Influência da Ku Klux Klan

A Ku Klux Klan costuma ser tratada como uma aberração histórica, uma página vergonhosa mas já superada dos Estados Unidos...
Ahhhh tá...
Será?
Essa narrativa é muito confortável, porém, esconde que embora a organização em si tenha perdido o poder que possuía no passado, MUITO dos valores que ajudou a difundir continuam circulando na cultura política e religiosa norte-americana e foram absorvidos por setores da cristandade conservadora sem a necessidade da existência formal da própria Klan.
A KKK nunca foi só um grupo racista. Ela se apresentava como guardiã de um determinado projeto de sociedade ideal - branca, patriarcal, cristã protestante, nacionalista e profundamente hostil a tudo aquilo que considerava uma ameaça à ordem tradicional. Católicos, judeus, negros, imigrantes, sindicalistas, defensores dos direitos civis e qualquer pessoa que desafiasse as hierarquias sociais estabelecidas podiam ser transformados em inimigos. O discurso religioso não era um detalhe secundário. Era parte central da legitimação moral de seu projeto político.
William Joseph Simmons: Um pregador usou o cristianismo para reviver a Ku Klux Klan - The Washington Post https://share.google/qIgtsqB3RIiL1PDAA
Com o passar das décadas, especialmente após as conquistas do movimento pelos direitos civis, tornou-se cada vez mais difícil defender publicamente o racismo biológico explícito. Entretanto, muitos dos medos, ressentimentos e mecanismos políticos associados à supremacia branca não desapareceram ~ eles foram reformulados ~ é essencial pontuar isso nesse post.
O discurso foi refeito, visando uma expansão ideológica muito além do umbigo da coisa...
Ao invés de falar abertamente em segregação racial, passou-se a falar em defesa da tradição, dos valores cristãos, da família, da lei e da ordem, da identidade nacional e do combate a supostas ameaças culturais. Evidentemente, nem toda defesa desses temas é racista ou extremista, mas, o problema é que esses discursos também servem pra preservar estruturas de exclusão sem recorrer à linguagem racial direta.
Diversos pesquisadores da história religiosa dos Estados Unidos mostram que parte significativa do cristianismo conservador norte-americano se tornou um ator político central justamente nesse ambiente de reação às transformações sociais do século XX. A oposição aos direitos civis, ao feminismo, aos movimentos LGBTQIA+, ao secularismo e a determinadas pautas de justiça social passou a ser apresentada como uma batalha espiritual pela sobrevivência da civilização cristã. O inimigo mudou de nome, mas a lógica da guerra cultural permaneceu.
Essa influência não ficou restrita aos Estados Unidos. Durante décadas, igrejas, missionários, fundações, seminários, editoras e organizações religiosas norte-americanas exportaram para diversos países, inclusive pro Brasil, uma visão de mundo marcada por anticomunismo militante, nacionalismo religioso, conservadorismo moral e a crença de que existe uma luta permanente entre forças divinas e forças malignas atuando na política e na sociedade. Muitas ideias que hoje parecem naturais em grande parte do meio evangélico brasileiro chegaram por meio dessa intensa circulação internacional de literatura, cursos, conferências e lideranças religiosas...
É importante deixar claro que isso não significa que o evangelicalismo brasileiro seja uma extensão da Ku Klux Klan, nem que todo cristão conservador compartilhe ideias supremacistas, calma. Seria uma simplificação grosseira e historicamente incorreta. O ponto é outro. O ponto é que determinadas estruturas de pensamento, como a noção de uma sociedade cristã ameaçada por inimigos internos, a sacralização da ordem social existente, a demonização de movimentos por igualdade e a fusão entre identidade religiosa e identidade nacional, possuem uma longa trajetória histórica nos Estados Unidos, da qual a KKK foi uma das expressões mais extremas e isso foi projetado pra fora, pela via cristã missionária - como projeto geopolítico imperialista/colonizador de mentes e espíritos...
E por que se fala tão pouco sobre isso? Ora, em primeiro lugar, porque é mais fácil apresentar a Klan como um grupo isolado de fanáticos né, do que discutir as correntes culturais e religiosas mais amplas que ajudaram a sustentá-la. Em segundo lugar, porque muitas instituições religiosas preferem destacar sua participação em causas nobres e minimizar o fato imperdoável de que colaboraram com sistemas de opressão racista brutais. Em terceiro lugar, porque existe um desconforto evidente em reconhecer que o racismo, o nacionalismo religioso e certas formas de autoritarismo não surgem nas margens da sociedade, mas sim em instituições respeitáveis e socialmente legitimadas, como a igreja.
Fundada a Ku Klux Klan, a violência racista em nome de Deus https://share.google/7aUaxq5pM1m77sjrP
A consequência é que a KKK costuma figurar nos livros e documentários como um monstro do passado, enquanto os debates sobre os elementos culturais, políticos e religiosos que permitiram seu crescimento permanecem frequentemente fora do centro das discussões. O resultado é uma memória histórica seletiva que condena a organização, mas raramente se examina com a mesma profundidade as ideias, os medos e as estruturas de poder que ajudaram a torná-la possível e que, sob novas formas, continuam influenciando parte do debate público até os dias atuais.
Embora a KKK seja um grupo focado em controle doméstico e racismo interno, sua ideologia de base reflete o mesmo Destino Manifesto que impulsionou o imperialismo dos EUA nos séculos XIX e XX. A crença na superioridade cultural, moral e racial branca não serviu apenas para justificar linchamentos e a segregação no Sul dos EUA, mas também legitimou historicamente a expansão territorial e a dominação política e econômica externa, especialmente sobre a América Latina, vista como uma extensão da "tutela" civilizatória anglo-saxônica.
O Destino Manifesto foi a crença estadunidense de que a nação foi divinamente escolhida para expandir seus domínios e sua cultura. Na América Latina, essa ideologia justificou o imperialismo ao lado de missionários protestantes que atuaram como agentes de influência cultural, civilizatória e religiosa, buscando "salvar" e "modernizar" o continente sob a ótica americana, ou seja, sob a ótica da civilização "superior"...![]()
A expansão dos Estados Unidos e sua projeção sobre a América Latina combinam elementos geopolíticos e religiosos históricos:
O Destino Manifesto - Consolidado no século XIX, defendia que o povo anglo-saxão, protestante e branco possuía uma missão divina de levar a civilização, a democracia e o progresso técnico a outros povos.
Ação Missionária - A partir do final do século XIX, com o apoio de igrejas nos EUA, missionários foram enviados à América Latina. Eles atuavam frequentemente com o discurso de disseminar o Evangelho, mas também promoviam o "americanismo", fundando escolas, hospitais e difundindo os valores do liberalismo e do protestantismo norte-americano.
Projetos Políticos e Religiosos - Essa expansão cultural foi vista de forma crítica por muitos latino-americanos, que a consideravam uma forma de dominação imperialista (ideológica e econômica) amparada pela fé.
E por fim, a Teologia do Domínio - de origem americana, se alastrou pra além das fronteiras dos EUA, ensinando que o "povo de Deus" (os crentes) "merecem" dominar sobre todas as esperas de poder da sociedade, reforçando o exclusivismo de um único grupo - os que carregam os valores do cristianismo supremacista norte-americano, óbvio.
Não é nada sobre um deus, sobre a vontade de uma divindade entendem?
É TUDO sobre colonização, sobre expansão de domínio político, é sobre PODER e esse poder usa da fé pra submeter, amansar, domesticar as pessoas fazendo delas instrumentos de promoção da suposta/auto-proclamada superioridade racial e espiritual norte-americana.
É TUDO muito humano, é tudo muito sobre o que há de pior no ser humano.
As pessoas vão pras suas igrejinhas, leem suas bibliazinhas, fazem seus votos e sacrifícios, cumprem suas regrinhas e se embriagam de promessas vazias, crendo estar servindo a Deus, cooptadas por uma ideologia supremacista que cada dia se agiganta mais, com incrível capacidade de camuflar sua verdadeira face, podre, hedionda.
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Gi Stadnicki
FONTE:





