Homeschooling é a solução?

Homeschooling: a solução para um problema que não existe
De tempos em tempos, a extrema direita brasileira precisa encontrar uma nova pauta para manter sua militância mobilizada. Quando não é a urna eletrônica, é o kit gay. Quando não é a mamadeira de piroca, é o comunismo nas escolas. Agora, volta à cena o homeschooling.
A pergunta é simples: qual é o grande problema nacional que o ensino domiciliar pretende resolver?
As escolas estão lotadas de crianças querendo estudar. Os professores enfrentam salários baixos, falta de estrutura e violência. Milhões de brasileiros abandonam os estudos antes de concluir o ensino médio.
Mas, aparentemente, a urgência nacional seria permitir que pais transformem a sala de casa em sala de aula.
O debate revela muito mais sobre a agenda política da extrema direita do que sobre educação.
A Constituição Federal determina que a educação é dever do Estado e da família, com a colaboração da sociedade. O Estatuto da Criança e do Adolescente obriga a matrícula na rede regular de ensino. A Lei de Diretrizes e Bases da Educação faz a mesma exigência. Em 2018, o Supremo Tribunal Federal decidiu que não existe, na legislação brasileira, um direito automático ao homeschooling.
Não é uma questão ideológica. É uma questão jurídica.
Mas a discussão nunca foi realmente sobre leis.
Ela faz parte de uma visão de mundo que vê qualquer instituição pública como inimiga. A escola deixa de ser um espaço de aprendizado e convivência para se transformar em um suposto centro de doutrinação. O
professor deixa de ser educador para virar suspeito. O conhecimento científico passa a disputar espaço com teorias conspiratórias publicadas em grupos de WhatsApp.
A escola tem defeitos. Muitos defeitos.
Mas ela continua sendo um dos poucos lugares onde crianças aprendem a conviver com pessoas diferentes delas. Diferentes religiões, diferentes classes sociais, diferentes opiniões políticas, diferentes realidades.
Talvez seja justamente isso que incomode alguns setores.
Porque a democracia exige convivência. E a convivência exige contato com o diferente.
Nenhuma criança escolhe nascer em determinada família. Por isso a educação não pode ser apenas um direito dos pais. Ela também é um direito da criança.
A escola não ensina apenas matemática e português. Ela ensina que o mundo é maior que a nossa sala de estar.
E talvez seja exatamente essa a lição que alguns adultos não querem que seus filhos aprendam.
O Cronista do Malbec
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