueiro dividiu o título com outras quatro escolas naquele ano, e deu início a um período chamado de "Revolução Salgueirense". Pela primeira vez, uma escola de samba unia os acadêmicos universitários e os artistas dos teatros aos bambas do morro. 

O carnaval de 1969, a violência e os dribles na censura

Aos poucos, a ditadura militar aprofundou o descontentamento das comunidades do samba. As fartas subvenções da época varguista murcharam, e a polícia passou a controlar com mão de ferro os ensaios das escolas. Em 1969, meses depois do AI-5, a falta de grana obrigou as escolas a improvisar. O Salgueiro saiu com fantasias recauchutadas do Copacabana Palace, a Mangueira desistiu do luxo e focou em acertar nos jurados. Os ensaios eram monitorados pelo DOPS, e o Império Serrano foi obrigado a alterar o seu samba, Heróis da Liberdade. Na estrofe "Esta chama que o ódio não apaga/ Pelo universo é a revolução/ Em sua legítima razão", "revolução" foi alterada para "evolução", já que a palavra era exclusiva para designar as conquistas do governo.

A tensão, entretanto, era evidente. No desfile do Grupo II, ocorrido no dia anterior, uma irritação do público com o sistema de som provocou uma briga generalizada, que arruinou a noite de desfiles. As escolas do Grupo Especial (então Grupo I) desfilaram sob forte aparato policial. Quando o Império Serrano entrou, caças da Aeronáutica sobrevoaram a avenida. Tudo para que os desfiles não virassem comícios.

Ô ô ô ô
Liberdade, Senhor,
Passava a noite, vinha dia
O sangue do negro corria
Dia a dia
De lamento em lamento
De agonia em agonia
Ele pedia
O fim da tirania
Lá em Vila Rica
Junto ao Largo da Bica
Local da opressão
A fiel maçonaria
Com sabedoria
Deu sua decisão lá, rá, rá
Com flores e alegria veio a abolição
A Independência laureando o seu brasão
Ao longe soldados e tambores
Alunos e professores
Acompanhados de clarim
Cantavam assim:
Já raiou a liberdade
A liberdade já raiou
Esta brisa que a juventude afaga
Esta chama que o ódio não apaga pelo Universo
É a evolução em sua legítima razão
Samba, oh samba
Tem a sua primazia
De gozar da felicidade
Samba, meu samba
Presta esta homenagem
Aos "Heróis da Liberdade"
Ô ô ô"

  • * Heróis da Liberdade - Império Serrano (1969). Composição de Silas de Oliveira, Mano Décio e Manoel Ferreira

A confusão do Grupo II obrigou a Liga a adiar a apuração das notas para a quinta-feira. A polícia tentou impedir que o povo fosse à Avenida Presidente Vargas para acompanhar a apuração das notas, mas não conseguiu. Naquela tarde, com as arquibancadas quase desmontadas, torcedores ocuparam os espaços, cantando "já raiou a liberdade" e o refrão do Salgueiro: "zum zum zum zum zum zum/ Capoeira mata um". O Salgueiro ganhou, mas a confusão foi geral: a polícia do Rio dispersou a festa com bombas de gás e tiros de armas de verdade. Três pessoas foram baleadas e dezenas, feridas. 

A censura aberta e o apoio ao regime militar

Nos anos 1970, Martinho da Vila teve um samba e um enredo censurados pela ditadura. O ano era 1974, e a Vila Isabel planejava homenagear a tribo dos Carajás com o enredo Aruanã-Açu. O samba alertava que "o índio está sumindo da face da Terra". A censura obrigou Martinho não só a retirar essa passagem, como também a incluir uma exaltação à Transamazônica. A Vila ficou em último lugar, atrás de enredos como o oficialista Brasil Ano 2000, da Beija-Flor. Este foi um segundo de uma trilogia de enredos oficialistas. Em 1973, a Beija-Flor subiu para o Grupo Especial com o enredo "Educação Para o Desenvolvimento", e em 1975 homenageou a ditadura com Grande Decênio.

"É de novo carnaval
Para o samba este é o maior prêmio
E o Beija-Flor vem exaltar
Com galhardia o grande decênio
Do nosso Brasil que segue avante
Pelo Céu, mar e terra
Nas asas do progresso constante
Onde tanta riqueza se encerra
Lembrando PIS e PASEP
E também o FUNRURAL
Que ampara o homem do campo
Com segurança total
O comércio e a indústria
Fortalecem nosso capital
Que no setor da economia
Alcançou projeção mundial
(E lembraremos)
Lembraremos também
O MOBRAL, sua função
Que para tantos brasileiros
Abriu as portas da educação"

  •  Grande Decênio - Beija-Flor, 1975

O motivo do oficialismo era a relação de Anísio Abraão Davi, então presidente da escola, com a ditadura. Anísio negociou uma permissão informal para manter o jogo do bicho na sua cidade em troca de apoio à repressão e propaganda do regime na Beija-Flor. Os três enredos oficialistas causaram enorme antipatia entre o público, fazendo com que, em 1976, a Beija-Flor buscasse uma renovação. Com Joãosinho Trinta, então estrela do Salgueiro, de carnavalesco, o enredo "Sonhar Com Rei Dá Leão" - que fala explicitamente do jogo do bicho - venceu o Carnaval de 1976.

As escolas críticas dos anos 1980

Com a dissolução do regime militar e a diminuição da censura, os enredos de escolas de samba passaram a ter liberdade para críticas abertas ao governo, ao regime e às condições sociais. Os anos 1980 foram férteis em enredos críticos. Em 1983, a União da Ilha cantou "quem plantou, vai colher/ vai agora receber/ toma lá, dá cá", e a Caprichosos de Pilares representou uma cozinheira "maldizendo a inflação". A mesma União da Ilha cantou "a voz do povo é a voz de Deus/ Será?" em 1984, ano da inauguração do sambódromo. Em 1985, a Caprichosos foi bem mais direta: "Diretamente, o povo escolhia o presidente/ Se comia mais feijão/ Vovó botava a poupança no colchão/ Hoje está tudo mudado/ Tem muita gente no lugar errado"

Sob a batuta do carnavalesco Luiz Fernando Reis, a Caprichosos passou, nessa época, a ficar famosa pelo deboche com o governo e os costumes. Não era voz isolada, entretanto: a Império Serrano fez outra crítica direta ao regime militar em 1986, com "Me dá, me dá/ Me dá o que é meu/ Foram vinte anos/ Que alguém comeu"

Em 1987, a Mocidade, com "Tupinicópolis", criticou o genocídio indígena. O Império da Tijuca exaltava o "povo brasileiro" que, mesmo com a vitória na Guerra do Paraguai, foi abandonado. Em 1988, no centenário da Abolição, o governo planejava uma grande festa para celebrar Princesa Isabel. A resposta da avenida veio com enredos que contestaram a história oficial: "Kizomba, Festa da Raça" abandonou o luxo imperial e foi com fantasias de palha, cantando "Valeu, Zumbi". 

A Mangueira cantava "será que já raiou a liberdade?". A outrora oficialista Beija-Flor reclamou a "verdadeira liberdade", dizendo que o sol raiou, mas logo veio a lua - o sol da liberdade do negro, a lua do abandono social. 

Em 1989, a mesma Beija-Flor teve o Cristo Redentor censurado, devido a presença de mendigos, ratos e urubus em torno dele. Joãosinho Trinta mandou para a avenida a mesma imagem coberta com uma lona preta e a inscrição "Mesmo Proibido, Olhai Por Nós", que se tornou uma das imagens mais icônicas do Carnaval.

Outra escola que passou a ser notada pelos enredos críticos, nessa época, foi a São Clemente. Em 1990, cantou que "o povo ficou de fora da jogada", reclamando da elitização do sambódromo. Em 1991, com "Já Vi Esse Filme", fez uma crítica direta ao confisco da poupança por Fernando Collor.

Depois de vários anos de enredos patrocinados - alguns bastante contestados, como o apoio da Beija-Flor ao governo da Guiné Equatorial em 2015 - o Carnaval de 2018 retoma os enredos com fortes críticas sociais. O Salgueiro lembrou o abandono das mulheres negras, a Beija-Flor lembrou a corrupção, e a Paraíso da Tuiuti, escola mais falada nas redes sociais desde o início dos desfiles, mostrou Temer como vampiro e manifestantes como fantoches.

É uma história dos sambas de enredo que aparecia apenas esporadicamente, nos últimos anos - a Mocidade de 2016 mostrou uma mulher de tailleur vermelho sendo presa, numa clara alusão a Dilma Rousseff - mas que começa a ser retomada, devido às crises econômica, política e social. Nas palavras do carnavalesco da Paraíso da Tuiuti, Jack Vasconcelos: "É uma crítica a um sistema. Quem tem mais poder tende a acreditar que o próximo deve servi-lo, deve ser explorado, que o fraco merece esse papel, o mundo é assim. E não é. É uma crítica a uma grande ideia, que vem sendo trazida na humanidade, de tempos em tempos, para que a gente possa quebrar essa corrente"

 

https://gauchazh.clicrbs.com.br/cultura-e-lazer/noticia/2018/02/carnaval-de-2018-retoma-historia-politica-dos-sambas-de-enredo-das-escolas-cariocas-cjdlwaig3019j01rvxuqeuqmg.html 

THIAGO RIBEIR / AGIF/ESTADÃO CONTEÚDO
Comissão de frente da Paraíso do Tuiuti, que falou sobre trabalho e escravidão   THIAGO RIBEIR / AGIF/ESTADÃO CONTEÚDO

Nas palavras de Cláudio Brito, comentarista de GaúchaZH, esse foi o Carnaval mais politizado do último quarto de século. Com o corte de verbas da prefeitura do Rio de Janeiro, as escolas de samba tiveram enormes dificuldades para manter o padrão luxuoso histórico dos desfiles. Algumas delas, então, aproveitaram o momento para protestar e refletir o descontentamento dos brasileiros com diversas instituições - o governo Temer, a corrupção nas estatais, a política, a religião, o racismo, a intolerância, a xenofobia.

Os desfiles com motivação política fazem parte da história do Carnaval do Rio de Janeiro desde a sua criação. Nos anos 1920, foram uma resposta à repressão constante do samba pelas autoridades policiais. Os blocos e ranchos tomavam as ruas e passavam em frente às casas das "tias baianas", como Tia Ciata, em contraposição aos bailes dos salões da Zona Sul, onde negros e mulatos muitas vezes eram impedidos de entrar. A Estação Primeira de Mangueira, inicialmente considerada A Escola de Samba (embora a Deixa Falar seja considerada, por historiadores, a primeira delas) foi formada pelo Bloco dos Arengueiros com outros cordões locais. Os "Arengueiros" eram jovens proibidos de sair nos cordões locais por serem considerados os "arruaceiros do morro".

Os primeiros desfiles: propaganda varguista para combater a malandragem

Quando Mário Filho, por meio do jornal Mundo Sportivo, cria o primeiro concurso de desfiles de escolas de samba, em 1932, o prefeito Pedro Ernesto vislumbra uma oportunidade para conquistar apoio popular. Pertencente ao Partido Autonomista e simpatizante da Aliança Nacional Libertadora - ligada ao "tenentismo de esquerda" - ele negocia com as escolas o apoio da prefeitura em troca de uma regra: que os desfiles falem sobre a história do Brasil. Esse movimento deu origem aos sambas de enredo de hoje.

Os primeiros sambas de enredo são retratos da história oficial do Brasil. Com intervenção direta de Getúlio Vargas, através do Departamento de Informação e Propaganda, o objetivo era exaltar as virtudes do trabalho e o nacionalismo - em detrimento da "malandragem". Nos primeiros anos, os enredos eram quase um jogo de cena - em 1941, a Portela homenageou os "Dez Anos de Glórias" do governo de Vargas sem um samba ou uma alegoria que representasse isso. Ganhou o Carnaval mesmo assim, com a Mangueira, que homenageou o prefeito Pedro Ernesto, em segundo. Em 1946, todas as escolas de samba do Rio foram obrigadas a cantar a vitória dos Aliados na Segunda Guerra Mundial.

Os primeiros enredos abertamente críticos à história oficial datam dos anos 1960. Em 1960, o Salgueiro apresentou a história de Zumbi, retratado como "divino imperador", com o enredo "Quilombo dos Palmares". Na época, desfilar "vestido de escravo" era um tabu, e o carnavalesco Fernando Pamplona teve que convencer os componentes da escola a mostrar a história dos negros que desafiaram o Império pela liberdade. O Salgueiro dividiu o título com outras quatro escolas naquele ano, e deu início a um período chamado de "Revolução Salgueirense". Pela primeira vez, uma escola de samba unia os acadêmicos universitários e os artistas dos teatros aos bambas do morro. 

O carnaval de 1969, a violência e os dribles na censura

Aos poucos, a ditadura militar aprofundou o descontentamento das comunidades do samba. As fartas subvenções da época varguista murcharam, e a polícia passou a controlar com mão de ferro os ensaios das escolas. Em 1969, meses depois do AI-5, a falta de grana obrigou as escolas a improvisar. O Salgueiro saiu com fantasias recauchutadas do Copacabana Palace, a Mangueira desistiu do luxo e focou em acertar nos jurados. Os ensaios eram monitorados pelo DOPS, e o Império Serrano foi obrigado a alterar o seu samba, Heróis da Liberdade. Na estrofe "Esta chama que o ódio não apaga/ Pelo universo é a revolução/ Em sua legítima razão", "revolução" foi alterada para "evolução", já que a palavra era exclusiva para designar as conquistas do governo.

A tensão, entretanto, era evidente. No desfile do Grupo II, ocorrido no dia anterior, uma irritação do público com o sistema de som provocou uma briga generalizada, que arruinou a noite de desfiles. As escolas do Grupo Especial (então Grupo I) desfilaram sob forte aparato policial. Quando o Império Serrano entrou, caças da Aeronáutica sobrevoaram a avenida. Tudo para que os desfiles não virassem comícios.

Ô ô ô ô
Liberdade, Senhor,
Passava a noite, vinha dia
O sangue do negro corria
Dia a dia
De lamento em lamento
De agonia em agonia
Ele pedia
O fim da tirania
Lá em Vila Rica
Junto ao Largo da Bica
Local da opressão
A fiel maçonaria
Com sabedoria
Deu sua decisão lá, rá, rá
Com flores e alegria veio a abolição
A Independência laureando o seu brasão
Ao longe soldados e tambores
Alunos e professores
Acompanhados de clarim
Cantavam assim:
Já raiou a liberdade
A liberdade já raiou
Esta brisa que a juventude afaga
Esta chama que o ódio não apaga pelo Universo
É a evolução em sua legítima razão
Samba, oh samba
Tem a sua primazia
De gozar da felicidade
Samba, meu samba
Presta esta homenagem
Aos "Heróis da Liberdade"
Ô ô ô"

  • * Heróis da Liberdade - Império Serrano (1969). Composição de Silas de Oliveira, Mano Décio e Manoel Ferreira

A confusão do Grupo II obrigou a Liga a adiar a apuração das notas para a quinta-feira. A polícia tentou impedir que o povo fosse à Avenida Presidente Vargas para acompanhar a apuração das notas, mas não conseguiu. Naquela tarde, com as arquibancadas quase desmontadas, torcedores ocuparam os espaços, cantando "já raiou a liberdade" e o refrão do Salgueiro: "zum zum zum zum zum zum/ Capoeira mata um". O Salgueiro ganhou, mas a confusão foi geral: a polícia do Rio dispersou a festa com bombas de gás e tiros de armas de verdade. Três pessoas foram baleadas e dezenas, feridas. 

A censura aberta e o apoio ao regime militar

Nos anos 1970, Martinho da Vila teve um samba e um enredo censurados pela ditadura. O ano era 1974, e a Vila Isabel planejava homenagear a tribo dos Carajás com o enredo Aruanã-Açu. O samba alertava que "o índio está sumindo da face da Terra". A censura obrigou Martinho não só a retirar essa passagem, como também a incluir uma exaltação à Transamazônica. A Vila ficou em último lugar, atrás de enredos como o oficialista Brasil Ano 2000, da Beija-Flor. Este foi um segundo de uma trilogia de enredos oficialistas. Em 1973, a Beija-Flor subiu para o Grupo Especial com o enredo "Educação Para o Desenvolvimento", e em 1975 homenageou a ditadura com Grande Decênio.

"É de novo carnaval
Para o samba este é o maior prêmio
E o Beija-Flor vem exaltar
Com galhardia o grande decênio
Do nosso Brasil que segue avante
Pelo Céu, mar e terra
Nas asas do progresso constante
Onde tanta riqueza se encerra
Lembrando PIS e PASEP
E também o FUNRURAL
Que ampara o homem do campo
Com segurança total
O comércio e a indústria
Fortalecem nosso capital
Que no setor da economia
Alcançou projeção mundial
(E lembraremos)
Lembraremos também
O MOBRAL, sua função
Que para tantos brasileiros
Abriu as portas da educação"

  •  Grande Decênio - Beija-Flor, 1975

O motivo do oficialismo era a relação de Anísio Abraão Davi, então presidente da escola, com a ditadura. Anísio negociou uma permissão informal para manter o jogo do bicho na sua cidade em troca de apoio à repressão e propaganda do regime na Beija-Flor. Os três enredos oficialistas causaram enorme antipatia entre o público, fazendo com que, em 1976, a Beija-Flor buscasse uma renovação. Com Joãosinho Trinta, então estrela do Salgueiro, de carnavalesco, o enredo "Sonhar Com Rei Dá Leão" - que fala explicitamente do jogo do bicho - venceu o Carnaval de 1976.

As escolas críticas dos anos 1980

Com a dissolução do regime militar e a diminuição da censura, os enredos de escolas de samba passaram a ter liberdade para críticas abertas ao governo, ao regime e às condições sociais. Os anos 1980 foram férteis em enredos críticos. Em 1983, a União da Ilha cantou "quem plantou, vai colher/ vai agora receber/ toma lá, dá cá", e a Caprichosos de Pilares representou uma cozinheira "maldizendo a inflação". A mesma União da Ilha cantou "a voz do povo é a voz de Deus/ Será?" em 1984, ano da inauguração do sambódromo. Em 1985, a Caprichosos foi bem mais direta: "Diretamente, o povo escolhia o presidente/ Se comia mais feijão/ Vovó botava a poupança no colchão/ Hoje está tudo mudado/ Tem muita gente no lugar errado"

Sob a batuta do carnavalesco Luiz Fernando Reis, a Caprichosos passou, nessa época, a ficar famosa pelo deboche com o governo e os costumes. Não era voz isolada, entretanto: a Império Serrano fez outra crítica direta ao regime militar em 1986, com "Me dá, me dá/ Me dá o que é meu/ Foram vinte anos/ Que alguém comeu"

Em 1987, a Mocidade, com "Tupinicópolis", criticou o genocídio indígena. O Império da Tijuca exaltava o "povo brasileiro" que, mesmo com a vitória na Guerra do Paraguai, foi abandonado. Em 1988, no centenário da Abolição, o governo planejava uma grande festa para celebrar Princesa Isabel. A resposta da avenida veio com enredos que contestaram a história oficial: "Kizomba, Festa da Raça" abandonou o luxo imperial e foi com fantasias de palha, cantando "Valeu, Zumbi". 

A Mangueira cantava "será que já raiou a liberdade?". A outrora oficialista Beija-Flor reclamou a "verdadeira liberdade", dizendo que o sol raiou, mas logo veio a lua - o sol da liberdade do negro, a lua do abandono social. 

Em 1989, a mesma Beija-Flor teve o Cristo Redentor censurado, devido a presença de mendigos, ratos e urubus em torno dele. Joãosinho Trinta mandou para a avenida a mesma imagem coberta com uma lona preta e a inscrição "Mesmo Proibido, Olhai Por Nós", que se tornou uma das imagens mais icônicas do Carnaval.

Outra escola que passou a ser notada pelos enredos críticos, nessa época, foi a São Clemente. Em 1990, cantou que "o povo ficou de fora da jogada", reclamando da elitização do sambódromo. Em 1991, com "Já Vi Esse Filme", fez uma crítica direta ao confisco da poupança por Fernando Collor.

Depois de vários anos de enredos patrocinados - alguns bastante contestados, como o apoio da Beija-Flor ao governo da Guiné Equatorial em 2015 - o Carnaval de 2018 retoma os enredos com fortes críticas sociais. O Salgueiro lembrou o abandono das mulheres negras, a Beija-Flor lembrou a corrupção, e a Paraíso da Tuiuti, escola mais falada nas redes sociais desde o início dos desfiles, mostrou Temer como vampiro e manifestantes como fantoches.

É uma história dos sambas de enredo que aparecia apenas esporadicamente, nos últimos anos - a Mocidade de 2016 mostrou uma mulher de tailleur vermelho sendo presa, numa clara alusão a Dilma Rousseff - mas que começa a ser retomada, devido às crises econômica, política e social. Nas palavras do carnavalesco da Paraíso da Tuiuti, Jack Vasconcelos: "É uma crítica a um sistema. Quem tem mais poder tende a acreditar que o próximo deve servi-lo, deve ser explorado, que o fraco merece esse papel, o mundo é assim. E não é. É uma crítica a uma grande ideia, que vem sendo trazida na humanidade, de tempos em tempos, para que a gente possa quebrar essa corrente"

 

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